Beagle desfocado atrás de uma mão focada de veterinário segurando uma seringa de vacina

Dr. Artur Vasconcelos

Todos os tutores temem que seus cães adoeçam, especialmente quando se trata de infecções como a parvovirose e a cinomose, doenças graves e contra as quais existem vacinas.

A imunização foi uma das descobertas mais importantes da medicina, tanto para conquistar saúde quanto longevidade. Porém, as vacinas também podem fazer mal quando usadas de forma inadequada.

Na medicina veterinária, a recomendação geral ainda é vacinar os cães anualmente. Mas…. será que isso é realmente necessário?

Para esclarecer esse ponto, existem centenas de trabalhos científicos publicados nas últimas décadas. Não é uma questão de opinião, mas sim de estudar as evidências científicas e seguir as diretrizes utilizadas atualmente em todo o mundo (Wsava Vaccination Guidelines – Portuguese).

Por que se preocupar em vacinar menos?

O excesso de vacinação pode ter muitas consequências para a saúde. As reações adversas e complicações das vacinas são chamadas de vacinose:

Reações imediatas às vacinas:

  • alergia;
  • inflamação;
  • febre;
  • fadiga;
  • perda de apetite;
  • lesões na boca.

Reações em médio prazo:

  • acometimento dos nervos;
  • convulsões;
  • tumores no local da aplicação;
  • imunossupressão.

Reações tardias às vacinas:

  • trombocitopenia auto-imune (queda na contagem de plaquetas);
  • anemia hemolítica auto-imune;
  • artrite;
  • alergia;
  • problemas renais.

Planejamento individualizado de vacinas

Cada animal é único! Sua saúde, hábitos de vida, ambiente onde vive e suas atividades de lazer são diferentes. Portanto, a imunização deve ser programada individualmente, baseada na necessidade real do paciente.

A vacinação do filhote, realizada entre 2 e 4 meses de idade, está indicada em todos os animais. As vacinas indicadas são a polivalente e a anti-rábica.
Existem vários tipos de vacina polivalente, que conferem imunidade contra:

Vacina V6 Vacina V7
  • Cinomose
  • Parvovirose
  • Adenovirose 2
  • Hepatite
  • Parainfluenza
  • Coronavirose
  • Cinomose
  • Parvovirose
  • Adenovirose 2
  • Hepatite
  • Parainfluenza
  • Leptospirose
    • L. canicola
    • L. icterohaemorrhagie
Vacina V8 Vacina V10
  • Cinomose
  • Parvovirose
  • Adenovirose
  • Hepatite
  • Parainfluenza
  • Coronavirose
  • Leptospirose
    • L. canicola
    • L. icterohaemorrhagie
  • Cinomose
  • Parvovirose
  • Adenovirose
  • Hepatite
  • Parainfluenza
  • Coronavirose
  • Leptospirose
    • L. canicola
    • L. icterohaemorrhagie
    • L. pomona *
    • L. grippotyphosa *

(*) Essas duas cepas de Leptospira não têm importância clínica para animais de companhia no Brasil. A L. Pomona infecta suínos e a L. grippotyphosa tem como hospedeiros roedores silvestres dos EUA e Canadá.

Vacinas essenciais, opcionais e não recomendadas

São consideradas essenciais, no Brasil, as vacinas contra cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa canina e raiva.

Algumas outras vacinas são não essenciais ou opcionais, por dois motivos básicos:

  • porque protegem contra doenças benignas e autolimitadas (como é o caso da tosse dos canis);
  • porque têm indicações bem específicas (como é o caso da vacina contra leptospirose).

Por fim, algumas vacinas são não recomendadas por não existirem evidências científicas de sua eficácia.

Vacinas essenciais

Cinomose

A cinomose é uma doença virótica altamente contagiosa. Ela provoca inicialmente febre, prostração, vômitos e diarréia, evoluindo com sintomas respiratórios, secreção nasal e ocular. O comprometimento do sistema nervoso central fica evidente quando surgem os tremores e convulsões.

Não existe um tratamento eficaz para a cinomose, que frequentemente causa sequelas ou a morte do animal. A prevenção é feita por meio da vacinação, que consiste em 3 a 4 doses da vacina a partir de 6-8 semanas até 4 meses de vida.

Apenas depois de completada a vacinação o filhote deve passear na rua e ter contato com outros animais desconhecidos.

Parvovirose

A parvovirose é uma doença altamente contagiosa causada por três tipos diferentes de parvovírus. Ela é transmitida por meio de objetos contaminados ou pelas mãos e roupas de pessoas que cuidam dos animais. O vírus pode persistir por meses no ambiente e em objetos.

Ocorre prostração, perda de apetite, febre, vômitos e diarréia grave, frequentemente com sangue. Alguns cães evoluem com desidratação grave, choque e morte. Outra complicação possível é o acometimento do músculo cardíaco (miocardite aguda).

Não existe tratamento específico contra a parvovirose e sua prevenção é feita por meio da vacinação e da higienização do ambiente.

Hepatite infecciosa canina

Dois tipos de adenovírus provocam doenças em cães: tipos 1 e 2.

O adenovírus tipo 1 causa a hepatite infecciosa canina (HIC), que acomete principalmente cães jovens e não vacinados. Eles apresentam febre alta, diarréia com ou sem sangue, dor abdominal, aumento do fígado, icterícia (mucosas amareladas) e apatia. É uma doença grave e que pode levar o animal ao óbito.

O adenovírus tipo 2 causa a tosse dos canis ou gripe canina. Os animais apresentam tosse intensa, respiração forçada, apatia e tentativa de vômitos. Acomete frequentemente cães que vivem em aglomerados ou frequentam locais com grande número de animais. É uma doença relativamente benigna e os animais se recuperam em até 15 dias.

As vacinas que possuem o adenovírus do tipo 2 têm menos efeitos adversos do que as que contêm o tipo 1 e conferem imunidade cruzada contra essa cepa do vírus. Dessa forma, vacinas que carregam apenas o vírus do tipo 2 protegem o cão contra a tosse dos canis* e a hepatite infecciosa.

(*) A tosse dos canis também pode ser causada por outros agentes, como o vírus da parainfluenza canina e a Bordetella bronchiseptica. Existe uma vacina específica para a tosse dos canis, de aplicação nasal, algumas vezes indicada para “complementar” a polivalente. Ela será abordada na sessão vacinas não essenciais.

Raiva

A raiva é uma doença grave e potencialmente fatal, transmitida pela mordida ou arranhadura de um animal infectado (cão, morcego, guaxinim etc).

Ela acomete o sistema nervoso central e provoca irritação, agressividade, perda da coordenação motora, coma e óbito.

Não existe tratamento para a raiva em cães, apenas em humanos. A melhor forma de prevenir a doença é por meio da vacinação.

As opções de vacinas disponíveis no Brasil são limitadas. Por esse motivo, a imunização acaba sendo feita contra um maior número de doenças do que seria necessário ou recomendado.

A vacina polivalente ideal deveria conferir imunidade contra cinomose, parvovirose e adenovirose (sendo que a vacina contra adenovírus do tipo 2 confere uma imunidade cruzada contra o tipo 1, que provoca a hepatite infecciosa canina). Ou seja, a vacina seria uma V3 e protegeria contra essas quatro doenças.

Vacinas não essenciais

As vacinas não essenciais têm indicação mais restrita, de acordo com o risco de exposição a doenças, o estilo de vida e as condições de saúde do animal. São elas:

  • leptospirose;
  • tosse dos canis;
  • leishmaniose.

Elas são opcionais e sua necessidade deve ser avaliada pelo veterinário, de acordo com o caso.

Leptospirose

A leptospirose é causada por uma infecção pela bactéria Leptospira, contraída através da pele ou ingerida. Ela é comumente encontrada na água, mas também pode estar presente em objetos contaminados pela urina ou fezes de ratos, cachorros, gatos, gambás, guaxinins e outros animais silvestres.

A doença atinge principalmente o fígado e os rins, e pode levar à morte. Ocorre febre, apatia, vômitos, urina escura, icterícia e úlceras bucais.

A prevenção é feita por meio da vacina e outros cuidados como:

  • evitar o contato com poças e coleções de água provenientes de alagamentos;
  • recolher e lavar diariamente as vasilhas de água e comida;
  • eliminar os ratos do ambiente, se houver.

A vacina contra a Leptospira, uma bactéria, não é tão eficaz quanto as vacinas para doenças virais. Um animal vacinado pode contrair a doença, porém ela se apresenta de forma mais branda.

Além disso, existem mais de 30 tipos diferentes de Leptospira, que variam de acordo com a localização. Como as vacinas contêm apenas algumas cepas, elas frequentemente não correspondem ao perfil epidemiológico do local onde mora o animal.

A vacina contra a leptospirose é indicada em situações específicas como, por exemplo, para animais que nadam em rios ou moram em ambientes infestados de roedores.

Tosse dos canis

Como vimos há pouco, a tosse dos canis ou gripe canina é causada por vários agentes, entre eles:

  • adenovírus tipo 2;
  • vírus da parainfluenza canina;
  • bordetella bronchiseptica.

A vacina polivalente contêm o adenovírus tipo 2. Em casos indicados, ela pode ser complementada com a aplicação da vacina nasal específica para tosse dos canis, para aumentar a proteção.

Quando a vacina para tosse dos canis está indicada?

Ela é mais importante para animais que vivem ou têm contato com outros cães (creches, exposições e canis).

Leishmaniose

A leishmaniose canina é causada pelo protozoário Leishmania e transmitida pelo mosquito palha. Os cães infectados podem nunca apresentar sinais da doença ou desenvolverem alterações na pele e órgãos internos.

A principal medida de prevenção é o uso de repelentes para evitar a aproximação do mosquito. A vacinação é indicada como forma de prevenção, mas não substitui o uso dos inseticidas tópicos.

É importante lembrar que animais saudáveis têm melhor imunidade. Investir em uma excelente nutrição, enriquecimento ambiental, uma rotina saudável de exercícios e bem estar é essencial!

Devo vacinar contra a leishmaniose?

A vacina contra Leishmaniose não impede a infecção, porém torna a doença mais branda ao melhorar a imunidade celular do animal. Além disso, a duração da imunidade é curta, menor ou igual a um ano.

Se você se decidir pela vacinação contra a leishmaniose, saiba que mesmo um animal vacinado pode ser infectado e passar a transmitir a doença. Para ter certeza de que ele não é portador de leishmaniose, ele precisa ser submetido a exames laboratoriais específicos periodicamente.

Vacinas não recomendadas

Coronavirose

A importância da doença coronavirose nos cães é questionada, pois o coronavírus parece ser apenas um agente secundário de doença. A vacina contra a coronavirose não é recomendada atualmente.

Giardíase

A giardíase é uma parasitose intestinal causada pela Giardia lamblia. A vacina contra a doença não tem eficácia comprovada cientificamente. Infelizmente, um dos poucos países que ainda a utiliza é o Brasil.

Quanto tempo duram as vacinas?

As vacinas podem conseguir uma imunidade duradoura, por muitos anos ou por toda a vida. Mas… como comprovar isso?

Após a vacinação do filhote, a eficácia da imunização pode ser demonstrada a qualquer momento por meio de uma titulação de anticorpos. Esse exame mede a quantidade de anticorpos produzidos pelo animal após o contato com o antígeno do vírus, bactéria ou protozoário em questão.

A titulação identifica que o animal teve contato com o microrganismo, seja na vacinação ou na natureza.

Em alguns casos, a vacina não tem resposta e o animal não desenvolve imunidade. Isso é mais comum nos filhotes vacinados muito cedo, em que anticorpos da mãe, ainda circulando em seu corpo, eliminam os antígenos da vacina antes que ocorra a imunização.

Esses anticorpos maternos desaparecem entre 2 e 4 meses de idade. Por isso, é importante que a última dose das vacinas do filhote seja dada aos 4 meses ou mais.

Na medicina veterinária, são realizadas frequentemente titulações para as doenças virais:

  • cinomose;
  • parvovirose;
  • adenovirose.

Quando deve ser feita a titulação?

O ideal é que a primeira titulação seja feita em torno de dois meses após o término da vacinação primária, para comprovar a imunidade. Depois disso, comprovada a eficácia das vacinas aplicadas até aquele momento, pode-se realizar nova titulação a cada três anos. Isso mesmo, três anos sem vacinar!

Se não houver titulação disponível, a diretriz atual de vacinação (Wsava, 2015) determina que as vacinas sejam aplicadas a cada três anos.

E a vacina de raiva?

A vacina de raiva é um caso especial, já que sua aplicação anual é exigida por lei em vários locais. As pesquisas mostram que a imunidade contra a raiva tem duração mínima de 3 anos, o que tem gerado questionamento por parte dos tutores e veterinários, que demandam uma alteração na legislação.

Na Europa e nos Estados Unidos, algumas vacinas contra a raiva têm alterado a bula para indicar a vacinação a cada três anos.

A titulação para raiva não é uma opção, pois a vacina é cara e não disponível em todos os locais. Sua utilização se restringe a animais em trânsito internacional para países onde a raiva foi erradicada.

Mas, lembre-se….

Mesmo sem a vacina anual, é MUITO importante que seu pet seja avaliado pelo veterinário que o acompanha pelo menos uma vez ao ano.
Cuidados com a saúde bucal, alimentação, comportamento, controle de parasitas e zoonoses devem ser abordados periodicamente para garantir a saúde e o bem estar do animal.

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