tratamento do câncer

Dra. Gleidice Lavalle

O tratamento do câncer nos animais domésticos é um assunto muito difícil e delicado de se conversar. Cercada por preconceito e mitos, a palavra câncer desperta imediatamente sentimentos de medo e tristeza em todas as pessoas.

Por isso, é preciso desmistificar a doença para proporcionar aos tutores a tranquilidade necessária para enfrentar o diagnóstico e o tratamento de seus animais.

A oncologia veterinária evolui muito nas últimas décadas e hoje tem muitas armas a oferecer. Muitos pacientes com câncer conseguem viver por longos anos após o tratamento, com bem-estar e qualidade de vida. É importante não desistir. Afinal, mesmo em animais idosos, existe uma chance de se controlar a doença.

O oncologista veterinário está especialmente preparado para, junto ao tutor, selecionar as melhores opções para aqueles pacientes que não podem falar por si mesmos. É preciso conversar muito e escolher com amor e tranquilidade o melhor caminho a ser seguido.

Cães e gatos são muito sensíveis às emoções de seus donos. Logo, a forma como ele enfrenta a doença se reflete totalmente no animal.

Qual a chance de um animal desenvolver câncer?

O câncer é tão frequente em cães e gatos quanto nas pessoas. Devido a isso, estima-se que um a cada quatro cães, e um a cada seis gatos, terão câncer em algum momento de suas vidas.

É um consenso entre os veterinários em todo o mundo a observação de que cada vez mais animais domésticos são diagnosticados com a doença. Isto ocorre em parte porque a expectativa de vida deles aumentou. Tudo graças aos protocolos de vacinação e à evolução do tratamento de muitas doenças que antes eram responsáveis pela perda de animais ainda jovens.

Além disso, os métodos de diagnóstico e tratamento do câncer evoluíram muito nas últimas décadas, proporcionando uma chance de recuperação que antes não existia.

Porém, considera-se que o principal motivo do aumento da incidência do câncer em animais e humanos é a exposição à carcinógenos. Para os humanos, o cão funciona como um “sinalizador”. Como seu ciclo de vida é mais rápido, eles estão apresentando um aumento da incidência de câncer que provavelmente será observado, no futuro, nos humanos que dividem com eles os mesmos ambientes.

Fatores de risco

Os principais fatores que podem aumentar o risco de câncer são:

  • Idade;
  • Alimentos processados e ricos em conservantes, aditivos e corantes;
  • Excesso de carboidratos na dieta;
  • Obesidade;
  • Excesso de vacinação;
  • Excesso de exposição ao sol;
  • Castração antes de seis meses de idade;
  • Uso de medicamentos imunossupressores;
  • Exposição a produtos de limpeza tóxicos;
  • Exposição a agrotóxicos;
  • Excesso do uso de medicamentos para controle de pulgas, carrapatos e repelentes de mosquitos;
  • Fumante passivo.

Além destes fatores gerais, deve-se considerar a predisposição genética de algumas raças como Boxer, Golden, Rottweiler, Collie e pastor Bernese. Elas apresentam deficiências em genes específicos e maior incidência de alguns tipos de tumores.

Nos felinos, infecções virais por FIV e FELV são as principais causas de câncer. O vírus da FELV tem um papel carcinogênico direto, levando à leucemia felina. Já o vírus da FIV tem um papel carcinogênico indireto. Afinal, causa imunossupressão, deixando o animal mais susceptível a doenças.

Diagnóstico precoce

O primeiro desafio da oncologia veterinária é o diagnóstico precoce. O tutor que não reconhece sinais de doença em seu animal frequentemente causa um atraso no diagnóstico e tratamento do câncer.

Vômitos, perda de apetite e apatia são alguns sinais de alerta. No aparecimento de qualquer um destes, o veterinário deve ser procurado. É recomendado, também, que o animal seja cuidadosamente examinado pelo tutor pelo menos uma vez ao mês. Durante o banho do pet, procure por nódulos, feridas que não cicatrizam e outros sinais anormais.

Importante:

Uma observação especial deve ser feita sobre os gatos que recebem a vacina combinada de FIV e FELV (outras vacinas também podem estar relacionadas, assim como medicamentos injetáveis). Os trabalhos mostram que ela está associada ao desenvolvimento de sarcoma de aplicação, um tipo de câncer que ocorre no local da injeção.

Nos animais que recebem este tipo de vacina, ela deve ser aplicada em um local de fácil acesso e o tutor deve observar cuidadosamente o desaparecimento do nódulo de aplicação. Se ocorrer uma inflamação persistente no local, o veterinário deve ser procurado imediatamente.

O sarcoma de aplicação é uma doença grave e fatal, facilmente prevenido pela observação cuidadosa do local da injeção e remoção precoce de nódulos persistentes.

Da mesma forma, se o animal não é examinado periodicamente por um veterinário, as chances de um diagnóstico tardio aumentam. Mesmo cães jovens devem ser submetidos a uma avaliação de rotina anual, pensando em outros tipos de doenças.

Após 5 anos de idade, aconselha-se uma consulta semestral que inclua exames laboratoriais e um ultrassom abdominal. Anualmente, está indicada uma radiografia de tórax.

O veterinário que faz o acompanhamento é responsável por detectar os sinais de alerta, realizar os exames necessários e encaminhar o paciente com diagnóstico de câncer para um oncologista.

Tratamento do câncer em animais: como funciona

Quanto ao tratamento do câncer, o primeiro desafio a ser enfrentado é a reação do tutor frente ao diagnóstico. Muitas vezes, as pessoas têm idéias preconcebidas em relação ao câncer. A maioria se baseia em experiências com a doença na família, onde presenciaram o sofrimento do paciente. Além disso, temem o custo do tratamento ou não querem investir no animal porque ele já está “velho”.

É importante ressaltar que os tipos de câncer dos animais são diferentes dos que ocorrem nos humanos e o tratamento não causa tantos efeitos colaterais. A dose dos medicamentos quimioterápicos utilizada na medicina veterinária é menor e, consequentemente, causa menos efeitos adversos quando comparada à quimioterapia humana. A maioria dos animais, mesmo idosos, têm uma boa tolerância ao tratamento.

Outra distinção importante é que o objetivo do tratamento do câncer na oncologia veterinária não é a cura, como na medicina humana, mas o aumento do tempo de sobrevivência, mantendo a qualidade de vida. Conseguir mais um ano de vida em um paciente veterinário equivale a um médico conseguir 4 a 5 anos de sobrevida em uma pessoa.

Tabela com a idade doa cães em anos humanos
Fonte: https://www.instagram.com/p/BoJz0ujAr5-/

Os tratamentos convencionais disponíveis na oncologia veterinária são: cirurgia, quimioterapia convencional e metronômica, eletroquimioterapia, radioterapia, drogas inibidoras de enzimas específicas e medicamentos inibidores da tirosina quinase.

Tratamentos complementares

Diversos tratamentos do câncer complementares têm sido estudados, desde alimentos com efeitos terapêuticos (nutracêuticos), fitoterápicos, ozonioterapia e a dieta cetogênica, que tem sido tema constante nos estudos sobre câncer. A medicina antroposófica oferece o Viscum álbum aos pacientes oncológicos e diversos estudos demonstram sua eficácia como tratamento complementar.

Os suplementos mais recomendados são:

  • Ômega 3;
  • Curcumina;
  • Cogumelo do sol;
  • Coriolus versicolor;
  • Melatonina;
  • Unha de gato.

Quando indicar o tratamento do câncer em animais? Quando desistir?

A opção pelo tratamento do câncer envolve muitos fatores e deve ser discutida cuidadosamente com o oncologista. O critério mais utilizado é a manutenção da qualidade de vida do animal.

Um animal idoso, que está clinicamente bem e tem boa tolerância ao tratamento e possibilidade de ter sua qualidade de vida mantida a médio e longo prazo, deve ser tratado com todas as ferramentas disponíveis, esquecendo o preconceito que a palavra câncer desencadeia.

Por exemplo,: um animal com uma doença crônica do coração, diabetes ou hipotireoidismo pode vir a morrer por causa disso. Nenhuma destas doenças tem cura e, no entanto, o tutor as trata durante anos sem questionar.

Por que, então, não se deve desistir apenas porque o diagnóstico é câncer?

É preciso desmistificar este objetivo de cura. O câncer pode ser controlado como uma doença crônica, proporcionando ao animal mais algum tempo de vida, de passeios, de brincadeiras e de carinho da sua família.

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