Crianças segurando papel com desenhos simulando que estão bebendo bebidas com adição de adoçante

Dra. Denise Brasileiro

Sejamos sinceros: existem pouquíssimas sensações tão gostosas quanto a de comer um docinho logo após o almoço, ou com um cafezinho no fim da tarde. Porém, como nada nessa vida é perfeito, também sabemos que esse prazer momentâneo pode trazer algumas consequências ruins ao nosso corpo.

Sim. Estou falando de gorduras, carboidratos e por aí vai. Ocorre que muitas famílias, na tentativa de não abrirem mão desses “rituais culinários”, recorrem aos adoçantes. Afinal, a maioria deles não possui calorias e é pouquíssimo metabolizada pelo organismo.

O grande problema é que, nos últimos anos, diversos estudos têm mostrado que o uso de adoçantes, principalmente na infância, pode causar mais problemas à nossa saúde do que imaginávamos.

Pensando nisso, separei o texto de hoje para conversamos um pouco sobre esse assunto. Afinal, o que são adoçantes, por que eles são “bons” substitutos do açúcar em casos específicos e como o excesso deles pode ser prejudicial ao nosso bem estar?

Para saber todas as respostas para essas perguntas, é só continuar comigo!

O que é o adoçante?

É um substituto sintético para o açúcar. Ele pode ser derivado de substâncias naturais, como o estévia (folhas), por exemplo, de álcoois como o xilitol e o eritritol, ou ainda produzido artificialmente (aspartame, sucralose etc).

Com relação a esses detalhes, não há nada com o que se preocupar. Mais para frente, vamos conversar sobre os tipos de adoçantes mais comuns no mercado, assim como seus prós e contras.

Por enquanto, o que precisamos entender é que eles são alternativas realmente atraentes ao açúcar porque praticamente não possuem calorias. Além disso, por serem incrivelmente doces, precisamos de apenas algumas gotinhas para chegarmos ao resultado desejado.

Para se ter ideia, o estévia chega a ser 15 vezes mais doce que o açúcar normal. Já a sucralose, 600! Bizarro, né?

Classes

Falando ainda sobre calorias e quantidades, é interessante saber que, atualmente, existem duas classes de adoçantes. São elas os não-calóricos, e os nutritivos.

Os não-calóricos correspondem àqueles que, como o próprio nome sugere, não possuem calorias e são livres de sacarose (o famoso “açúcar de mesa”, extraído da cana-de-açúcar). São excelentes alternativas para portadores de diabetes. Os mais comuns encontrados no mercado são a sucralose, o aspartame e o estévia.

Já os nutritivos são conhecidos por terem poucas calorias e alguns nutrientes. Porém, é importante entender que eles não são, necessariamente, livres de sacarose. Por isso, são ideais para pessoas que desejam perder peso e não possuem sérias restrições ao açúcar comum.

O perigo do uso de adoçantes na infância

Ok. Finalmente chegamos à parte que mais me interessa. Agora que você já sabe tudo o que precisa sobre os adoçantes, vamos conversar um pouco sobre os efeitos que ele pode causar ao nosso organismo.

De onde vem toda a fama deles?

Imagine só o seguinte contexto: de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a quantidade de consumo diário de açúcar deve ser de 10% da ingestão calórica diária. Considerando que uma dieta normal costuma suportar 2.000 kcal por dia, o ideal seria que o consumo de alimentos doces se mantivesse em torno dos 50 gramas.

Porém, só uma latinha de refrigerante, bebida predileta das crianças, tem 37 gramas de puro carboidrato simples (ou seja, açúcar). Uma mísera bola de sorvete tem 15 g. O que quero dizer com isso é que, basicamente, ultrapassar essa meta estabelecida pela OMS é fácil, fácil.

Contudo, a boa notícia é que as pessoas estão cada vez mais informadas sobre as consequências que esse tipo de excesso traz para a saúde. Sim, refiro-me à diabetes, hipoglicemia, obesidade etc.

Só que aí surgiu a solução “perfeita” (já já você vai entender o porquê dessas aspas): um produto com pouquíssimas (ou zero) calorias, livre de gorduras e ainda capaz de adoçar nossas vidas. E assim começou a onda dos adoçantes.

O exagero é inimigo da perfeição

Ok, vamos retornar ao meu exemplo. 1 lata de refrigerante tem, em média, 37 gramas de açúcar e 150 kcal. Uma versão DIET desse mesmo produto tem 0 açúcares e, pasme, 0 kcal. A escolha fica fácil demais, né?

Isso sem falar que, realmente, os adoçantes artificiais são excelentes aliados no combate à doenças como obesidade, diabetes, síndrome metabólica e problemas cardíacos.

Porém, o problema é que, como tudo na vida, o equilíbrio é essencial para manter as coisas no lugar. E, cá para nós, o ser humano é pouquíssimo especialista nesse assunto.

Digo isso porque, durante uma pesquisa básica, é possível ver que, nos últimos 10 anos, o consumo de adoçante aumentou 200% entre as crianças (fonte: Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics).

E qual é o problema?

Esse resultado costuma assustar muita gente porque nossa tendência é não reparar que, no intuito de vender produtos mais “lights”, a indústria alimentícia está pesando a mão no uso de adoçantes não só em bebidas, mas em comidas também.

E aí, mais uma vez, a escolha de um bolinho, se olharmos pela embalagem, é óbvia: o rótulo que tem um “ZERO AÇÚCARES, ZERO GORDURAS, ZERO ISSO, ZERO AQUILO” é MUITO mais atraente.

Aí, o que acontece? A pessoa, que acha que está ingerindo uma bebida deliciosa e sem açúcares e calorias, ou uma geleia sem açúcar, vai começar a pensar, consciente ou inconscientemente, que pode comer um pouquinho mais daquilo que, à priori, deveria ser regulado. É o caso de quem bebe café com adoçante no café da manhã para poder comer mais um pedaço de pão, por exemplo.

O problema é que hábitos como esse, à longo prazo, são capazes de fazer exatamente o oposto do que gostaríamos para a nossa saúde, e eu não estou falando só da obesidade.

Os malefícios do alto consumo de adoçantes na infância

Diversos estudos comprovam que o uso de adoçantes a longo prazo e de forma desregulada, por exemplo, contribui diretamente para a obesidade (como já expliquei acima). Inclusive, se você quiser ler um deles e entender tudo sobre esse assunto, é só clicar aqui (ps: o artigo está em inglês).

Além disso, várias pesquisas mostraram que a ingestão desse produto pode alterar/comprometer nossa microbiota intestinal, e até mesmo aumentar os riscos de câncer.

Depois de estudar bastante sobre esse assunto, aí vão algumas de considerações e alertas sobre ele:

1. Os perigos dos adoçantes para a nossa saúde intestinal

A maioria dos adoçantes, principalmente os não-calóricos, não é metabolizada pelo corpo. Porém, isso não quer dizer que eles não possam interagir com nossa microbiota intestinal e provocar uma disbiose (desequilíbrio).

Em resumo, qualquer alteração intestinal, por menor que seja, é capaz de comprometer todo o organismo. Isso acontece porque o intestino é o nosso segundo cérebro e, portanto, afeta diversos processos fisiológicos do corpo, desde a absorção de nutrientes até a regulação de nossas emoções e produção de sensações como fome e saciedade.

Já foi comprovado, por exemplo, que a sacarina, em níveis intestinais, possui má influência sobre o metabolismo, diminuindo nossa tolerância à glicose. Sabe-se, também, que o estévia afeta diretamente a composição da microbiota e os polióis (adoçantes obtidos a partir de álcoois, como o xilitol) podem provocar sintomas extremamente desconfortáveis (gases, dores abdominais e diarreia).

Importante:

Caso você queira saber um pouco mais sobre a importância da microbiota para a nossa saúde, colocarei abaixo alguns links riquíssimos que vão te ajudar nessa jornada:

2. Os problemas do uso de adoçantes na gravidez

Um estudo canadense acompanhou 2686 gestantes e, posteriormente, suas crianças até que elas completasse um ano de vida. A parcela de mulheres que usou adoçantes durante toda a gravidez teve crianças que, mais tarde, apresentaram um IMC mais alto do que as outras, e um risco duas vezes maior para o sobrepeso.

Além disso, vale ressaltar que os adoçantes são transferidos tanto no líquido amniótico, quanto no leite materno.

3. Zero saciedade

Recentemente, descobriu-se que nosso intestino possui receptores de paladar em suas paredes. Então, os açúcares que consumimos, quando chegam nesse órgão, são metabolizados e, logo depois, enviam mensagens de satisfação ao cérebro.

O grande problema é que, lembra quando falei que a maioria dos adoçantes não é metabolizada pelo organismo? Pois é. Isso basicamente quer dizer que, durante aquela vontade LOUCA de comer um doce, a opção por um produto diet pode até parecer boa. Porém, provocará uma sensação de prazer momentânea e falsa, não conseguindo suprir nossa demanda.

Isso, a longo prazo, só faz com que comamos mais e mais doces sem açúcar (porém, ricos em carboidratos, gorduras, calorias etc) e nunca nos sintamos plenamente satisfeitos! E, acredite: esse detalhe, para uma criança, é perigosíssimo!

Então os adoçantes artificiais são verdadeiros vilões?

Não. A verdade nua e crua é que os vilões somos nós mesmos. Os adoçantes, como já expliquei, são essenciais para pessoas diabéticas, por exemplo, ou para pacientes que estão precisando perder peso.

O segredo é saber usá-lo com moderação, como tudo nessa vida. Aí vai uma base comparativa para que você possa se orientar:

Tipos de adoçantes Ingetão diária aceitável Poder de dulçor comparado ao açucar Pode ser aquecido
Sacarina 15 mg por Kg de peso corporal/dia 200 a 700 vezes Sim
Aspartame 50 mg por Kg de peso corporal/dia 200 vezes Não
Acessulfame de potássio 15 mg por Kg de peso corporal/dia 200 vezes Sim
Suclarose 5 mg por Kg de peso corporal/dia 600 vezes Sim
Neotame 0,3 mg por Kg de peso corporal/dia 7.000 a 13.000 vezes Sim
Estévia 4 mg por Kg de peso corporal/dia 200 a 400 vezes Sim
Ciclamato 11 mg por Kg de peso corporal/dia 30 vezes Sim

(fonte: Sociedade Brasileira de Diabetes)

A partir de qual idade o consumo de adoçantes é recomendado?

A resposta para essa pergunta não é extremamente difícil. O melhor a se fazer, na verdade, é não oferecer nada desse tipo nos primeiros 2 anos de vida para não condicionar o paladar do pequeno.

Após esse período, ainda assim é preciso reduzir ao máximo e controlar bastante a ingestão dessa substância para que o organismo da criança não seja tão comprometido.

Enfim…

Depois de todo esse bate-papo, deixo aqui a seguinte reflexão: será que vale a pena oferecer às crianças alimentos tão processados como os adoçantes? A tendência é que elas fiquem cada vez mais predispostas a outras doenças como a obesidade, por exemplo, e com o paladar “viciado”.

O melhor a se fazer em caso de dúvidas é consultar um pediatra/nutricionista/nutrólogo infantil para saber o que é apropriado para a dieta dos seus filhos. Afinal, cada serzinho é um, com suas características, condições e individualidades!

Um abraço e até a próxima.

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