Close do rosto de uma menina de cabelos grantes que possui autismo. Ela está ao ar livre e o fundo está desfocado.

Dra. Luciana Rocha

Os pais de uma criança com TEA estão dispostos a fazer todo o possível para ajudar o seu filho. Porém, na busca de um tratamento “milagroso”, algumas vezes eles optam por alternativas caras, ineficazes e sem nenhuma comprovação científica.

Antes de iniciar qualquer intervenção, os pais/responsáveis devem se certificar de que existem realmente trabalhos e publicações que suportem aquela terapia. Para ser considerado sério e baseado em evidências, um tratamento deve ser investigado em estudos bem elaborados e executados.

Alguns sinais de que a terapia pode não fazer o que promete

  • Tratamento baseado em teorias simplistas;
  • tratamento utilizado para várias doenças diferentes;
  • promessa de cura;
  • promessa de resultados rápidos e milagrosos;
  • pouco ou nenhum treinamento necessário;
  • terapias não individualizadas;
  • a comprovação da eficácia se baseia apenas em testemunhos, relatos e histórias;
  • ausência de trabalhos científicos bem feitos que comprovem a terapia;
  • os objetivos específicos do tratamento não estão bem definidos;
  • argumento de que estudos científicos não são necessários porque o tratamento não tem efeitos adversos.

Exemplos de tratamentos para autismo sem comprovação científica

  • Quelação: uso de substâncias quelantes para retirar metais pesados como chumbo e mercúrio do organismo. Não existem evidências de que pacientes com o autismo tenham maior concentração desses metais no sangue. Além disso, inúmeros trabalhos demonstraram que não há associação entre mercúrio (ou o timerosol presente nas vacinas) e o autismo.
  • Oxigenoterapia hiperbárica: não existem evidências de que existe uma falta de oxigênio no cérebro de crianças com TEA, nem que a terapia hiperbárica com oxigênio seja eficaz para seu tratamento.
  • Dieta sem glúten e sem caseína: a eliminação do glúten (presente no trigo) e da caseína (presente no leite) da dieta se baseia na hipótese de que as crianças com TEA têm um intestino permeável que permite a passagem de partículas resultantes da digestão desses elementos que têm ação no sistema nervoso central. Não existe comprovação dessa teoria e esse tipo de dieta compromete a ingestão de cálcio da criança.
  • Acetato de leuprorrelina (Lupron®): medicamento bloqueador da testosterona utilizado para tratar a puberdade precoce e o câncer de próstata. Sua indicação no autismo se baseia na hipótese de que a testosterona potencia os efeitos tóxicos do mercúrio. Não existem evidências que comprovem a sua eficácia ou segurança no tratamento do autismo.
  • Imunoglobulina G intravenosa: utilizada no tratamento de pacientes com leucemia e SIDA pediátrica. Poucos estudos testaram sua utilização em crianças com TEA e eles não comprovaram benefícios.
  • Suplementos: vitamina B6, magnésio, dimetilglicina, trimetilglicina e vitamina A são utilizados frequentemente para tratar pacientes autistas. Não existem dados que comprovem essa indicação e algumas vitaminas, usadas em excesso, podem ser perigosas.
  • Secretina injetável: a secretina é um hormônio que participa do processo de digestão e é utilizada para tratar doenças gastrointestinais como úlceras e insuficiência pancreática. Vários estudos mostram que essa terapia não é eficaz no autismo.
  • Oxitocina intranasal: nos últimos anos surgiram vários estudos sobre o uso da oxitocina intranasal no TEA, porém nenhum conseguiu mostrar resultados conclusivos para sua recomendação.
  • Injeção de células – tronco: não existem evidências sobre a eficácia desse tratamento, proibido nos Estados Unidos, para pacientes com TEA. Existem questionamentos sobre a origem destas células-tronco, se são humanas ou animais.
  • Canabinoides: estão sendo investigados para tratamento da epilepsia, porém não existem dados que justifiquem seu uso no autismo.
  • Estimulação magnética transcraniana: procedimento em que campos magnéticos são aplicados para estimular o cérebro. Não existem evidências da sua eficácia no tratamento do autismo.
  • Treinamento de integração auditiva (AIT): nessa terapia, o paciente é exposto, em várias sessões, a músicas filtradas e moduladas. A hipótese é que essa terapia consiga modificar o processamento auditivo no nível central, impactando a linguagem e o comportamento. Apesar de existirem alguns trabalhos sobre a terapia, ela ainda é considerada experimental, pois os resultados até o momento não conseguiram demonstrar claramente a sua eficácia.
  • Terapia do holding: proposta como tratamento para diversos problemas, incluindo o autismo, essa terapia se baseia na teoria de que existe uma falta de ligação entre a mãe e a criança. Durante as sessões, a mãe ou terapeuta deve abraçar forçosamente a criança por um determinado tempo, até que ela se renda ou a olhe nos olhos. Baseada em uma teoria fraca, não existe comprovação científica para esse método.
  • Comunicação facilitada: utiliza um teclado para ajudar o paciente com TEA a se comunicar. Existem vários trabalhos mostrando que essa terapia não tem resultados no autismo.
  • Equoterapia: sua utilização no TEA busca melhorar a habilidade motora e a comunicação. Todos os estudos que descrevem seu uso são descritivos e sem resultados bem definidos, por isso ainda é considerada como sem evidências científicas comprovadas para o autismo.
  • Musicoterapia: empregada com o objetivo de melhorar a comunicação e a interação social dos pacientes com TEA. Os estudos publicados não concluíram se os efeitos positivos são reais e/ou duradouros.

A busca pela cura do autismo

A esperança de cura para o autismo e a falta de terapias cientificamente comprovadas deixam os pais vulneráveis à pseudociência e má fé. Proliferam os vendedores de tratamentos milagrosos e, invariavelmente, caros.

O lado bom é que a movimentação das famílias tem atraído investimentos para pesquisas e, nos últimos anos, diversos estudos foram iniciados em universidades conceituadas por todo o mundo.

Enquanto as respostas não chegam, cabe aos pais fazerem escolhas responsáveis e não submeterem seus filhos a experiências e tratamentos sem fundamento.

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