medico segurando bebe recem nascido

Dra. Erika Milhomem

Vamos falar hoje de temas importantes e que não esperam? Afinal: o que é via de parto?

Basicamente, é a forma com a qual o neném vem ao mundo. O parto, fisiologicamente falando, é por via vaginal – o seu corpo se preparou para isso durante os nove meses de gestação. No entanto, existe a via cirúrgica ou abdominal, também conhecida por parto cesárea.

Preste bastante atenção no que vou escrever: não existe parto sem riscos.

Viver é um risco, atravessar a rua (especialmente sem olhar) é um risco. Com o parto não será diferente. E a melhor via de nascimento deve ser pensada com muito carinho, pois envolve duas ou mais vidas, desejos, sonhos, dentre outros sentimentos.

Sempre brinco no consultório que ao atravessarmos a rua, olhamos para os dois lados para reduzir os riscos. Com o parto, a mesma coisa deve ser feita. Sempre vamos olhar as condições maternas e as condições fetais para poder indicar o melhor caminho.

E aí vem a pergunta mais temida e difícil de responder:

“Qual é a melhor via de parto?”

E aí vem a resposta mais maravilhosa de ser falada: depende. E depende porque a gravidez é uma balança, em que mãe e o neném têm que estar bem e saudáveis.

Pode ser que o ambiente para a criança em desenvolvimento não esteja adequado, ou então que a mãe de repente desenvolva uma complicação obstétrica que coloca sua vida em risco e com o neném esteja tudo bem – e, por isso, há inclusive a indicação de interrupção da gravidez.

Cada caso é um caso. Se será cesárea ou indução ao trabalho de parto normal, uma coisa é certa: essa decisão precisa ser individualizada e devidamente orientada sobre os riscos e benefícios.

Aqui, vamos falar de forma extremamente genérica sobre os principais riscos de cada via e as principais indicações de parto cesáreo. Porém, lembre-se: converse com seu médico, procure alinhar suas expectativas durante todo o pré-natal. Esta é a hora que temos para organizar nossos sentimentos e pensar sobre como será o parto e o pós-parto (o tão temido puerpério).

Mais um recado: prepare-se para sua escolha, mas esteja ainda mais preparada para a mudança das opções.

Já recebi pacientes que queriam cesárea de todo jeito e todo custo e, no final, passaram por lindos partos normais, ou vice-versa. Então, não sofra se não for possível a realização de seu desejo: o importante é ter mãe e neném saudáveis durante todo o processo.

Os riscos de cada via de parto

Sabemos que a cesárea é uma cirurgia e, por isso, traz maiores riscos que o parto normal. Ela:

  • sangra o dobro (aproximadamente 1 litro durante o procedimento, enquanto o parto vaginal elimina cerca de 0,5 litros de sangue;
  • tem maior risco de infecção;
  • dentre outras complicações resumidas no quadro abaixo:
Parto normalParto Cesáreo
Ocorrência de complicações (1)8,6%9,2%
Mortalidade materna0,9%2,7%
Embolia amniótica (2)3,3-7,7 casos a cada 100.000 partos15,8 casos a cada 100.000 partos
Anormalidades placentárias (3)O risco de placenta prévia (placenta “baixa”) é maior a cada parto cesáreo (4% mais risco após cada procedimento).
Após 3 cesáreas, o risco de complicações relacionadas à placenta é cerca de 40%.
Incontinência urináriaSem diferença entre vias de parto
Depressão pós-partoSem diferença entre vias de parto
Riscos fetais
Dificuldade respiratóriaMenor que 1%1 a 4% (sem trabalho de parto)
Distócia de ombro 1 a 2%%0%

(1) Complicações: sangramento pós parto, infecções, ruptura uterina, complicações anestésicas etc.
(2) Nessa complicação, o líquido amniótico entra nos vasos sanguíneos da mãe.
(3) Placenta prévia (“placenta baixa”), acretismo placentário (invasão de outros órgãos pela placenta) etc.

Adaptado de ACOG: Safe Prevention of the Primary Cesarean Delivery, mar. 2014. Disponível em: www.acog.org

Mitos da contraindicação ao parto normal

O parto vaginal é um evento fisiológico e o seu corpo se preparou para este momento. Sempre converso com minhas pacientes que primeiro: seu corpo não vai te dar um neném grande demais que você não seja capaz de parir.

Claro, pesos superiores a 4,5 – 5,0 kg já são indicações relativas de cesárea. Porém, sempre devemos lembrar que o ultrassom tem uma taxa de erro de, em média, 15% para mais ou para menos. Então aquele valor assusta, mas pode não ser real.

Outro mito extremamente comum é de que se o neném tem uma circular de cordão no pescoço, é algo perigoso. Primeira coisa que precisamos entender: da mesma forma com a qual o bebê mexe e forma esta circular, ele pode movimentar novamente e desfazê-la.

Além disso, uma circular de cordão em volta do pescoço não vai sufocar o neném dentro da barriga – ele não está usando os pulmões para respirar ainda, e todos os nutrientes (incluindo oxigênio) chegam por meio da placenta, então isso não causa sofrimento.

Terceiro: nenéns nascem com circular de cordão, isso não é algo que impede o trabalho de parto e parto normal.

Benefícios do parto normal

Bebês que passaram por um parto normal respiram melhor. E isso se deve ao fato de que durante a passagem pelo canal de parto (ou seja, pela vagina), o neném é comprimido, levando a uma eliminação mais eficiente do líquido amniótico dos pulmões. Além disso, as contrações maternas estimulam o bebê a produzir o hormônio cortisol, que é muito importante para o bom funcionamento dos pulmões da criança.

Os benefícios não são apenas fetais, mas também maternos. Durante o trabalho de parto, a mãe produz em grande quantidade o hormônio ocitocina, que estimula as contrações, mas também estimula a saída de leite pela mamas.

Além disso, por ser um evento fisiológico, a mãe apresenta uma recuperação muito mais rápida, com menos dor, desconforto ou restrição. Geralmente, 24 horas após o nascimento, tanto a mãe quanto o bebê já recebem alta.

Parto cesáreo

A cesárea é uma cirurgia e, portanto, não pode ter seus riscos minimizados, como já vimos. Contudo, não podemos negar que, quando bem indicado, esse procedimento salva vidas.

As principais indicações encontram-se abaixo descritas, mas devo reforçar que cada caso é um caso e deve ser avaliado juntamente ao seu médico.

São indicações absolutas de cesariana:

  • placenta prévia, ou seja, recobrindo o colo do útero e impedindo a passagem fetal através dele;
  • herpes genital com lesão ativa durante o trabalho de parto (alto risco de transmissão da doença ao bebê);
  • descolamento prematuro de membranas (quando ocorre fora do período expulsivo de trabalho de parto);
  • prolapso de cordão umbilical (tradução: a bolsa rompeu antes da dilatação estar completa e o cordão umbilical desceu, ficando entre a cabecinha do neném e a vagina): isso corta o fluxo de sangue para o neném e a resolução imediata deve ser tomada.

Indicações relativas:

  • Cicatriz uterina prévia: uma cesárea anterior não contraindica um parto normal, mas se tiver sido submetida a uma miomectomia extensa, o risco de rotura uterina já aumenta.
  • Feto pélvico (ou seja, sentadinho): hoje a grande maioria dos profissionais não passam em sua formação médica pela experiência de assistir um parto pélvico por via vaginal. Então, pode-se optar pela realização de parto cesáreo, idealmente a partir de 39 semanas (se sem outras intercorrências na gravidez).
  • Vitalidade do bebê comprometida (evidenciado em um ultrassom com doppler alterado por exemplo, ou cardiotocografia alterada)
  • dentre outras.

Enfim…

Como pudemos ver ao longo desse texto, a via de parto pode ser uma escolha das futuras mamães, porém, ambas as opções devem ser estudadas e consideradas com cuidado.

No fim das contas, gosto de falar que o tipo de parto “escolhido pelo bebê” será a melhor opção para ele, e para a mãe. Então, se você planejou uma cesárea com data e tudo, não se assuste se o seu filho quiser chegar um pouco antes. E o mesmo vale para mamães que simpatizam com o parto normal: em caso de quaisquer complicações, ou demora do neném, pode ter certeza de que uma cesariana será a melhor via de parto para vocês.

No mais, confie na sua equipe médica e, durante a gestação, escolha profissionais que lhe passam confiança e tranquilidade. Assim, todo o tempo de espera até o nascimento será muito menos angustiante.

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