mãe e bebe deitados no chão brincando com pesos de academia

Dra. Denise Brasileiro

O crescimento e o desenvolvimento de um bebê dependem de vários fatores e muito se tem estudado sobre o assunto. Sabe-se que escolhas da mãe, feitas até cem dias antes da gravidez, podem ter efeitos sobre o feto e sua microbiota intestinal.

Uma boa alimentação, controle de peso, vacinas em dia, controle de doenças crônicas e suplementação com vitaminas, ácido fólico e ômega 3 são os primeiros passos para uma gestação e um bebê saudáveis.

Atualmente, estudos destacam que a saúde intestinal da mãe também é um fator importante e deve ser abordado, pois influencia no desenvolvimento da microbiota do bebê ainda dentro do útero, com repercussões durante a infância e a vida adulta.

O que é microbiota?

Microbiota é um conjunto de microrganismos como bactérias, fungos e protozoários que vivem juntos em um mesmo ambiente. O solo, a água, o ar e todos os organismos vivos possuem microbiotas.

Os termos microbiota e microbioma são usados sem distinção mas, tecnicamente, microbiota é o microrganismo e o microbioma é o conjunto do seu DNA.

Todas as partes do nosso corpo que estão em contato com o meio externo possuem uma microbiota: pele, boca, trato digestivo e os olhos, por exemplo. De cada dez células presentes no nosso corpo, apenas uma é nossa e as outras nove são microrganismos. Nós dependemos deles para várias funções metabólicas e eles dependem de nós para se alimentar e sobreviver.

A microbiota intestinal, por exemplo, tem várias funções conhecidas:

  • Produzir vários hormônios e enzimas importantes para o metabolismo e funcionamento do corpo;
  • Auxiliar no processamento dos alimentos e na absorção de diversos nutrientes;
  • Interferir no comportamento e no humor;
  • Estimula e regular o sistema imunológico;
  • Regular os mecanismos de fome e saciedade;

Atualmente, a microbiota intestinal é considerada um órgão endócrino (produtor de hormônios) capaz de interferir no metabolismo de energia e na imunidade do hospedeiro.

Cada um de nós possui uma microbiota específica, com espécies e quantidades diferentes de microrganismos.

Durante os últimos anos, com os avanços dos estudos genéticos, tem sido estudado o DNA das bactérias na tentativa de interferir positivamente na microbiota e melhorar a saúde intestinal das pessoas.

O bebê não nasce estéril

Durante a gestação, a placenta funciona como uma barreira entre a mãe e o feto. Porém, diversas substâncias e microrganismos conseguem atravessá-la.

A presença do DNA de bactérias na placenta e líquido amniótico foi identificada em vários estudos. Acredita-se, hoje, que a colonização do intestino do bebê se inicia intra-útero.

Após o nascimento, a dieta e os fatores ambientais são os principais elementos para se estabelecer uma microbiota saudável, que influencie positivamente no desenvolvimento dos sistemas imunológico e neurológico.

Com o passar do tempo, o bebê vai adquirindo uma microbiota mais variada, rica em microrganismos comensais e benéficos que conseguem impedir a proliferação dos patógenos (protozoários, bactérias e fungos nocivos à saúde). A composição da microbiota se assemelha a de um adulto aos 2 ou 3 anos de idade.

Durante a infância e a vida adulta, especialmente quando ocorrem variações na dieta, a microbiota pode sofrer mudanças em sua composição e continuar funcionando adequadamente. Porém, fatores como o uso de antibióticos ou exposição a toxinas ambientais podem causar um desequilíbrio e ter sérias repercussões para a saúde.

Fatores que influenciam o desenvolvimento da microbiota no bebê

Após o nascimento, a microbiota se desenvolve e se modifica de acordo com fatores individuais e ambientais:

  • Uso de antibióticos pelas mães durante a gravidez ou parto: antibióticos eliminam tanto as bactérias benéficas quanto as patogênicas, e causam um desequilíbrio na microbiota da mãe e do feto;
  • Idade gestacional: bebês prematuros são expostos a vários medicamentos que alteram a microbiota e, na maioria das vezes, não conseguem amamentar na mãe. É importante que ela retire o leite materno para oferecer ao bebê. Mesmo pequenas quantidades podem fazer a diferença;
  • Tipo de parto: os bebês nascidos de parto normal têm microbiota diferente dos nascidos de parto cesária. No parto normal, predominam os microrganismos do canal vaginal materno, enquanto na cesariana predomina a microbiota do ambiente;
  • Dieta do lactente: o leite materno é rico em prebióticos e probióticos. Prebióticos são as fibras que alimentam as bactérias intestinais e probióticos são as bactérias que passam da mãe para o filho e irão colonizar o seu intestino. As fórmulas são suplementadas com prébióticos, mas sabe-se que seu efeito não é comparável ao do leite materno.
  • Higiene: um bebê deve ter contato com o ambiente para construir sua microbiota. O excesso de esterilização do ambiente ou de higiene do bebê pode prejudicar o processo normal de colonização pelos microrganismos comensais.
  • Toxinas ambientais: as toxinas do ambiente ou dos alimentos podem alterar a composição da microbiota do bebê. Elas podem estar presentes em produtos de limpeza, higiene pessoal, alimentos processados contendo corantes, estabilizantes, conservantes, açúcar e gorduras trans, carnes contendo antibióticos, vegetais e frutas com agrotóxicos.
  • Excesso de fibras na dieta: bebês até um ano de idade não devem receber alimentos integrais, pois o excesso de fibras pode prejudicar a saúde da microbiota e propiciar o crescimento de microrganismos patogênicos.
  • Uso de medicamentos: os antibióticos utilizados durante a infância, especialmente nos primeiros anos, causam grande alteração da microbiota. Outros medicamentos como a ranitidina e o omeprazol, usados cronicamente, também podem ser prejudiciais. Deve-se ter muito critério ao indicar medicamentos para uma criança e sempre instituir medidas para restabelecer a saúde intestinal.
  • Idade de introdução de alimentos sólidos: o leite materno é a principal arma na construção de uma microbiota saudável. A introdução precoce de outros alimentos, antes dos seis meses, pode alterar negativamente a microbiota.

O que fazer para garantir uma microbiota intestinal saudável para o bebê?

O papel do pediatra é muito importante na orientação da gestante e da mãe sobre a importância da microbiota intestinal e as medidas recomendadas para que ela se desenvolva no bebê de forma saudável. Algumas recomendações são:

  • evitar o uso de antibióticos durante a gravidez, a não ser que sejam imprescindíveis e recomendados por um especialista;
  • dar preferência ao parto normal, pelos seus inúmeros benefícios, entre eles a saúde intestinal do bebê;
  • se o bebê nasceu prematuramente, fazer o possível para retirar o leite materno e oferecê-lo a ele, mesmo que em pequenas quantidades;
  • oferecer o leite materno exclusivo durante os primeiros seis meses de vida e depois mantê-lo por mais 1 a 2 anos, complementando os alimentos oferecidos;
  • se for necessário utilizar fórmulas, procurar seguir a recomendação do pediatra quanto à melhor opção para o bebê;
  • não tornar o ambiente do bebê exageradamente estéril, especialmente utilizando produtos de limpeza em excesso;
  • permitir que o bebê tenha contato com animais domésticos e com a natureza;
  • escolher produtos de higiene pessoal sem substâncias tóxicas;
  • a mãe deve evitar ingerir alimentos processados, ricos em açúcar e gorduras trans, pois as substâncias nocivas presentes nestas comidas podem passar para o feto através da placenta e para o bebê por meio do leite materno;
  • lavar bem as verduras, legumes e frutas para eliminar ao máximo os agrotóxicos. Se possível, escolher produtos orgânicos;
  • evitar o uso de medicamentos durante a infância, a não ser que sejam mesmo necessários e prescritos pelo pediatra;
  • não introduzir alimentos sólidos antes dos seis meses de idade e, após esta idade, seguir as recomendações do pediatra;
  • crianças menores de um ano não devem comer alimentos integrais, pois têm excesso de fibras e podem sobrecarregar a microbiota intestinal ainda imatura.

O cuidado, de vez em quando, pode ser demais

São muitas as recomendações durante a gestação, o parto e os cuidados com o bebê. Tantas que muitas mães ficam sobrecarregadas e se tornam excessivamente zelosas. É importante ter conhecimento para poder fazer as melhores escolhas, mas não devemos deixar com que esta busca se torne estressante.

Bom senso, tranquilidade, amor e carinho são igualmente essenciais no processo de ter e de criar um filho. Um pediatra qualificado irá assumir a maioria das preocupações pela mãe e orientá-la constantemente sobre as melhores opções para ela e para o bebê.

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