Criança sentada no pinico. É mostrado só da barriga bra baixo. Ao lado, uma mesinha com blocos de madeira em forma de retângulos e triangulo

Dra. Mariana Vasconcelos

Não é novidade para ninguém que os pequenos costumam ter vários “probleminhas” durante os primeiros anos de vida. Afinal, o sistema imunológico ainda está em formação e, por isso, torna-se vulnerável a resfriados e outras infecções. Contudo, o que muitos pais não sabem é que a infecção urinária (ou infecção da uretra) em crianças também é bastante comum.

A má notícia é que, às vezes, as causas da uretrite e os sintomas desta infecção podem ser difíceis de serem detectados, principalmente quando o pequeno ainda não se comunica direito. O grande risco é que, quanto mais esse quadro demora a ser tratado, maior é a chance de que ele se agrave a ponto de causar sequelas renais irreversíveis.

Contudo, não há motivo para desespero! Com o tratamento correto, seu filho deve começar a se sentir melhor dentro de apenas alguns dias. Além disso, depois de ler esse texto, você saberá tudo o que precisa sobre infecção urinária em crianças. E sim, isso inclui causas, sintomas e tratamentos!

Vamos lá?

Afinal: o que é infecção urinária infantil?

Para entender mais sobre a infecção urinária em crianças, precisamos conversar um pouco antes sobre nosso organismo.

O corpo humano possui uma flora bacteriana rica em vários locais do corpo como, por exemplo: garganta, ouvido, vagina e, claro, no trato genitourinário. De forma geral, estes microorganismos vivem em equilíbrio, sem causar doenças.

A infecção urinária ocorre quando há uma multiplicação excessiva de algum microorganismo, geralmente uma bactéria (agente infeccioso/Chlamydia Trachomatis). A detecção de mais de 100 mil colônias bacterianas em 1 ml de urina caracteriza o diagnóstico laboratorial de infecção urinária.

Porém, para haver uma infecção propriamente dita, é preciso ocorrer a adesão das bactérias à parede do órgão, seja ele bexiga, ureter ou o rim.

A principal bactéria que apresenta essa capacidade de adesividade, e é responsável pela maioria dos casos de infecção urinária, é a Escherichia coli.

Por que a infecção urinária em bebês costuma ser mais grave?

A ocorrência de uma doença infecciosa, geralmente, está relacionada ao agente e ao hospedeiro. Um adulto com infecção urinária, por exemplo, tem o tecido renal protegido e a imunidade desenvolvida. Já em um recém-nascido, que ainda está muito vulnerável a fatores externos, esse quadro pode levar rapidamente à lesão renal, ou até mesmo à morte.

As sequelas da infecção urinária infantil, inclusive, podem surgir tardiamente. O paciente pode ter cicatrizes renais e não ter conseqüências. Porém, elas podem levar à retração do tecido renal e à produção de renina, que causa hipertensão arterial.

A presença de hipertensão, por sua vez, também pode afetar os rins, em um ciclo vicioso.

O que causa infecção urinária infantil?

Os principais fatores de risco para ela são:

1. Malformações congênitas dos rins e do trato urinário

O ultrassom morfológico do feto, realizado durante o pré-natal, é a arma mais importante na detecção de malformações congênitas no feto.

As alterações no desenvolvimento do trato urinário correspondem a um terço das anomalias encontradas, sendo a principal responsável pela infecção o refluxo vesicoureteral primário. Esse tipo de malformação é a principal causa de doença renal crônica nos dois primeiros anos de vida.

Se uma alteração do trato urinário for suspeitada durante o pré-natal, o bebê recém nascido deve ser encaminhado imediatamente a um nefrologista.

2. Má higiene

É preciso ensinar às meninas que a higienização deve ser feita sempre da vagina para o ânus, e nunca ao contrário, para evitar que as bactérias sejam levadas para a uretra. ( Essa orientação é bastante discutida, pois não há comprovação científica desse fato).

3. Posição para usar o vaso sanitário

É importante ensinar as meninas a utilizar o vaso sanitário na posição correta, assentando-se sobre ele. Urinar em pé, por exemplo, ao evitar sentar-se em uma privada pública, resulta em um esvaziamento incompleto da bexiga. A urina residual aumenta as chances de infecção, pois serve de meio de cultura para as bactérias.

3. Segurar a urina por longos períodos

É o principal fator associado às infecções urinárias. Deve-se ir ao banheiro com frequência ao longo do dia e sempre esvaziar a bexiga completamente.

Para se ter ideia, os primeiros casos de infecção urinária em criança mais velhas ocorrem, geralmente, em meninos e meninas ansiosos, tensos, que não querem parar de brincar para ir ao banheiro e, comumente, “seguram” a urina, ou fazem o xixi pela metade (para correr de volta para a brincadeira!).

Além disso, é muito comum a associação com constipação intestinal, pois a criança que segura a urina também segura as fezes. O tratamento do intestino preso é importante nesses casos.

4. Ter o sistema imunológico comprometido

Sem a proteção dos mecanismos de defesa do corpo, a proliferação e adesão de bactérias no trato urinário é facilitada.

5. Utilizar cateter uretral de longa permanência

Por ser introduzido na uretra para esvaziar a bexiga, o cateter torna o ambiente mais propício e exposto à infecção/proliferação de bactérias.

6. Sexo/Gênero

Em meninos, a infecção urinária é mais frequente até os 2 meses de idade e, geralmente, associada a malformações congênitas dos rins e do trato urinário.
Em crianças maiores, o quadro é mais comum nas meninas.

Quais os sintomas de infecção urinária infantil?

Em recém-nascidos, os sintomas de infecção geralmente são inespecíficos. Observa-se:

  • prostração;
  • diminuição do apetite;
  • sucção fraca;
  • palidez;
  • febre ou hipotermia;
  • vômitos;
  • choro inconsolável;
  • perda ou ganho de peso;
  • mudança na cor e no cheiro da urina.

Em crianças maiores, os sintomas mais comuns são:

  • Febre;
  • dor ao urinar;
  • aumento da frequência urinária;
  • urgência urinária;
  • urinar durante a noite na cama, especialmente se a criança já não tinha este hábito;
  • Incontinência urinária repentina durante o dia ;
  • urina com cheiro forte;
  • vômitos;
  • dor pélvica, abdominal e nos flancos.

Diagnóstico: como identificar a infecção urinária?

1. Exames básicos

  • Exame clínico: febre, aumento da bexiga e dor à palpação da pelve, abdome e flancos são comumente observados. O exame da genitália é essencial para determinar a presença de irritação, corrimento, sinais de trauma ou corpo estranho em meninas. No sexo masculino, a dificuldade na mobilização do prepúcio (fimose) pode contribuir para um maior risco de infecção.
  • Exame de urina: detecta a presença de bactérias e células de defesa do organismo, além de outras alterações menos específicas como a presença de nitritos e sangue.
  • Urocultura: indica o tipo de bactéria envolvido na infecção e sua sensibilidade a diferentes antibióticos.
  • Função renal: exames de sangue para medir uréia, creatinina e eletrólitos.

2. Exames avançados

  • Ultrassom renal: observa o tamanho e anatomia dos rins, a presença de cistos, cálculos ou dilatações dos canais urinários.
  • Uretrocistografia miccional: utiliza um cateter urinário para colocar contraste dentro da bexiga. O radiologista observa, durante a sua eliminação, a presença de obstrução ou refluxo do contraste para os rins.
  • Cintilografia renal estática: exame utilizado para medir a função renal.
  • Cintilografia renal dinâmica: avalia a presença de obstrução no trato urinário.
  • Urografia excretora: exame utiliza contraste intravenoso para avaliar a função renal. Pouco utilizado atualmente.

Exames complementares mais detalhados são indicados nos seguintes casos:

  • primeiro episódio de infecção urinária em criança até os 2 anos de idade;
  • primeiro episódio em criança do sexo masculino;
  • resposta pobre ao tratamento com antibióticos;
  • infecção urinária recorrente em qualquer idade;
  • presença de sinais de acometimento renal.

Tratamento: qual o melhor remédio para infecção urinária

As infecções urinárias baixas e não complicadas são geralmente tratadas em casa com antibióticos orais, exceto nos seguintes casos:

  • criança que apresenta febre alta e persistente ou sinais de toxemia (cianose, prostração, fraqueza intensa);
  • sinais de obstrução urinária;
  • doença crônica de base;
  • impossibilidade de hidratação e antibioticoterapia orais;
  • bebês abaixo de 2 meses de idade que apresentam infecção urinária.

As infecções renais (pielonefrites) exigem que a criança seja internada para hidratação e antibioticoterapia intravenosa.

Cuidados para evitar a infecção urinária na infância

A principal medida na prevenção da infecção urinária é a atenção dos pais à rotina dos filhos, para que comportamentos inadequados possam ser corrigidos rapidamente. Pontos importantes:

  • uma criança deve urinar de 3 em 3 horas;
  • o intestino preso deve ser tratado com medidas alimentares e outros tratamentos, quando necessário;
  • é importante que a criança tenha um apoio para os pés ao sentar no vaso sanitário. A posição agachada ajuda a esvaziar totalmente a bexiga e o intestino;
  • em passeios, sempre tenha em mãos um protetor descartável de vaso sanitário para usar em banheiros públicos.

Esse foi um texto longo e complexo, porém muito importante. Para nós, nefrologistas pediátricos, receber uma criança com doença renal crônica avançada e saber que esse quadro, tão triste, poderia ter sido evitado é muito doloroso. Deixo aqui meu apelo aos pais: eduquem-se, conversem com o pediatra, se preocupem com a prevenção de doenças. Essa é a melhor forma de ter saúde!

Leia também:
Problemas nos rins: quais os sinais mais comuns?