Cachorro deitado em um colchão no chão

Dra. Vernica Foltynek

O costume de aplicar vacinas em pets salvou a vida de muitos bichinhos de estimação ao longo dos anos. Porém, dia após dia, ouvimos histórias sobre como esse procedimento, em excesso, pode causar problemas aos nossos melhores amigos, desde reações alérgicas imediatas até doenças crônicas e morte.

O perigo por trás das vacinas excessivas em pets

Você sabia que a maioria dos animais de estimação recebe cerca de 15 vacinas antes da fase adulta? Um filhote de cachorro em sua primeira vacinação, por exemplo, pode receber uma combinação de 7 tipos diferentes de vírus atenuados em uma única seringa (múltipla canina – V8 ou V10). Esse processo costuma se repetir a cada duas ou três semanas até que ele complete 4 meses de vida.

Depois, a dose de antirrábica é ministrada pela primeira vez e ela, assim como a múltipla, são na maioria das vezes renovadas anualmente.

Tudo em demasia pode fazer mal

Nós vacinamos nossos bichinhos com essa frequência acreditando que tal atitude irá protegê-los de doenças e garantir-lhes uma vida saudável. Porém, não pensamos que um ato como este pode, na verdade, aumentar os riscos de eventos adversos, prejudicando a saúde do nosso melhor amigo.

Uma série de especialistas veterinários recomenda que o melhor (e mais seguro) a se fazer é diminuir a freqüência da maioria destas injeções anuais e entender que o reforço da vacina em pets nem sempre é necessária.

Para saber mais sobre esse assunto e garantir um cuidado pleno ao seu companheiro, continue conosco!

Novas diretrizes para a vacinação de cães e gatos

A entidade internacional WSAVA (Associação Veterinária Mundial de Pequenos Animais), junto ao Grupo de Diretrizes de Vacinação (VGG), desenvolveu novas diretrizes para a vacinação de cães e gatos.

Agora, a recomendação ainda é que todos os cães e gatos recebam o benefício da vacinação, proporcionado a ”imunidade de rebanho”, só que em menor frequência. Apenas essa atitude, por si só, já minimiza de forma eficiente e mais segura a probabilidade de surtos de doenças infecciosas.

Além disso, as vacinas em pets foram separadas em três categorias: essenciais, não essenciais e não recomendadas.

Essenciais para cães

Protegem seu melhor amigo contra doenças:

  • Graves e fatais: cinomose, hepatite infecciosa canina e parvovirose;
  • De risco zoonótico (pode ser transmitida a humanos): hepatite infecciosa, parainfluenza e alguns tipos de leptospirose. Estas vacinas são essenciais apenas em locais de risco para as doenças ou em situações individuais.
  • De distribuição global: raiva, leishmaniose.

A prevenção de todas elas está presente nas vacinas V8 ou V10 (V8 + os dois tipos de leptospirose).

Essenciais para gatos

As vacinas essenciais para gatos são aquelas que protegem contra o parvovírus felino, calicivírus felino, herpesvírus felino 1 e raiva.

Todas estão contidas nas vacinas V3, V4 ou V5 + antirrábica.

Nota: A vacina contra raiva é considerada essencial por ser exigida, pela legislação vigente, em vários municípios. Em diversos países as vacinas para raiva são administradas a cada três anos, mas no Brasil a indicação ainda é anual.

Não essenciais

O VGG definiu as vacinas não essenciais como aquelas que são necessárias somente para os animais que estão em risco de contrair infecções específicas.
Em cães são a parainfluenza e a Bordetella Bronchiseptica e, em gatos, a Leucemia felina e a Chlamydia felis.

Nota: a vacina contra leptospirose é considerada não essencial pela WSAVA porque:
  • sua afecção é menos frequente em áreas não endêmicas;
  • seu tratamento é eficaz e acessível;
  • não contém diversos sorovares (variações de uma determinada bactéria) existentes no ambiente;
  • sua proteção cruzada entre os sorovares é pouco significativa.

Porém, as vacinas Leptospira interrogans Icterohaemorrhagiae e Canicola, em regiões endêmicas, deve ser considera essencial e, portanto, ministrada anualmente por conferir curta proteção. Para isso, deve ser programado um protocolo vacinal individualizado, de acordo com o risco do paciente.

Não recomendadas

São aquelas em que não há evidências científicas o suficiente para justificar seu uso, como Coronavírus canino, Microsporum canis e Giardia lamblia.

Quando devemos introduzir, de fato, a vacina em pets?

A maioria dos filhotes de mães sadias e vacinadas têm anticorpos maternos suficientes para protegê-los nas primeiras semanas de vida.

Sua imunidade passiva começa a declinar entre 8 e 12 semanas de idade para um nível que permita a imunização ativa (vacinação). Estes anticorpos maternos interferem na eficácia da maioria das vacinas essenciais. Por isso o VGG recomenda a administração de múltiplas doses das vacinas essenciais nos filhotes de cães e gatos, com a dose final dada com 16 semanas de vida ou mais. A dose de reforço deve ser ministrada aos 6 ou 12 meses de idade.

Segundo o VGG, as vacinas essenciais não devem ser dadas anualmente, sendo recomendadas no máximo a cada 3 anos, isso se o animal fez o esquema acima sugerido e se encontra em boas condições de saúde.

Atenção: a única exceção a este caso é a vacina anti-rábica que, mesmo podendo conferir imunidade por até 5 anos, é exigida por lei em muitas cidades.

Prevenções adequadas

Algumas vacinas têm sua proteção comprovadamente mais longa do que um ano: a vacina de cinomose protege por pelo menos por 9 anos, a de parvovirose, por 7 anos, a de raiva pode proteger por mais de 5 anos. Essa duração varia de acordo com o estado imunológico e a saúde do paciente.

Já temos disponível no mercado uma série de testes para a determinação da soroproteção de cinomose canina, parvovírus canino, adenovírus canino, raiva e parvovírus felino.

Com eles, podemos saber se os animais estão devidamente protegidos contra tais doenças. Afinal, esses testes determinam a duração da imunidade e confirmam, com maior segurança, se o sistema imune do animal reconheceu o antígeno vacinal e ativou a proteção necessária contra ele.

Os “contras” da vacinação excessiva

A vacinação pode causar efeitos colaterais ou consequências não pretendidas (incluindo a falta de proteção). Elas incluem lesões, toxicidade, disfunções endócrinas ou reações de hipersensibilidade associada à vacinação. Em cães e gatos, existe um tipo de tumor maligno associado com aplicação de drogas injetáveis, principalmente vacinas que contêm adjuvantes.

A verdadeira incidência destas reações adversas pós-vacinais, porém, ainda é desconhecida, uma vez que os médicos veterinários não são estimulados a notificar tais eventos e as pesquisas na área ainda são recentes.

O VGG recomenda, então:

  • consultar o veterinário regularmente (visita anual ou semestral) para avaliar a saúde do animal;
  • executar exames personalizados de titulação de anticorpos;
  • avaliar individualmente a necessidade da administração de vacinas não essenciais.

Infelizmente, muitos tutores passaram a acreditar que a vacinação é o motivo principal para as visitas anuais ao veterinário. Porém, elas devem ser consideradas apenas um dos componentes de um plano de cuidados preventivos e individualizados com base na espécie, idade, raça, nutrição, condição de saúde, ambiente, estilo de vida e hábitos de viagem do animal.

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