Mulher segurando na frente da barriga um modelo de um intestino com elementos gráficos representando a flora intestinal e os dizeres pilar da saúde intestinal

Adriana Bonfioli

A saúde intestinal tem sido pesquisada extensivamente em todo o mundo. Principalmente após estudos demonstrarem sua importância para a saúde.

O intestino é considerado hoje um órgão endócrino, capaz de produzir substâncias que regulam várias funções do metabolismo e sistema imunológico. Logo, para ter boa saúde, o intestino precisa de uma barreira intestinal eficiente e uma microbiota saudável para filtrar o que penetra no organismo.

Alterações intestinais que resultem em intestino permeável e inflamação crônica estão na raiz da maioria das doenças crônicas modernas como diabetes, hipertensão arterial, problemas cardiovasculares e câncer.

Parede intestinal

A parede intestinal é formada por uma camada de muco que recobre uma fileira de células epiteliais. As células estão conectadas umas às outras por junções muito firmes que impedem a passagem de substâncias e microrganismos.

Uma parede saudável é capaz de avaliar tudo que chega até o intestino, vindo do meio externo, e decidir o que irá penetrar ou não no corpo.

Infográfico representativo da parede intestinal

Microbiota intestinal

A microbiota é um conjunto de microrganismos que vivem em um determinado ambiente. Neste caso, no intestino. Ela é composta principalmente por bactérias, fungos, vírus e protozoários de muitas espécies diferentes. Nosso organismo possui 10 vezes mais células em sua microbiota do que células humanas.

A microbiota normal de uma pessoa sadia possui mais de mil espécies de bactérias, a maioria delas desconhecidas. Entre as identificadas, destacam-se os Bacteroidetes e os Firmicutes como microrganismos dominantes.

Existe, porém, uma grande diversidade, fazendo com que a composição da microbiota de uma pessoa seja diferente de todas as outras. Ela sofre influência de fatores genéticos e ambientais como dieta, uso de antibióticos, estresse, exposição a toxinas e presença de doenças.

Papel da microbiota no metabolismo do hospedeiro

A microbiota tem múltiplas funções no metabolismo do hospedeiro:

  • Nutrição: a microbiota tem importante papel na digestão e nutrição, pois é capaz de extrair nutrientes de alguns alimentos que o organismo não seria capaz de digerir, como as fibras insolúveis presentes nos vegetais, e produzir energia. Além disso, produz vitaminas utilizadas pelo hospedeiro como folato, vitamina K, biotina, vitamina B2, B12 entre outras;
  • Modulação do metabolismo: os microrganismos fermentam as fibras alimentares e produzem ácidos graxos de cadeia curta (acetato, propionato e butirato). O butirato é a principal fonte de energia para as células do intestino. O propionato atua no fígado, regulando o metabolismo da glicose e enviando sinais de saciedade. O acetato participa do metabolismo das gorduras e também tem ação no controle do apetite;
  • Proteção contra câncer de cólon: o butirato, produzido pelas bactérias intestinais, participa da eliminação de células cancerígenas (câncer de cólon);
  • Regulação do sistema imunológico: a microbiota participa da modulação do sistema imunológico do indivíduo. As células de defesa do intestino aprendem a tolerar a microbiota e a diferenciar os microrganismos comensais e benéficos dos patogênicos, potencialmente causadores de doenças. O resultado é um efeito protetor sobre a microbiota e a eliminação dos intrusos;
  • Defesa local contra patógenos: muitas bactérias intestinais produzem compostos antimicrobianos e competem por nutrientes com as bactérias patogênicas. Além disso, ocupam a superfície das células intestinais impedindo a entrada dos patógenos no organismo;
  • Prevenção de alergias: a microbiota participa da regulação da resposta do sistema imune a alérgenos como o pólen, que chegam ao intestino, evitando uma resposta exagerada do organismo que resultaria no desenvolvimento de alergias;
  • Eixo intestino-cérebro: as bactérias do intestino produzem substâncias capazes de provocar ações no cérebro e este, por sua vez, regula a motilidade intestinal, produção de muco e funções imunológicas no intestino.

Alteração da microbiota: disbiose

A disbiose ocorre quando há alteração da composição da microbiota, resultando em baixa diversidade, redução das bactérias comensais e aumento de microrganismos patogênicos como Clostridium, Klebsiella e pseudomonas.

A microbiota disfuncional leva a uma quebra na camada de muco que protege o epitélio e permite que toxinas, compostos da dieta, alérgenos e microrganismos penetrem na parede intestinal.

Ocorre, também, uma inflamação local e lesão das células e das junções que mantém a integridade da barreira, resultando em um intestino permeável.

As células inflamadas passam a reagir de forma exacerbada a todas as substâncias que chegam ao intestino e penetram no organismo, o que resulta em uma inflamação disseminada e persistente.

A inflamação crônica resultante da disbiose tem sido associada ao desenvolvimento de várias doenças metabólicas como: obesidade, síndrome metabólica, diabetes, doenças cardiovasculares e câncer.

Fatores dietéticos e ambientais que alteram a microbiota

Fatores positivos

  • Prebióticos: alimentos ricos em fibras que não são digeridos pelo organismo humano e alimentam as bactérias intestinais. Eles aumentam a diversidade da microbiota e a produção dos ácidos graxos de cadeia curta. Reduzem o risco de diabetes e doença cardiovascular;
  • Probióticos: bactérias e fungos vivos que, quando consumidos, têm efeito benéfico na colonização do intestino e na composição da microbiota intestinal. Podem ser consumidos em alimentos como iogurte, kefir, kombucha, produtos fermentados ou na forma de suplementos;
  • Queijo: aumenta as bifidobactérias (comensais) e reduz a quantidade de alguns patógenos;
  • Polifenóis: presentes no café, chá, frutas vermelhas, azeitona e aspargos, aumentam a concentração de várias bactérias benéficas. Reduzem os marcadores de síndrome metabólica e doença cardiovascular.
  • Alimentos glúten free: são benéficos para a microbiota de pacientes com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten. ATENÇÃO: em pessoas que não apresentam intolerância ao glúten, consumir alimentos glúten free pode ser prejudicial à saúde, pois altera negativamente a composição da microbiota. Em um estudo recente, observou-se um aumento do risco de doença cardiovascular nestes indivíduos, provavelmente pela redução no consumo de grãos integrais.

Fatores negativos

  • Adoçantes artificiais: estudos em laboratório, ainda não comprovados em humanos, mostram que sucralose, aspartame e sacarina têm efeitos negativos sobre a microbiota, resultando em maior resistência à insulina;
  • Aditivos e emulsificantes nas comidas processadas;
  • Excesso de açúcar e gorduras na dieta;
  • Medicamentos: antibióticos, laxativos osmóticos, progesterona, alguns antialérgicos, antiinflamatórios e omeprazol são algumas drogas que alteram a composição da microbiota. Existem evidências de que o consumo de produtos animais (ex: carne e frango) tratados com antibióticos levam ao ganho de peso.

Os efeitos da dieta sobre a microbiota intestinal são indiscutíveis, mas definir quais são os melhores alimentos para a saúde é algo bastante individual.

Pesquisadores acreditam que, conhecendo a composição da microbiota de uma pessoa, é possível criar uma dieta adequada às suas necessidades específicas.

Enquanto isso não acontece, podemos fazer escolhas melhores com o que já foi estabelecido pela ciência.

Faça boas escolhas

O efeito negativo dos alimentos processados e de medicamentos não pode ser ignorado. Buscar uma alimentação rica em vegetais e frutas, grãos integrais, com pouco açúcar e gordura é um bom ponto de partida.

Além disso, cuidar também dos outros pilares da saúde garante que nosso corpo tenha equilíbrio e energia para viver com qualidade, longe de doenças!