Cachorro, ao ar livre, comendo sardinha, um dos tipos de carnes na alimentação natural canina

Dr. Artur Vasconcelos

Cada vez mais tutores e seus peludos estão aderindo à alimentação natural. Para os cães, consumir alimentos apropriados para a sua espécie significa viver com mais saúde e por mais tempo! Porém, toda mudança é desafiadora e instituir uma dieta equilibrada e de qualidade pode parecer, no início, um processo complicado.

As dúvidas mais frequentes dos tutores que decidem fazer a transição para a alimentação natural canina são:

  • Quais alimentos podem ser usados?
  • Qual a proporção entre eles?
  • E os tipos de carne? Quais são apropriados para o meu pet?
  • Como conseguir variedade nessa dieta?

A verdade é que para garantir que a dieta seja ideal para o seu pet, um veterinário especializado em nutrição pode ser o seu maior aliado. Cada animal tem necessidades diferentes e, algumas vezes, apresenta doenças ou condições especiais que exigem uma adequação dos alimentos.

Além disso, geralmente é necessário suplementar a alimentação natural com algumas vitaminas e minerais que não são encontrados facilmente nos ingredientes que temos à disposição ou complementar com alguns alimentos que precisam dosagens mais específicas.

Porém, o ideal é que isso seja feito por meio de orientação profissional. A deficiência ou o excesso desses micronutrientes podem ser prejudiciais à saúde dos nossos peludos.

Mesmo assim, é possível responder, em linhas gerais, as dúvidas mais frequentes dos tutores para tornar a transição para a alimentação natural mais fácil e segura.

É claro que preparar os alimentos é mais trabalhoso do que comprar um saco de ração, mas todos que investem nesse tipo de dieta se surpreendem com os resultados e, sem dúvida, não se arrependem!

O que é permitido na alimentação natural para cães?

Os cães devem receber, na alimentação natural, os mesmos tipos de alimentos que consomem na natureza:

  • proteína de origem animal;
  • gordura de boa qualidade;
  • pequena quantidade de frutas e vegetais ricos em antioxidantes e fibras;
  • fontes naturais de minerais, vitaminas e ácidos graxos.

Além disso, os alimentos devem ser frescos, úmidos e não processados. As carnes são a base da dieta dos cães e devem, preferencialmente, ser oferecidas cruas.

Os cães NÃO PRECISAM de grãos, tubérculos, corantes, preservativos artificiais, aditivos, produtos químicos ou comidas processadas.

Proporção entre os alimentos na dieta

A dieta ideal do cão é rica em proteínas de origem animal, moderada em gorduras e pobre em carboidratos, o que corresponde à composição de uma presa na natureza.
Geralmente, a proporção indicada entre os alimentos é:

  • 40% de carnes desossadas;
  • 20% de ossos carnudos;
  • 20% de vísceras musculares;
  • 10% de vísceras secretoras;
  • 5% de frutas e vegetais;
  • 5% de outros alimentos.

Carnes boas para cachorro: quais são elas?

As carnes são o principal componente da dieta dos cães. Elas fornecem proteínas, gordura, vitaminas, minerais e água.

Especialmente nas vísceras musculares e secretoras, há uma quantidade grande de nutrientes como as vitaminas A, D, C, E, K e do complexo B, ácido fólico, cobre, zinco, magnésio, manganês, sódio, fósforo, ferro, selênio e potássio.

É importante variar os tipos de carne oferecidos para garantir uma boa quantidade de cada um dos micronutrientes essenciais.

Tipos de carne sem ossos:

  • Bovinos: cortes magros de acém, músculo, coxão duro, lagarto;
  • Aves (frango, peru, pato): peito, coxa e sobrecoxa desossadas (retirar pele e gorduras visíveis);
  • Peixes: sardinha cavalinha, peixes brancos;
  • Suínos: filezinho e lombo.

Além disso, podem ser utilizados outros tipos de carnes como avestruz, cordeiro e cabra. Porém, são mais difíceis de encontrar e têm custo mais elevado.

Sardinhas valem ouro!

As sardinhas, especialmente inteiras e não evisceradas, são um alimento extremamente rico e interessante na dieta dos cães. Recomenda-se que elas ocupem em torno de 5 a 10% da dieta.

Sardinhas em lata também são interessantes, lavando os pedaços em água corrente antes de oferecê-los.

Tipos de vísceras musculares:

  • bovinos, ovinos e caprinos: língua, coração, pênis, estômago;
  • aves (frango, peru e pato): coração e moela;
  • suínos: coração;
  • avestruz: moela (encontrada desidratada).

Tipos de vísceras secretoras:

  • bovinos: fígado, baço, rim, pulmão, testículo, pâncreas, linfonodos, olhos, timo, cérebro, intestinos, próstata, útero, ovários, placenta e bexiga;
  • ovinos, caprinos e suínos: fígado, baço, rim, pulmão, testículo;
  • aves: fígado;
  • peixes: vísceras frescas (fígado, cérebro e olhos).

Algumas vísceras não possuem venda regulamentada no país, mas podem ser encontradas diretamente com produtores e em açougues que fazem descarna. Recomenda-se cuidado com a escolha, manipulação e conservação, porque se estragam facilmente e podem conter cargas de contaminação mais altas.

Ossos carnudos

Os ossos e cartilagens são essenciais na dieta do cão, pois contém cálcio, fósforo e glicosaminoglicanos e vários aminoácidos essenciais.

Além disso, a mastigação dos ossos é um estímulo mental importante para os cães e promove a limpeza dos dentes. Porém, NUNCA ofereça ossos cozidos ao seu cão, pois eles podem lascar e formar pontas afiadas e perigosas.

Escolha os ossos de acordo com o porte do pet para diminuir a chance de acidentes.

Tipos de carne para cães de grande porte:

  • Cortes maiores de frango: coxas, sobrecoxas, dorso, metades;
  • pescoço de peru e pato;
  • costela em ripas, peito e pescoço bovinos serrados;
  • costela em ripas, paleta e pescoço de ovino, caprino e suíno;
  • codornas inteiras;
  • coelhos inteiros ou cortados pela metade;
  • pés de frango, peru e pato.

Tipos de carne para cães de médio porte:

  • Sobrecoxas, dorso e asas de frango;
  • pescoço de peru e pato;
  • peito bovino serrado;
  • costela em ripas de ovino, caprino e suíno;
  • codornas inteiras ou cortadas pela metade;
  • coelhos cortados pedaços grandes;
  • pés de frango, peru e pato.

Cães de pequeno porte:

  • Pescoço, cabeça e drumet de frango;
  • rã;
  • codorna em pedaços;
  • pescoço de peru e pato moídos;
  • osso do peito de ovino picado ou moído;
  • pés de frango, peru e pato picados ou moídos;
  • coelho inteiro moído.

Cães esfomeados tendem a mastigar pouco os ossos e engoli-los inteiros. Nesse caso, os ossos, especialmente o pescoço e os pés, devem ser picados em pedaços menores ou moídos.

Vegetais apropriados para a alimentação natural canina

Para a dieta dos cães, os vegetais não são essenciais. Eles fornecem fibras e fitoquímicos com propriedades antioxidantes e vermífugas, mas não devem ultrapassar 20% da dieta.

Os legumes podem ser cozidos no vapor ou em água para melhorar seu aproveitamento. As frutas podem ser oferecidas cruas, mas não devem ultrapassar 5% da dieta.

Sementes e algas devem ser sempre processados antes da oferta através de moagem, cozimento, demolhagem, fermentação ou germinação.

Verduras:

  • Folhas verdes: acelga, rúcula, agrião, espinafre, alface-romana, azedinha, chicória;
  • crucíferas: couve, brócolis, couve-flor, repolho;
  • abobrinha, chuchu, salsão, pepino, aspargo;
  • solanáceas: jiló, berinjela, tomate, pimentão (evitar para animais com alterações intestinais e inflamatórias);
  • abóbora e tubérculos: cenoura vermelha, inhame, batata baroa, yacon (incluir com moderação).

Ervas, brotos e raízes:

  • Frescas ou secas: hortelã, manjericão, alecrim, orégano, tomilho, salsinha, coentro, funcho, moringa (utilizar em pequena quantidade);
  • brotos: linhaça, brócolis, girassol e alfafa;
  • raízes frescas ou desidratadas em pó: cúrcuma, gengibre (utilizar em pequena quantidade).

Frutas:

  • Frutas vermelhas: amora, mirtilo, framboesa, casca de jabuticaba, acerola sem semente, pitanga sem semente;
  • abacate e coco fresco (moído);
  • bananas frescas verdes ou biomassa;
  • frutas ricas em água: melão, melancia, kiwi, pera sem sementes (incluir com moderação).

Sementes:

  • Oleaginosas: linhaça, chia, cânhamo, abóbora, girassol, gergelim;
  • nozes: noz mariposa, pecan, avelã, amêndoa, castanha-do-pará, castanha-de-caju.

Algas:

  • Secas: Wakame, Nori e Kombu (incluir com moderação);
  • unicelulares, em pó: Chlorella, Spirulina (incluir com moderação).

Outros alimentos essenciais para a alimentação natural canina

O fator mais importante para uma dieta equilibrada é VARIEDADE AO LONGO DO TEMPO, simulando a oferta de alimentos na natureza.

Os erros mais comuns na alimentação natural caseira são:

  • incluir apenas animais convencionais (boi e frango);
  • utilizar poucas vísceras;
  • não incluir peixes e sementes;
  • oferecer os mesmos alimentos todos os dias.

Dessa forma, incluir outros alimentos torna a dieta mais variada e reduz a chance de deficiência de nutrientes essenciais para a saúde. Seu uso deve ser rotativo, para torná-los ainda mais interessantes:

  • óleo de coco;
  • azeite;
  • óleo de girassol;
  • óleo de linhaça;
  • óleo de peixe;
  • manteiga;
  • sal marinho iodado;
  • ovos;
  • mexilhão e ostras;
  • lácteos fermentados: iogurte, kefir, coalhada, queijos maturados.

Suplementos:

O uso de suplementos manipulados é importante para suprir alguma deficiência em determinados perfis de dieta, especialmente em situações de pouca variedade.

Cálcio:

Nas dietas caseiras sem ossos, o principal mineral em falta é o cálcio. Ele é essencial para os ossos e para vários processos metabólicos. As três opções para suplementar esse mineral são:

  • pó de cascas de ovos tostadas e moídas;
  • carbonato de cálcio (manipulação);
  • suplemento comercial, como o Food Dog.

Fósforo:

Os ossos também são ricos em fósforo, que deve ser oferecido em equilíbrio com o cálcio. Nas carnes e vísceras existem quantidades suficientes de fósforo para os cães adultos. Para filhotes, deve ser procurada ajuda profissional para nos certificarmos do correto aporte desse e outros minerais mineral.

Glicina:

Uma alimentação natural sem ossos necessita da adição de uma fonte de glicina: colágeno hidrolisado ou gelatina em pó sem sabor. Caldo de ossos caseiro é também uma ótima opção.

Outros micronutrientes:

Mesmo dietas variadas podem apresentar deficiência de Vitamina D, E e K2, assim como os minerais zinco, selênio, magnésio e manganês. Eles podem ser manipulados de forma conveniente e barata pelo veterinário.

Alimentos tóxicos

É preciso conhecer quais são os alimentos tóxicos e perigosos para os cães, que NUNCA devem ser incluídos na dieta, exceto sob orientação profissional:

  • sementes de frutas;
  • uvas e passas;
  • chá (verde ou tostado);
  • chá mate;
  • café;
  • gorduras oxidadas (aquecidas);
  • bebidas alcoólicas;
  • açúcar e adoçantes;
  • aloe vera;
  • batata inglesa;
  • pães, biscoitos e farináceos;
  • maconha;
  • chocolate;
  • macadâmia;
  • carambola;
  • aliáceas (cebola, alho etc);
  • ossos cozidos;
  • casca, folha e sementes de abacate;
  • pequi;
  • neem.

Onde encontrar os ingredientes?

A maior parte dos alimentos que fazem parte da dieta caseira para os cães pode ser encontrada em supermercados, sacolão, feiras e nos açougues. Alguns, no entanto, como as vísceras, podem ser difíceis de encontrar.

A opção é procurar fontes alternativas: açougues que aceitam encomendas, pequenos produtores ou mesmo grupos de tutores em sua cidade, que compram volumes maiores e dividem entre si.

Considerações sobre higiene e contaminação

A qualidades dos ingredientes é importante. Procure açougues inspecionados e organizados. Após a compra, prepare as refeições e congele o mais rápido possível.

O congelamento deve ser feito em freezer, pelo tempo mínimo necessário para eliminar os parasitas que podem ser transmitidos pela carne crua:

  • carne bovina, caprina ou ovina, rã, coelho: 3 dias
  • carne suína: 21 dias;
  • salmão e truta: 7 dias;
  • outros peixes: 2 dias;
  • aves: não é obrigatório.

Como vimos, o tutor dedicado consegue montar uma dieta bioapropriada, rica e variada para o seu peludo, sem muita complicação. Basta ter criatividade, um pouco de organização e muito, muito amor!

Conheça minha videoaula e apostila sobre ALIMENTAÇÃO NATURAL BIOAPROPRIADA:

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