Existe um futuro após o coronavírus?

calendário ao fundo e mão com luva segurando uma vacina para coronavirus

Um dos maiores desafios que existem para qualquer pessoa é lidar com a incerteza. As dúvidas quanto ao futuro angustiam, consomem e paralisam. Em tempos de pandemia do coronavírus, então, essa insegurança é mundial e ninguém, nem mesmo os maiores infectologistas, epidemiologistas ou economistas, são capazes de prever onde vamos parar.

O autor Joe Pinsker escreveu para o The Atlantic um texto muito realista, abordando possíveis cenários e desfechos para a crise nos Estados Unidos: “The four possible timelines for life returning to normal”. Fiquei tão fascinada pela seriedade e clareza nos argumentos dele que resolvi fazer uma adaptação para nós, no Brasil.

Em qualquer cenário, porém, uma coisa é certa: nossa vida já mudou, nunca mais será a mesma. Mesmo após a tempestade, quando tudo voltar ao normal, nós teremos mudado completamente e o mundo também. Tenho esperança de que a mudança seja para melhor…

Situação atual

O novo coronavírus fez o mundo parar: lojas fechadas, serviços interrompidos, congressos e reuniões canceladas. E as pessoas, literalmente, presas em suas casas questionando: “Quando as coisas voltarão ao normal?”.

A resposta é simples e terrível: quando 60 a 80% da população desenvolver imunidade contra o coronavírus. Somente nesse momento a transmissão será reduzida o suficiente para que as pessoas possam, com segurança, retomar as suas vidas.

O problema é que ninguém sabe em quanto tempo isso vai acontecer…

Para atingir esse nível de imunidade, existem dois caminhos:

  • uma vacina que imunize toda a população;
  • a doença seguir seu curso, infectando as pessoas e deixando-as imunes, porém com muitas mortes pelo caminho.

Infelizmente, os dois desfechos podem levar meses ou anos para acontecer…

No momento, a opção é o isolamento social, que reduz a transmissão do vírus e, consequentemente, o número de doentes, evitando (espera-se) a total falência do sistema de saúde.

Por enquanto, é mais seguro ficar em casa. Nas próximas 8 a 12 semanas, teremos acesso a análises e informações que podem mudar o curso dessa história. Porém, interromper o isolamento precocemente pode ter consequências graves.

E quais são os possíveis cenários para o futuro?

Cenário 1: um a dois meses

Para que essa crise se resolva em um ou dois meses, o que é muito improvável, precisaríamos das seguintes situações:

  • A COVID-19 se mostrar menos grave do que o esperado: nesse cenário, a maioria das pessoas infectadas apresentaria um quadro leve e desenvolveria imunidade. Infelizmente, isso não é o que estamos observando no restante do mundo.
  • O isolamento social não for cumprido e a doença se alastrar: nesse caso, o número de doentes seria enorme e o sistema de saúde não teria capacidade de se adequar, resultando em muitas mortes. Após uma catástrofe como essa, as pessoas infectadas que sobreviverem teriam imunidade, interrompendo a transmissão.

Cenário 2: três a quatro meses

Nesse cenário, os primeiros meses são de aprendizado intenso sobre o coronavírus, a COVID-19 e a imunidade da população. Para este, seria necessário:

  • Testar a população para a presença do vírus e de anticorpos: a análise dos testes para coronavírus, realizados nas pessoas sintomáticas e assintomáticas, possibilita isolar os pacientes contagiosos e vulneráveis, enquanto o restante da população retorna à rotina. Em um país enorme como o Brasil, com 200 milhões de habitantes, seriam necessários mais de 500 milhões de testes. Isso ocorre porque as pessoas têm que ser testadas mais de uma vez, devido ao período de incubação do vírus.
    À medida que um maior número de testes é realizado em vários países, aprenderemos mais sobre o comportamento do vírus e a sua transmissão. Dependendo dos resultados, pode-se concluir que é seguro abrir restaurantes e pequenos negócios, por exemplo, porém mantendo eventos com grande número de pessoas e locais em que ocorram aglomerações fechados.
  • Identificar um tratamento para a COVID-19: em 3 a 4 meses, os cientistas teriam descoberto um tratamento para a doença que melhore a gravidade dos sintomas e evite as mortes. Isso não eliminaria a necessidade de isolamento social, porque grandes surtos localizados ainda ocorreriam, mas pelo menos diminuiria o impacto no sistema de saúde.

Cenário 3: quatro a doze meses

Uma das questões não respondidas sobre o coronavírus é sua relação com o clima local. Alguns cientistas acreditam que temperaturas mais altas e maior incidência de radiação ultravioleta são condições pouco amigáveis para o vírus.

Nesse caso, o Brasil, como um país tropical, teria uma taxa menor de transmissão. Infelizmente, o verão está acabando e temperaturas mais amenas, especialmente em um clima seco, são favoráveis aos vírus respiratórios.

Mesmo se a transmissão for mais lenta aqui nos primeiros meses da pandemia, provavelmente se intensificará durante o outono e o inverno, prolongando o período necessário de isolamento.

Cenário 4: doze a dezoito meses

Cientistas de todo o mundo estão trabalhando freneticamente para desenvolver a vacina para a COVID-19. A previsão mais otimista é de que ela estará disponível daqui a 12 meses, em abril de 2021. Além disso, o processo de produção e vacinação de toda a população pode levar entre 3 a 6 meses.

Mesmo que a vacina não seja descoberta, 12 a 18 meses seria o tempo necessário para que a maior parte da população mundial fosse naturalmente imunizada contra o coronavírus. Nesse caso, o vírus continuaria circulando e infectando as pessoas, como faz o influenza. Apesar de não ser o ideal, a vida poderia voltar ao normal nesse cenário.

Enfim…

Longe de fazer especulações vagas e tentar adivinhar o futuro, esse texto procura traçar cenários possíveis para o futuro. Não é possível, infelizmente, por um fim às dúvidas e incertezas.

Porém, uma coisa é certa: até sabermos mais sobre o coronavírus, o isolamento social é a única forma de reduzir a mortalidade pela COVID-19 e por todas as outras doenças que resultarão em óbitos por falta de atendimento em um sistema de saúde sobrecarregado.

 

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Infectologia

Médica oftalmologista e idealizadora do Convite à Saúde. Atualmente atende na Clínica Advision, nas especialidades de plástica ocular e cirurgia de catarata. Paralelamente, escreve e coordena o departamento de redação do portal, além de prestar consultoria na área de auditoria médica.

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