Alimentos saudáveis, um copo de água e uma fita métrica

Dra. Denise Brasileiro

A microbiota intestinal é o conjunto de microrganismos (bactérias, fungos e protozoários) que habitam o intestino de um indivíduo. É considerada atualmente como um órgão endócrino, capaz de produzir substâncias e hormônios que agem em vários órgãos.

Tem também a capacidade de modular os sistemas imunológico e neurológico, regular a motilidade intestinal, interferir na digestão e no aproveitamento dos nutrientes, regular o metabolismo e o armazenamento de gordura no organismo, entre muitas outras funções Veja mais clicando aqui.

Atualmente, foi demonstrada uma relação clara entre a microbiota intestinal e a regulação do peso corporal, e como seu desequilíbrio pode levar à obesidade.

Uma microbiota saudável tem grande diversidade de microrganismos e eles vivem em harmonia entre si e com o hospedeiro. Cada pessoa tem uma microbiota específica, diferente de todos os outros indivíduos.

Estudos genéticos têm tentado identificar os principais microrganismos comensais (benéficos) e diferenciá-los daqueles que causam problemas (patogênicos).

Disbiose intestinal

A disbiose ocorre quando há um desequilíbrio na microbiota intestinal e um crescimento exacerbado de alguns tipos de microrganismos potencialmente maléficos. Ocorre perda da diversidade e aumento do número de patógenos. Estas alterações têm sérias consequências para o trato digestivo e para o organismo.

A barreira intestinal é formada por uma camada de muco e outra de células, interligadas umas às outras por junções firmes. A microbiota fica na sua superfície, aderida à camada de muco, protegendo a parede. A barreira está em contato com o conteúdo do intestino e decide o que irá penetrar ou não no organismo.

Infográfico que ilustra a parede intestinal. Nele mostra a barreira funcional funcionando corretamente e a mesma com defeito.

Com a disbiose, ocorre uma alteração da camada de muco e as bactérias penetram até as células da parede do intestino, causando inflamação e destruição.

Ocorrem lesões estruturais na barreira intestinal, resultando em um intestino permeável. A partir daí, proteínas da dieta, pólen, toxinas e microrganismos passam para corrente sanguínea e se espalham por todo o corpo.

Um tipo especial de toxina produzida pelas bactérias, chamada LPS (lipossacarídeo), atravessa a parede intestinal, estimula o sistema imunológico e causa uma inflamação crônica por todo o organismo.

Foi demonstrada uma associação entre este processo inflamatório e a maioria das doenças metabólicas modernas como diabetes, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e câncer.

Obesidade e suas causas

A obesidade ocorre quando há excesso de gordura depositada no corpo. Seu mecanismo é complexo e envolve fatores genéticos e ambientais. Ela está associada a alterações que caracterizam a síndrome metabólica:

  • Elevação da glicemia (açúcar no sangue);
  • Aumento do colesterol ruim (LDL) e dos triglicérides;
  • Redução do colesterol bom (HDL);
  • Hipertensão arterial.
  • Pessoas portadoras da síndrome metabólica têm maior risco de desenvolver doenças como o diabetes e problemas cardiovasculares.
    A síndrome metabólica, porém, não ocorre apenas em indivíduos obesos. Algumas pessoas com peso dentro da normalidade apresentam diminuição da sensibilidade à insulina, alterações no metabolismo das gorduras e inflamação crônica, típicas da síndrome.

    E qual o papel da microbiota intestinal?

    Estudos recentes demonstraram que existe uma relação entre as bactérias que compõe a microbiota intestinal e o ganho de peso.

    Em um experimento, ratinhos germ free (sem microbiota) que recebiam uma dieta rica em gordura não ganharam peso. Já os ratinhos com microbiota intestinal presente, com a mesma alimentação, ficaram obesos.

    Quando microrganismos intestinais foram transferidos destes para os ratinhos germ-free, eles passaram a engordar.

    A microbiota dos obesos é diferente das pessoas com peso normal, com a predominância de tipos específicos de bactérias como o Firmicutes phylum e redução de bactérias benéficas como os Bacteroidetes.

    A alteração na composição da microbiota resulta nas seguintes mudanças:

    • Regulação do metabolismo de energia: a microbiota interfere na motilidade do intestino e na digestão de carboidratos. O hospedeiro passa a extrair mais energia dos alimentos.
    • Depósito de gorduras: ocorre um aumento do depósito de gorduras em todo o organismo, especialmente tecido adiposo, músculos, cérebro e fígado. No fígado, este acúmulo de gordura pode resultar em esteatose hepática.
    • Mecanismos de saciedade: redução da produção de substâncias que agem no cérebro e informam que o alimento chegou ao intestino e que não é necessário ingerir mais comida. Sem esta informação, não ocorre a sensação de saciedade e o indivíduo tende a comer mais do que precisa;
    • Inflamação crônica: a disbiose resulta no aumento da permeabilidade do intestino e passagem de endotoxinas, especialmente a LPS, que estimula o sistema imunológico e leva à inflamação. A LPS é encontrada em pequena quantidade em pessoas sadias e em alta concentração nos obesos (endotoxemia metabólica).
    • Redução da sensibilidade à insulina: a insulina é o hormônio produzido pelo pâncreas após uma refeição e elevação da glicose no sangue. Ele é responsável por levar a glicose para dentro das células para ser utilizada como fonte de energia. Quando a sensibilidade à insulina está diminuída, as células não respondem à sua ação e a glicose permanece no sangue, causando hiperglicemia. O excesso de açúcar no sangue estimula a síntese de gorduras no fígado e seu acúmulo nos tecidos adiposos.

    A conclusão dos pesquisadores é que a alteração da microbiota intestinal tem um papel importante no desenvolvimento da obesidade, da síndrome metabólica e das doenças crônicas resultantes.

    Como investir na saúde da microbiota intestinal?

    Os trabalhos demonstram que os dois principais fatores associados às alterações da microbiota durante a vida e responsáveis pela “epidemia” de obesidade no mundo são: uso de antibióticos e dieta.
    Para proteger a saúde da microbiota intestinal recomenda-se:

    • Restringir o uso de antibióticos ao mínimo necessário;
    • Evitar alimentos industrializados;
    • Evitar alimentos com adição de açúcar;
    • Evitar excesso de alimentos gordurosos;
    • Investir em alimentos prebióticos como vegetais e grãos integrais. Eles contém fibras insolúveis que servem de alimento para as bactérias benéficas do intestino;
    • Investir em alimentos probióticos que contém microrganismos vivos capazes de colonizar o intestino e melhorar a composição da microbiota e o equilíbrio entre as diferentes espécies. Eles são o iogurte, kefir, kombucha e outros alimentos fermentados, mas estão disponíveis também em suplementos.

    Novas terapias no combate à obesidade

    Os estudos atuais sobre obesidade buscam manipular os microrganismos que habitam o intestino para prevenir e combater as doenças. O transplante fecal tem se mostrado bastante promissor para restaurar a microbiota intestinal. O procedimento ainda é experimental, mas tem sido considerado uma importante arma contra a obesidade e as doenças metabólicas.

    Além disso, pesquisas estão surgindo com posbióticos, substâncias ou partículas derivadas de bactérias do intestino que têm efeitos sobre o metabolismo do hospedeiro. Eles estão sendo estudados como suplementos, inclusive para as fórmulas infantis.

    A importância do bom funcionamento do intestino é indiscutível. Por isso, o consideramos um dos Dez Pilares da saúde. Descubra mais estratégias para manter ou recuperar a sua microbiota no nosso artigo sobre o pilar da Saúde Intestinal.

    Gostou do texto? Leia mais conteúdos como esse em nosso Blog, e siga nossos perfis nas redes sociais (Facebook e Instagram).