Dra. Denise Brasileiro

Nutrologia:

O conceito de uma alimentação saudável é um assunto cercado de muita controvérsia. O que compõem um prato perfeito? Quais são os melhores alimentos? Quais fazem mal à saúde? Em busca destas respostas, conversamos com a Dra. Denise Brasileiro, pediatra, especializada em nutrição infantil.

CS:Dra.Denise, o que compõe um “prato perfeito”?

DB:Um prato perfeito deve ser colorido e conter alimentos de todos os grupos: frutas e vegetais, carboidratos, proteínas e gorduras saudáveis. Escolher sempre alimentos “de verdade”, em seu estado natural. Evitar alimentos processados e refinados.

De uma maneira geral, a composição recomendada é: 50% de vegetais crus ou cozidos; 25% de carboidratos, preferencialmente integrais; 25% de proteínas de origem animal ou vegetal.

Vegetais

Os vegetais são uma grande família de alimentos ricos em nutrientes, vitaminas, minerais e fibras. Protegem contra várias doenças incluindo as cardiovasculares e o câncer. A quantidade diária recomendada de vegetais é de 6 a 8 porções. É importante incluir na dieta, diariamente, a maior variedade possível de vegetais, pois cada um deles contém diferentes nutrientes. A melhor forma de fazer, isto é, buscando incluir muitas cores diferentes!

Alguns vegetais contêm uma quantidade maior de carboidratos e causam uma maior elevação da glicose no sangue. Alguns exemplos de vegetais glicêmicos são: batata inglesa, batata doce, beterraba, cenoura, milho, ervilha, abóbora, abobrinha e mandioca. Todos estes devem ser consumidos com moderação.

Carboidratos

Os carboidratos fornecem energia para o funcionamento do corpo e para a realização das tarefas diárias. Alguns alimentos ricos em carboidratos são: arroz, feijão, pão, macarrão e os vegetais glicêmicos. Sempre dar preferência aos alimentos integrais, pois contêm mais nutrientes.

Proteínas

As proteínas podem ser do tipo animal ou vegetal. As proteínas animais são: carnes de boi, porco, frango, ovos, peixes, frutos do mar, leite e derivados. Entre as proteínas vegetais podemos citar o feijão, lentilha, grão de bico, soja e castanhas. É importante lembrar que as proteínas de origem vegetal não possuem as quantidades necessárias de todos os aminoácidos essenciais para o ser humano.


Gorduras

Em uma dieta equilibrada, é importante incluir gorduras saudáveis como, por exemplo, azeite de oliva, óleo de abacate, óleo de coco, manteiga e ghee. A quantidade de gorduras na dieta é motivo de muita controvérsia na comunidade científica. Nós, do Convite à saúde, acreditamos que devem ser consumidas gorduras de qualidade em quantidades moderadas. Embora essenciais para a saúde, não há comprovação na literatura de que consumir um excesso de gordura traga benefícios.

CS: As orientações nutricionais são as mesmas para crianças de qualquer idade? 

DB:A alimentação de crianças de todas as idades deve incluir todos os grupos alimentares, exceto se apresentar alergia ou intolerância algum alimento. O que varia de acordo com a faixa etária é a textura, quantidade e horário das refeições.

6 meses a 8 meses

Aos seis meses devem ser introduzidas papas de frutas e sopas de legumes. A sopa deve ser amassada, nunca batida ou passada na peneira.

Em torno de oito meses de idade, podemos deixar pequenos pedacinhos na sopa e iniciar “finger foods” como vegetais cozidos e picados, pedacinhos de frutas e macarrão. Biscoitos adequados podem ser usados para coçar a gengiva quando os dentes começarem a nascer.

1 ano

Após um ano de idade, a criança poderá comer os mesmos alimentos que a família. O leite de vaca pode ser introduzido nesta idade, sempre na forma integral. Observar se o bebê apresenta algum tipo de intolerância ao alimento.

Uma criança de dois anos come muito menos do que um bebê, o que muitas vezes gera confusão. O crescimento nesta fase é mais lento do que durante o primeiro ano de vida e a necessidade nutricional é menor. Incluir em cada refeição todos os grupos de alimentos, variando o máximo possível ao longo dos dias.

2-6 anos 

Acriança nesta faixa etária é mais seletiva em relação aos alimentos e uma certa autonomia deve ser encorajada.

6+

Depois dos seis anos de idade ocorre um aumento do apetite e a criança começa a imitar os amigos, comendo o que os colegas comem.

CS: Que tipo de alimento NÃO é recomendado para as crianças?

DN:O achocolatado, por exemplo, tem enorme quantidade de açúcar e prejudica a absorção do cálcio do leite.

Gelatinas não devem ser oferecidas às crianças, pois contém corantes artificiais extremamente alergênicos e associados a alterações do sistema imune e doenças como autismo.

Evitar alimentos ricos em gorduras trans como bolinhos e biscoitos industrializados, sorvete, margarina, batata frita e pipoca de micro-ondas.

Os embutidos (salsicha, presunto, salame, mortadela) contém nitrosamina, uma substância cancerígena de efeito acumulativo no organismo, que também pode oferecer grandes danos à saúde.

CS: Planos alimentares: porque é tão difícil segui-los?

DB: Ao se elaborar um plano nutricional, devem ser levados em consideração os hábitos familiares. A alimentação de rotina da criança deve ser analisada e, a partir deste diário alimentar, feitas as modificações necessárias. O contexto cultural da família deve ser respeitado para ter sucesso na adequação da dieta.

A aversão a novas comidas pode diminuir a medida em que a criança é exposta repetidamente ao alimento, junto com os familiares. O que os pais, avós e irmãos comem influencia diretamente o desenvolvimento dos hábitos alimentares da criança e sua relação com os alimentos.

Neofobia alimentar

DB:Muitas famílias enfrentam a recusa das crianças em experimentar novos alimentos. Isto é uma ocorrência normal na infância e não deve ser motivo de preocupação. Algumas estratégias para vencer este problema:

– Insistência: pesquisas mostram que uma criança algumas vezes tem que experimentar um novo sabor oito a dez vezes para se acostumar e passar a “gostar” dele. Não desistir na primeira tentativa. Oferecer o alimento em outras ocasiões, apresentando-o de formas diferentes.

– Bom exemplo: a criança irá se acostumar a comer o que observa no dia a dia da família. Insistir que o filho coma legumes e verduras quando ele vê os pais comendo pizza e refrigerante dificilmente irá funcionar.

– Refeições em família: além do bom exemplo, o momento das refeições em família proporciona a oportunidade de conversar, ouvir e interagir com as crianças. Especialmente para os pequenos, comer rotineiramente com os pais traz sensação de segurança e de pertencer `a família. Inúmeras pesquisas mostram que as crianças que tem este hábito em casa comem mais legumes e frutas, têm notas melhores na escola e tem menor risco de obesidade. Entre os adolescentes, foram observadas melhor saúde mental e estabilidade emocional.

Neurose alimentar

Atualmente, é grande a preocupação das pessoas com a saúde e a alimentação. Em alguns casos, desenvolve-se tanta ansiedade e obsessão em torno do tema ao ponto de ser considerada uma doença, a ortorexia nervosa. Algumas mães se sentem culpadas e responsáveis pelos desafios alimentares dos filhos, ao ponto de transmitir para eles toda a sua ansiedade. As crianças têm apresentado em idades cada vez mais precoces transtornos alimentares muito sérios como anorexia nervosa e bulimia.

CS: Qual o seu convite a Saúde?

DB:Especialmente na infância, as refeições em família representam um momento de acolhimento, carinho e atenção. É importante não estragar estes momentos com regras rígidas, proibições e críticas. Hábitos de alimentação saudáveis devem ser construídos de forma progressiva e tranquila desde cedo, e adotados naturalmente por toda a família.