Imagem comemorativa do dia mundial do coração com alimentos saudáveis formando um coração e um estetoscópio e uma fita métrica ao lado

Dr. Alvaro José de Mendonça Guimarães

O coração é um dos órgãos mais importantes para o nosso corpo e, por vezes, não cuidamos bem dele. Dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 300 mil indivíduos sofrem de infarto agudo do miocárdio, anualmente. Para 30% deles: fatal.

Ao conhecer os riscos e sintomas das doenças cardiovasculares, é possível estabelecer hábitos que contribuam para que doenças sejam evitadas e, especialmente, suas complicações.

Inicialmente, vamos entender: como funciona o coração?

O coração é um órgão muscular localizado atrás do esterno, ligeiramente deslocado para a esquerda. Ele é dividido em duas partes, direita e esquerda, e funciona como uma bomba. O lado direito recebe o sangue venoso que vem do corpo e o bombeia para o pulmão, onde o gás carbônico é eliminado e o sangue recebe oxigênio para retornar ao coração. O lado esquerdo recebe de volta este sangue e o distribui novamente para o corpo.

O lado direito do coração é dividido pela válvula tricúspide em duas câmeras, um átrio e um ventrículo. Da mesma forma, o lado esquerdo é dividido pela válvula mitral. Quando o átrio se contrai, a válvula se abre e o sangue passa para o ventrículo correspondente. A seguir, a válvula se fecha para que o sangue não retorne ao átrio no momento da contração do ventrículo.

O ventrículo direito, artéria pulmonar, pulmões, veias pulmonares e átrio esquerdo formam a circulação pulmonar. O ventrículo esquerdo, artéria aorta, sistemas corporais, veias cavas e átrio direito formam a circulação sistêmica.

O ritmo e a freqüência dos batimentos do coração são controlados por um sistema elétrico que é gerado no nó sinoatrial ou sinusal (daí o ritmo elétrico normal ser conhecido como ritmo sinusal ). A partir dele o impulso elétrico é transmitido através de uma rede elétrica até as fibras musculares, o que gera a contração cardíaca.

A circulação eficiente do sangue ocorre quando as quatro câmaras funcionam de maneira coordenada. A contração do músculo cardíaco ocorre em duas fases: a sístole (contração) e a diástole (relaxamento). A pressão arterial é a força exercida pelo sangue na parede das artérias. Sua medida obtém dois valores, a pressão sistólica (mais elevada) e a pressão diastólica (mais baixa). Em um adulto com boa saúde a pressão arterial gira em torno de 120 x 80 mmHg.

As artérias que saem do coração se ramificam em vasos cada vez mais finos, as arteríolas, até se tornarem pequenos capilares que penetram nos órgãos e tecidos levando o sangue rico em oxigênio e nutrientes. A partir daí, os capilares saem, formam as vênulas e depois as veias, que retornam ao coração.

Que mudanças ocorrem no coração e nos vasos com a idade?

À medida que as pessoas envelhecem, o coração tende a aumentar um pouco e desenvolve paredes mais espessas e câmaras discretamente maiores. O crescimento do coração se deve principalmente a um aumento no tamanho das células musculares individuais do coração.

Em repouso, o coração mais velho funciona quase do mesmo modo que um coração mais novo, mas a frequência cardíaca (número de vezes que o coração bate em um minuto) é discretamente mais baixa. Além disso, durante os exercícios, a frequência cardíaca de idosos não aumenta tanto quanto em pessoas mais jovens.

As paredes das artérias e das arteríolas tornam-se mais espessas e o espaço dentro das artérias se expande discretamente. O tecido elástico existente dentro das paredes das artérias e arteríolas é perdido. Em conjunto, essas alterações fazem com que os vasos se tornem mais rígidos e menos elásticos.

Como as artérias e as arteríolas se tornam menos elásticas à medida que a pessoa envelhece, elas não conseguem relaxar tão rapidamente durante o bombeamento rítmico do coração. Por conseguinte, a pressão arterial aumenta mais quando o coração se contrai (durante a sístole) – por vezes, acima dos valores normais – do que em pessoas mais novas. Em idosos, é comum que haja pressão arterial anormalmente elevada durante a sístole e pressão arterial normal durante a diástole. Essa doença denomina-se hipertensão sistólica isolada.

Muitos dos efeitos do envelhecimento sobre o coração e os vasos sanguíneos podem ser reduzidos pela prática regular de exercícios físicos. A prática de exercícios ajuda a manter a capacidade cardiovascular e a forma física conforme as pessoas envelhecem. Além disso, a prática de exercícios é benéfica, independentemente da idade em que é iniciada.

Fatores de risco

Fatores de risco são condições ou problemas que aumentam as chances de uma pessoa desenvolver doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral. Alguns podem ser evitados, tratados e controlados, os mutáveis. Outros são imutáveis, como o histórico familiar e a etnia, mas conhecê-los serve como alerta para que a pessoa adote hábitos saudáveis, faça visitas ao médico periodicamente e a partir da mais tenra idade.

Tabagismo – A maior causa evitável de mortes no mundo é o tabagismo. Os fumantes têm o risco de morte súbita até quatro vezes maior do que não fumantes. O vício do cigarro aumenta as chances de ter infarto do miocárdio, Acidente Vascular Cerebral, conhecido como derrame, angina e outras doenças, como câncer.

Colesterol elevado – Substância gordurosa importante para vários processos orgânicos, entre eles, a formação das células, a produção de hormônios, de vitamina D e de ácidos que ajudam a digerir as gorduras. O problema é que o ser humano necessita apenas de uma pequena quantidade de colesterol no sangue, produzida quase que totalmente pelo fígado. O excedente acaba se acumulando nas paredes das artérias, aumentando o risco de problemas cardiovasculares, como infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral.

Diabetes – Caracterizada pela elevação do açúcar no sangue, o que acarreta prejuízos sérios ao organismo. A maioria dos alimentos que ingerimos é transformada em glicose ou açúcar, utilizado como fonte de energia pelo nosso organismo. A insulina, produzida pelo pâncreas, é o hormônio responsável pela entrada de glicose nas células, que será utilizada como fonte de energia. Histórico familiar de diabetes pode aumentar significativamente o risco de desenvolver a doença. Diabetes não tratado pode levar a cegueira, doenças renais, doenças nervosas, amputações de membros e doenças cardiovasculares. É importante fator de risco para o acidente vascular cerebral e doenças coronárias, incluindo o infarto agudo do miocárdio.

Estresse excessivo – Consequência do ritmo da vida moderna, o estresse é inevitável e é preciso aprender a conviver, porque também está relacionado ao aumento do risco cardíaco.

Etnia – Existem fatores de risco não evitáveis, controláveis ou tratáveis, como a etnia. Certos grupos étnicos têm maior risco para desenvolver doenças cardiovasculares.

Hipertensão – A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) ou Pressão Alta (PA), sozinha, é a principal causa de doenças do coração, dos rins, de Acidente Vascular Cerebral(AVC), de comprometimento das artérias e dos olhos, além de matar mais que doenças como câncer e até mesmo a AIDS. História familiar – Se familiares próximos, como pais e irmãos, têm ou tiveram problemas do coração, as pessoas têm mais chances de desenvolver as mesmas doenças. Este é mais um fator de risco não evitável, controlável ou tratável, mas serve de alerta para os membros da família.

Idade – Com o envelhecimento, aumentam os problemas que afetam a saúde do coração e, consequentemente, os riscos de desenvolver doenças também aumentam. Outro fator de risco não evitável, controlável ou tratável, mas serve de alerta para os membros da família.

Obesidade – Doença crônica que engloba fatores sociais, comportamentais, ambientais, culturais, psicológicos, metabólicos e genéticos. Caracteriza-se pelo acúmulo de gordura corporal, que pode ser causado pelo excesso de consumo de calorias e/ou sedentarismo. O sobrepeso e a obesidade contribuem de forma importante para o desenvolvimento de doenças crônicas, como as cardíacas, e outras.

Sedentarismo – A falta de atividade física é importante fator de risco para as doenças cardiovasculares. O sedentarismo contribui para o desenvolvimento de hipertensão arterial, obesidade, diabetes, colesterol elevado e outras doenças.

Bebida alcoólica – O consumo excessivo de álcool pode ser danoso à saúde do coração e está relacionado ao desenvolvimento de hipertensão, alteração no ritmo do coração e aumento de peso.

Veja como o controle de alguns fatores de risco diminui as chances de ocorrência das doenças cardiovasculares:

Controlando o colesterol Menos 20% de risco de derrame
Menos 25% de risco de morte
Menos 33% de risco de infarto
Controlando a pressão arterial Menos 15% de risco de infarto
Menos 42% de risco de derrame
Parando de fumar Menos 50% de risco de infarto
Menos 70% de risco de morte
Perdendo peso e praticando exercícios físicos Menos 25% de risco de diabetes

Quais são os sinais ou sintomas de que algo não vai bem com meu coração?

Os sinais e sintomas abaixo não devem ser ignorados, especialmente em pessoas com fatores de risco para doenças cardiovasculares:

  • Dor ou pressão no peito;
  • dor que começa no peito e irradia para o braço esquerdo, para o pescoço ou mandíbula;
  • náusea, vômitos, sensação de azia ou dor no estômago podem ocorrer durante um infarto;
  • cansaço após atividades que antes eram rotineiras, como subir alguns degraus;
  • exaustão e fraqueza prolongadas, especialmente em mulheres;
  • tonteira;
  • falta de ar;
  • ronco;
  • sudorese espontânea e inexplicada;
  • tosse;
  • inchaço nos pés e tornozelos;
  • palpitações ou frequência cardíaca irregular.

A maioria destes sinais e sintomas geralmente não está relacionada a problemas no coração. Porém, se você possui uma doença cardíaca ou algum dos fatores de risco, fique atento e procure ajuda imediatamente.

Problemas cardiovasculares mais comuns nos idosos

Arritmia cardíaca

A arritmia ocorre quando os impulsos elétricos que coordenam o coração estão desregulados. Os batimentos podem ficar acelerados, lentos ou irregulares. As arritmias supraventriculares ( originadas nos átrios ) e as ventriculares ( originadas nos ventrículos ) são comuns em idosos. A fibrilação atrial  é a arritmia cardíaca persistente mais comum no idoso, podendo acarretar insuficiência cardíaca e embolização (liberação de coágulos), com derrame cerebral (aumento do risco em até 5 vezes). A arritmia pode ser causada por um ataque cardíaco, doença coronariana, pressão alta, consumo excessivo de cafeína ou álcool, abuso de drogas, estresse, apnéia do sono, envelhecimento e alguns medicamentos como descongestionantes nasais.

Os sintomas mais comuns são:

  • sensação de palpitação;
  • coração acelerado (taquicardia) ou lento (bradicardia);
  • dor no peito;
  • falta de ar;
  • tonteira;
  • ansiedade;
  • sudorese;
  • sonolência;
  • desmaio.

Hipertensão arterial:

O diagnóstico de hipertensão arterial é feito quando as medidas de pressão estão elevadas (PA acima de 140×90 mmHg). Ela geralmente é silenciosa e, sem tratamento, pode levar a complicações como infarto, parada cardíaca, insuficiência renal ou derrame. Como a hipertensão não causa sintomas na maioria das pessoas, seu diagnóstico é feito em consultas de rotina. Por esse motivo, deve-se fazer uma avaliação clínica anual, principalmente após os 40 anos de idade.

Existem alguns fatores de risco para hipertensão arterial, entre eles:

  • idade;
  • raça negra;
  • história familiar;
  • obesidade;
  • sedentarismo;
  • tabagismo;
  • consumo excessivo de sal;
  • consumo excessivo de álcool;
  • estresse;
  • apneia do sono.

O tratamento da hipertensão arterial é feito com  mudanças no estilo de vida e medicamentos. Uma dieta saudável, com menos sal, exercícios regulares e controle do estresse são essenciais para auxiliar o controle da pressão, além de melhorarem a qualidade de vida e longevidade.

Arteriosclerose

A arteriosclerose é caracterizada pelo endurecimento da parede das artérias causado pela formação de placas de colesterol e outras substâncias. Nestes locais, pequenas lesões podem levar à formação de um trombo e obstrução daquele vaso ou podem liberar um pequeno pedacinho (êmbolo) que irá causar oclusões à distância.

A arteriosclerose ocorre quando a parede interna das artérias é lesada por fatores como pressão alta e colesterol elevados, tabagismo, diabetes e inflamações crônicas. Inicialmente não ocorrem sintomas. Com o passar do tempo, o sangue tem dificuldade em chegar até os órgãos, ocorre falta de oxigênio e sofrimento dos tecidos.

Os sintomas dependem da localização da artéria doente:

  • Coração: dor e sensação de pressão no peito.
  • Cérebro: fraqueza e perda de sensibilidade nos membros, fala enrolada, perda de visão, paralisia;
  • Pernas: dor ao caminhar (claudicação);
  • Rim: hipertensão arterial.

As complicações também variam de acordo com o órgão comprometido, mas pode ocorrer infarto, acidente vascular cerebral, aneurismas, gangrena e falência dos rins (insuficiência renal).

Insuficiência Cardíaca Congestiva

A insuficiência cardíaca ou falência do coração ocorre quando este não consegue bombear o sangue de forma eficiente. Ela é mais frequente em pessoas que têm doença coronariana, hipertensão arterial, diabetes e obesos. O quadro de insuficiência cardíaca pode ter uma evolução longa, com sinais e sintomas como:

  • Falta de ar (dispneia);
  • fadiga;
  • fraqueza;
  • inchaço nas pernas e pés;
  • tosse;
  • palpitações;
  • perda de apetite.

Quando ocorre de forma súbita, causa dor no peito, muita falta de ar e tosse com secreção. Nestes casos, deve-se procurar um pronto atendimento imediatamente.

Doenças das válvulas cardíacas

O coração tem quatro válvulas cardíacas que, com a idade, podem apresentar refluxo ou estenose. No refluxo, a válvula não se fecha completamente e o sangue volta para a câmara de onde saiu. A estenose da válvula reduz seu orifício e dificulta a passagem do sangue. Algumas infecções e doenças como diabetes, hipertensão arterial e colesterol elevado predispõe ao comprometimento válvula.

Quando uma ou mais válvulas cardíacas estão comprometidas, o paciente apresenta:

  • sopro cardíaco;
  • palpitações ou batimentos irregulares;
  • fadiga;
  • falta de ar;
  • inchaço das pernas e pés;
  • tonteira;
  • desmaios.

O tratamento depende da válvula comprometida e pode ser necessária cirurgia para tratá-la ou substituí-la.

Como prevenir as doenças do coração?

As doenças cardiovasculares são responsáveis pela maioria das mortes nas pessoas acima de 60 anos. É possível evitar as doenças e, especialmente, as complicações, com algumas medidas simples:

  • atividade física durante pelo menos 30 minutos por dia;
  • dieta saudável, rica em verduras, legumes, fibras e frutas;
  • reduzir o consumo de açúcar e sal;
  • não fumar;
  • administrar o estresse;
  • investir em um sono de qualidade ou reparador;
  • controlar HAS (pressão alta), colesterol alto e diabetes;
  • evitar obesidade (especialmente a gordura abdominal – inflamação);
  • evitar álcool;
  • evitar alguns medicamentos como descongestionantes nasais;
  • avaliação clínica periódica.