Qual é a relação entre genética e autismo?

Retrato de menino com autismo. Na esquerda tem um DNA para representar a genética.

Desde a década de 70, sabe-se que existe uma relação direta entre os genes e o TEA. Isso porque, em 1977, um estudo sobre esse assunto descobriu que gêmeos idênticos costumam compartilhar essa condição.

Avançando para 2019, uma das maiores pesquisas desse tipo, envolvendo mais de 2 milhões de pessoas em cinco países, descobriu que o autismo é 80% dependente dos genes herdados. Isso significa, basicamente, que as causas ambientais para ele são responsáveis ​​por apenas 20% do risco.

Sendo assim, é possível afirmarmos que, há praticamente 5 décadas, os cientistas vêm descobrindo potenciais culpados genéticos para essa condição. Na medida em que este trabalho progrediu, encontrou-se uma variedade de mudanças genéticas que podem estar na base do autismo.

Quanto mais os cientistas se aprofundam no DNA, mais intrincada parece ser sua contribuição para o autismo. Isso é incrível porque, além de abrir novas portas para pesquisas sobre as causas genéticas do autismo, pode ajudar a diminuir os mitos que a circundam (como, por exemplo, ele ser causado por fatores maternos como peso, modo/momento do parto ou ingestão de nutrientes).

Afinal: existe “o gene” do autismo?

Na verdade, não. Ocorre que existem várias condições associadas ao autismo que se originam de mutações de um único gene, incluindo as síndromes do X frágil e Rett.

Porém, menos de 1% dos casos não sindrômicos de autismo resultam de mutações em um único gene. Até agora, não se identificou nada como um “gene do autismo”, ou seja, ainda não foi encontrado um gene específico que sempre sofre mutação consistente em pessoas com autismo. Além disso, também não parece haver algum gene que cause autismo toda vez que sofre mutação.

Ainda assim, a lista de genes relacionados ao autismo está cada vez maior. Até a publicação deste artigo, para se ter ideia, já foram registrados cerca de 100 genes considerados fortemente ligados ao TEA. Muitos desses, inclusive, são importantes para a comunicação entre neurônios ou para controlar a expressão de outros genes.

Como esses genes contribuem para o autismo?

Descobriu-se, então, que algumas mudanças ou mutações no DNA desses genes citados acima podem levar ao autismo. Porém, antes de continuarmos com esse assunto, que tal voltarmos um pouco às aulas de biologia para entendermos todo esse processo?

O que é o DNA?

O DNA (ácido desoxirribonucleico) é uma molécula que possui instruções biológicas que tornam cada espécie única. A cada reprodução de organismos adultos, ele é passado para frente, criando uma linha de descendência.

O ácido desoxirribonucleico é feito, basicamente, de blocos químicos chamados nucleotídeos. Esses blocos são compostos por três partes: fosfatos, açúcares e um dos quatro tipos de bases de nitrogênio. Para formar uma fita de DNA, os nucleotídeos são ligados em cadeias, com os grupos fosfato e açúcar am alternância.

Os quatro tipos de bases nitrogenadas encontradas nos nucleotídeos são: adenina (A), timina (T), guanina (G) e citosina (C). A ordem, ou sequência, dessas bases determina quais instruções biológicas estão contidas em uma fita de DNA. Por exemplo, a sequência ATCGTT pode instruir para olhos azuis, enquanto ATCGCT pode instruir para castanhos.

Um DNA completo (ou genoma) de um ser humano contém cerca de 3 bilhões de bases e 20.000 genes em 23 pares de cromossomos.

Para o quê serve o DNA?

O DNA contém as instruções necessárias para um organismo se desenvolver, sobreviver e se reproduzir. Para realizar essas funções, as sequências contidas neste devem ser convertidas em mensagens que podem ser usadas para produzir proteínas, que são as moléculas complexas que fazem a maior parte do trabalho em nossos corpos.

Cada sequência de DNA que contém instruções para fazer uma proteína é conhecida como um gene. O tamanho de um gene pode variar muito, desde 1.000 bases até 1 milhão.

Os genes, por sua vez, constituem apenas cerca de 1% da sequência de DNA. As sequências que estão fora desse 1% são responsáveis pela regulação de quando, como e quanto de uma proteína é produzida pelo nosso organismo.

Agora sim: voltemos à relação entre genes e TEA!

As mutações genéticas costumam afetar um único par de bases de DNA (ou seja, uma das letras “ATGC”). Vale ressaltar, no entanto, que todo mundo possui milhares dessas variantes genéticas. Para se ter ideia, é considerado normal encontrar uma variante em 1% ou mais da população. Isso é chamado de polimorfismo de nucleotídeo único, ou SNP.

Essas variantes, mesmo que comuns e geralmente terem efeitos sutis, podem trabalhar juntas para contribuírem para o autismo. Já as variantes “raras”, encontradas em menos de 1 por cento das pessoas, no entanto, tendem a ter efeitos mais fortes.

Muitas das mutações associadas ao autismo, até agora, são da “categoria” rara. Isso significa, basicamente, que é mais difícil encontrar “variantes comuns” para o risco de autismo.

Outras mudanças, conhecidas como variações do número de cópias (CNVs), aparecem como deleções ou duplicações de longos trechos de DNA e, frequentemente, incluem muitos genes.

No entanto, é importante falar que as mutações que contribuem para o autismo não estão todas presentes nos genes (que, inclusive, constituem menos de 2% do genoma). Os pesquisadores estão tentando vasculhar os 98% restantes do genoma em busca de irregularidades associadas ao autismo. Até agora, essas regiões são mal compreendidas.

Mas… calma: todas as mutações genéticas são prejudiciais?

Não! Mutações podem ser prejudiciais ou benignas. Tudo depende do quanto elas alteram a função da proteína correspondente. Uma mutação, por exemplo, que troca um aminoácido da proteína por outro, e não a altera significativamente, é provavelmente benigna.

Já uma mutação sem sentido, por outro lado, que interrompe a produção da proteína e faz com que ela funcione mal, já é mais “perigosa”.

E como as pessoas adquirem essas mutações?

A maioria das mutações é herdada dos pais e podem ser comuns ou raras.

No mais, elas também podem surgir espontaneamente em um óvulo ou espermatozoide e, portanto, são encontradas apenas no filho, e não nos pais.

Para encontrar essas mutações raras, os pesquisadores comparam as sequências de DNA de pessoas com autismo com as de seus familiares não afetados. Mutações espontâneas que surgem após a concepção são geralmente em “mosaico”, ou seja, que afetam apenas algumas das células do corpo.

E, por fim: existe uma forma de testar as mutações antes de uma criança nascer?

Sim. Existem testes genéticos pré-natais para algumas síndromes associadas ao autismo, como a do X frágil. Porém, mesmo que um bebê em desenvolvimento tenha essas mutações raras, não há como saber com certeza se ele será mais tarde diagnosticado com autismo.

 

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Neurologia

Médica, especialista em pediatria e neurologia pediátrica. Atende na Magno Veras Clínica Pediátrica, em Belo Horizonte.

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