Adolescente com cara de assustada em sessão de terapia para

Dr. Francisco Machado

O suicídio na adolescência, além de ser um tabu, é geralmente muito incompreendido pela sociedade. Afinal, é normal escutarmos, de alguma pessoa, alguns comentários como “não ligue. Ele (a) só está querendo chamar atenção”.

Ocorre que crianças que falam, ou escrevem sobre tirar a própria vida, são descartadas como excessivamente dramáticas – e obviamente não são. Basicamente, todos nós deveríamos saber que uma ameaça de suicídio nunca deve ser descartada.

Porém, é importante saber, também, responder a ameaças e outros sinais de alerta de maneira séria e ponderada. Afinal, eles não significam, necessariamente, que a pessoa tentará suicídio, mas sim que ela, com toda certeza, está sofrendo e precisa de ajuda. .

Pensar sobre tudo isso nos fez ter a iniciativa de, hoje, conversar um pouco sobre esse assunto, e ajudar nossos leitores a entenderem quais são os fatores tornam um jovem mais ou menos propenso a considerar o suicídio, e o que fazer a respeito. Vamos lá?

O suicídio na adolescência é comum? Por quê?

Sejamos honestos: a adolescência é um período estressante. Os jovens, durante ela, estão cercados por mudanças corporais, de pensamentos e até mesmo sentimentos. Além disso, ainda existem o estresse, a confusão, o medo, a pressão e as dúvidas que fazem parte da vida acadêmica e amorosa deles.

Então sim: a puberdade não é fácil, e se o jovem possui tendências para doenças mentais, a situação complica bastante. Aliás, vamos conversar um pouco sobre isso no próximo tópico.

O que torna os adolescentes vulneráveis ​​ao suicídio?

Muitos adolescentes que tentam, ou morrem por suicídio, têm uma condição de saúde mental. Como resultado, eles têm outros problemas para além de lidar com o estresse de estarem na puberdade.

Normalmente, problemas como depressão, ansiedade etc os atrapalham, diretamente, de superarem aspectos normais dessa fase como rejeição, fracassos, rompimentos e turbulências familiares.

Porém, é preciso lembrar que, além das doenças mentais, existem outros fatores de risco para a ideação suicida na puberdade.

Quais são os fatores de risco para o suicídio na adolescência?

  • Ter um distúrbio psiquiátrico, incluindo depressão;
  • perda ou conflito com amigos próximos ou familiares;
  • histórico de abuso físico/sexual, ou exposição à violência;
  • problemas com álcool ou drogas;
  • problemas físicos ou médicos como, por exemplo, engravidar, ter uma DST, possuir algum defeito, estar em sobrepeso etc (o que nos leva, inclusive, ao próximo tópico);
  • ser vítima de bullying;
  • ter dúvidas e dilemas morais sobre a própria orientação sexual;
  • exposição ao suicídio de um membro da família ou amigo;
  • fazer parte de alguma cultura/religião que acredita que o suicídio é uma causa nobre;
  • histórico familiar de transtorno de humor.

A modernidade possui alguma relação direta com o suicídio?

Infelizmente, sim. Para se ter ideia, de acordo com a OMS, a taxa de suicídio entre os jovens (10 a 19 anos) aumentou em aproximadamente 40% nos últimos dez anos. Além disso, estima-se que dois adolescentes, a cada dia, tiram (ou tentam tirar) a própria vida.

Isso pode ter relação direta, por exemplo, com a velocidade do acesso à informação, e à popularização do uso da internet. Por mais que seja muito bacana poder pesquisar o tema do seu trabalho de escola no Google (ao invés de passar a madrugada na biblioteca), e conversar com pessoas distantes, existe um perigo sério nisso.

Todo pai, nestes últimos anos, já se alarmou com casos como o jogo da Baleia Azul e a Boneca Momo. Isso sem falar nos filmes e seriados que abordam o suicídio de forma transparente, literal e, pior: romantizada. É o caso das polêmicas que envolveram o seriado 13 Reasons Why.

O grande problema é que, caso você ainda não saiba, os casos da Baleia Azul e da Boneca Momo, por exemplo, eram FALSOS. Porém, devido ao compartilhamento em massa dos pais preocupados, jovens alarmados e mídia mal preparada, ambos se tornaram “reais”. Afinal, inspiraram pessoas a tirarem a própria vida. Por isso que é importante monitorar tudo que o jovem acessa (e não precisa invadir a privacidade dele para isso. É só manter um bate-papo sincero e estabelecer regras justas), e evitar compartilhar fake news.

Por fim, existem várias outras hipóteses associadas aos alarmantes dados envolvendo a questão suicídio na adolescência. Alguns exemplos são o aumento significativo da oferta de drogas, e as mudanças gerais no estilo de vida. Hoje em dia, dispositivos eletrônicos como videogames, celulares, computadores etc, fazem cada vez mais parte do cotidiano dos jovens, podendo viciá-los em jogos, fazer com que eles interajam menos com as pessoas, influenciar na quantidade de sono por noite e por aí vai.

E quais são os sinais de alerta de que um adolescente pode ser suicida?

  • Conversar muito (ou escrever) sobre suicídio;
  • diminuir o contato social;
  • ter muitas alterações de humor;
  • usar drogas ou consumir álcool;
  • sentir-se preso, ou sem esperanças com uma ou mais situações;
  • apresentar mudanças na rotina diária, incluindo padrões de alimentação e sono;
  • fazer coisas arriscadas ou autodestrutivas;
  • dar seus pertences a outras pessoas quando não há explicação lógica para isso;
  • desenvolver mudanças de personalidade, ou ficar seriamente ansioso ou agitado ao experimentar alguns dos sinais de alerta listados acima.

O que devo fazer se suspeitar que meu filho é suicida?

O primeiro passo é conversar com ele imediatamente. Dica importante: não precisa ter medo de usar o termo “suicídio”, e de falar abertamente sobre ele. Quanto mais esclarecimentos o jovem tiver, melhor. Porém, nunca use de artifícios como a “culpa” ou a “repressão” para evitar que ele tente tirar a própria vida. Lembre-se: a sinceridade é a melhor chave.

Peça para que seu filho explique o que está sentindo, e não descarte ou menospreze nenhum de seus sentimentos. O segredo é acolhê-lo, fazê-lo se sentir amado, amparado e apoiado.

Por fim, não deixe, em hipótese alguma, de procurar ajuda profissional. Afinal, é aquilo que falamos no começo da nossa conversa: apresentar comportamentos suicidas não quer dizer, necessariamente, que a pessoa vai tentar tirar a própria vida. Porém, é óbvio que ela está sofrendo, inclusive de saúde mental, e precisa de ajuda.

E outra: é importante lembrar que doenças mentais são tão perigosas quanto as físicas. Se não se fala a uma pessoa gripada que “tudo o que ela precisa fazer para cessar os espirros, tosses e dores de garganta é simplesmente reagir e dar a volta por cima”, não se fala a uma pessoa depressiva que “basta que ela sorria mais para sair dessa deprê”.

Onde você pode buscar ajuda?

  • Terapia individual;
  • grupos de apoio;
  • psiquiatras (quando o caso exige medicamentos – e é importante lembrar que não precisa ter vergonha nisso);
  • Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): nestes centros, são disponibilizados serviços e atendimentos direcionados à saúde mental e, o melhor de tudo: de forma comunitária;
  • Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h): para quem precisa de atendimento urgente e gratuito (com atendimento móvel pelo SAMU – 192);
  • Centro de Valorização da Vida (CVV): exerce atendimento voluntário para quem precisa de apoio e direcionamento emocional, incluindo a prevenção ao suicídio. O contato pode ser via pessoal (conversa sob sigilo), telefone, chat, e-mail e voip 24 horas/7 dias por semana.

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