Imagem de capa de um texto sobre autismo da editoria conversa com o especialista. No canto inferior, foto da neurologista pediátrica Luciana Rocha e, ao centro, imagem de um menino autista.

Dra. Luciana Rocha

O que é autismo?

O autismo é definido como um distúrbio complexo do neurodesenvolvimento, com amplo espectro de manifestações clínicas. É caracterizado por prejuízos na interação social (tanto comunicação verbal, quanto não verbal) e por apresentar padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades.

Qual a causa do autismo?

Não se sabe completamente o que causa o autismo. Há evidências de predisposição genética e está em estudo o papel de infecções durante a gravidez.

Quais os sinais de autismo?

Os primeiros sinais que devem ser observados são:

  • A criança tem dificuldade na interação social: não olha nos olhos, não gosta de contato físico e prefere brincar sozinha;
  • A criança tem comportamentos inadequados em algumas situações;
  • Repete sempre as mesmas brincadeiras e brinca de forma pouco funcional;
  • A criança tem dificuldade para se comunicar verbalmente;
  • Apresenta comportamentos estranhos como: medo excessivo, agitação com mudanças na rotina, ficar parada com o olhar fixo, balançar-se para a frente e para trás ou se fixar em objetos.

Como diagnosticar autismo?

O autismo pode ser detectado muito cedo, até antes dos 18 meses de idade. Aos dois anos, a maioria dos casos pode ser corretamente diagnosticada por um especialista.

Quando uma criança é encaminhada para avaliação com o neuropediatra, testes de triagem serão utilizados para avaliar o desenvolvimento cognitivo, linguagem e habilidades.

As principais ferramentas utilizadas são:

  • M-CHAT R/F (Modified Checklist for Autism in toddlers): utilizado para crianças de 16 a 30 meses de idade, esse teste consiste em um questionário que identifica comportamentos típicos do autismo.
  • STAT (Screening Tool for Autism in Toddlers and Young Children): utilizado entre os 24 e 36 meses, esse questionário tem 12 perguntas que avaliam comportamento social e comunicação.
  • ADOS-2 (Autism Diagnostic Observation Schedule ): utilizado a partir de 12 meses até a idade adulta, esse protocolo consiste em uma série de tarefas que demandam uma interação entre a criança e o examinador. A análise quantitativa do resultado determina ou não o diagnóstico de autismo.
  • CSBS (Communication and Symbolic Behavior Scales): utilizado em crianças de 6 a 24 meses para avaliar a capacidade de comunicação.
  • ADI-R (Autism Diagnostic Interview): ferramenta complementar no diagnóstico, utilizada em conjunto com outros testes. O questionário, nesse caso, é respondido pelos pais e/ou cuidadores e avalia o desenvolvimento da criança.

Quais são as dificuldades de comunicação no autismo?

  • A criança sabe falar, mas prefere ficar calada por horas, mesmo quando fazem perguntas a ela;
  • A criança refere a si mesma com a palavra “você”, falando na terceira pessoa;
  • Repete a pergunta que lhe foi feita várias vezes seguidas, sem se importar em estar chateando os outros;
  • Mantém sempre a mesma expressão no rosto e não entende gestos e expressões faciais dos outros;
  • Não atende quando é chamada pelo nome, como se não estivesse ouvindo nada, apesar de não ser surda e de não ter nenhum comprometimento auditivo;
  • Olha com o canto do olho quando se sente desconfortável;
  • Quando fala, a comunicação é monótona e em tom pedante.

Quais são as dificuldades de interação social no autismo?

A criança:

  • Não olha nos olhos dos outros mesmo quando alguém fala com ela, estando bem próximo;
  • Tem comportamentos inadequados, rindo ou gargalhando fora de hora, durante velórios, cerimônias de casamento ou batizados, por exemplo;
  • Não gosta de carinho ou afeto e, por isso, não se deixa abraçar ou beijar;
  • Tem dificuldade em relacionar-se com outras crianças e, por isso, prefere ficar sozinha;
  • Repete sempre as mesmas atividades e brinca sempre com os mesmos brinquedos.

Quais são as alterações comportamentais no autismo?

  • A criança não tem medo de situações perigosas, como atravessar a rua sem olhar para os carros e chegar muito perto de animais possivelmente agressivos, como cães grandes;
  • Tem brincadeiras estranhas, dando funções diferentes aos brinquedos que possui;
  • Brinca somente com parte de um brinquedo, como a roda do carrinho, por exemplo;
  • Parece não sentir dor e até mesmo gostar de se machucar, ou de machucar os outros de propósito;
  • Leva o braço de outra pessoa para pegar o objeto que ela deseja;
  • Olha sempre na mesma direção como se estivesse parada no tempo;
  • Fica se balançando para frente e para trás por vários minutos ou horas, ou torce as mãos e dedos constantemente;
  • Tem dificuldade em se adaptar a uma nova rotina, ficando agitada e podendo se auto agredir, ou ainda agredir os outros;
  • Ficar passando a mão em objetos, ou tem fixação por água;
  • Fica extremamente agitada quando está em público, ou em ambientes barulhentos.

O autismo tem cura?

Infelizmente, o autismo não tem cura. Porém, o tratamento iniciado precocemente, antes dos 3 anos, pode ajudar a criança a atingir todo o seu potencial.

As terapias podem ajudar a criança a se comunicar melhor, ser mais sociável, controlar os comportamentos repetitivos e inadequados, melhorar o aprendizado e a qualidade de vida.

Quem pode tratar pessoas com autismo?

O plano de tratamento é elaborado de acordo com as necessidades de cada paciente e sua faixa etária. A intervenção envolve uma equipe multidisciplinar:

  • Neuropediatra;
  • Pediatra;
  • Fonoaudióloga;
  • Terapeuta ocupacional;
  • Psicóloga.

Como é o tratamento de crianças com autismo?

O planejamento do tratamento depende das necessidades de cada paciente e geralmente envolve vários profissionais: médico, fonoaudiólogo, psicólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta e psicopedagogo.

O apoio da família e da escola na manutenção diária das recomendações profissionais contribui muito para a melhora das capacidades da criança, podendo inclusive ser treinados como assistentes terapêuticos.

Por fim, reconhecer sinais de alerta, procurar ajuda profissional especializada em caso de qualquer suspeita e avaliar o tratamento multidisciplinar são fundamentais para garantir uma melhor evolução das crianças com autismo.

Alguns tratamentos com resultados comprovados são:

  • Terapia fonoaudiologia;
  • Terapia ocupacional;
  • Psicologia;
  • Intervenções educacionais.

Como interagir com pessoas com autismo?

A conversa pode fluir mais se for relacionada a assuntos de interesse da pessoa com autismo, além disso as conexões são formadas por pessoas com quem se tem confiança. A interação vai variar de acordo com o espectro do paciente. Especialistas vão indicar quais as formas mais adequadas para cada caso.

O autismo está mais sujeito em homens ou em mulheres?

Pessoas de ambos os sexos podem ter autismo, mas os homens têm mais chances de apresentar o distúrbio, por serem mais vulneráveis a desordens neurológicas.

Quais são os tratamentos para autismo sem comprovação científica?

Os pais de uma criança com autismo estão dispostos a fazer todo o possível para ajudar o seu filho. Porém, na busca de um tratamento “milagroso”, algumas vezes eles optam por alternativas caras, ineficazes e sem nenhuma comprovação científica.

Alguns exemplos de tratamentos que não contam com comprovação científica:

  • Quelação: uso de substâncias quelantes para retirar metais pesados como chumbo e mercúrio do organismo. Não existem evidências de que pacientes com autismo tenham maior concentração desses metais no sangue. Além disso, inúmeros trabalhos demonstraram que não há associação entre mercúrio (ou o timerosol presente nas vacinas) e o autismo.
  • Oxigenoterapia hiperbárica: não existem evidências de que existe uma falta de oxigênio no cérebro de crianças com TEA, nem que a terapia hiperbárica com oxigênio seja eficaz para seu tratamento.
  • Dieta sem glúten e sem caseína: a eliminação do glúten (presente no trigo) e da caseína (presente no leite) da dieta se baseia na hipótese de que as crianças com TEA têm um intestino permeável que permite a passagem de partículas resultantes da digestão desses elementos que têm ação no sistema nervoso central. Não existe comprovação dessa teoria e esse tipo de dieta compromete a ingestão de cálcio da criança. Porém, é importante lembrar que crianças com TEA podem ter alergias alimentares como qualquer criança.
  • Acetato de leuprorrelina (Lupron®): medicamento bloqueador da testosterona utilizado para tratar a puberdade precoce e o câncer de próstata. Sua indicação no autismo se baseia na hipótese de que a testosterona potencia os efeitos tóxicos do mercúrio. Não existem evidências que comprovem a sua eficácia ou segurança no tratamento do autismo.
  • Imunoglobulina G intravenosa: utilizada no tratamento de pacientes com leucemia e SIDA pediátrica. Poucos estudos testaram sua utilização em crianças com TEA e eles não comprovaram benefícios.
  • Suplementos: vitamina B6, magnésio, dimetilglicina, trimetilglicina e vitamina A são utilizados frequentemente para tratar pacientes autistas. Não existem dados que comprovem essa indicação e algumas vitaminas, usadas em excesso, podem ser perigosas.
  • Secretina injetável: a secretina é um hormônio que participa do processo de digestão e é utilizada para tratar doenças gastrointestinais como úlceras e insuficiência pancreática. Vários estudos mostram que essa terapia não é eficaz no autismo.
  • Oxitocina intranasal: nos últimos anos surgiram vários estudos sobre o uso da oxitocina intranasal no TEA, porém nenhum conseguiu mostrar resultados conclusivos para sua recomendação.
  • Injeção de células – tronco: não existem evidências sobre a eficácia desse tratamento, proibido nos Estados Unidos, para pacientes com TEA. Existem questionamentos sobre a origem destas células-tronco, se são humanas ou animais.
  • Canabinoides: estão sendo investigados para tratamento da epilepsia, porém não existem dados que justifiquem seu uso no autismo.
  • Estimulação magnética transcraniana: procedimento em que campos magnéticos são aplicados para estimular o cérebro. Não existem evidências da sua eficácia no tratamento do autismo.
  • Treinamento de integração auditiva (AIT): nessa terapia, o paciente é exposto, em várias sessões, a músicas filtradas e moduladas. A hipótese é que essa terapia consiga modificar o processamento auditivo no nível central, impactando a linguagem e o comportamento. Apesar de existirem alguns trabalhos sobre a terapia, ela ainda é considerada experimental, pois os resultados até o momento não conseguiram demonstrar claramente a sua eficácia.
  • Terapia do holding: proposta como tratamento para diversos problemas, incluindo o autismo, essa terapia se baseia na teoria de que existe uma falta de ligação entre a mãe e a criança. Durante as sessões, a mãe ou terapeuta deve abraçar forçosamente a criança por um determinado tempo, até que ela se renda ou a olhe nos olhos. Baseada em uma teoria fraca, não existe comprovação científica para esse método.
  • Comunicação facilitada: utiliza um teclado para ajudar o paciente com TEA a se comunicar. Existem vários trabalhos mostrando que essa terapia não tem resultados no autismo.
  • Equoterapia: sua utilização no TEA busca melhorar a habilidade motora e a comunicação. Todos os estudos que descrevem seu uso são descritivos e sem resultados bem definidos, por isso ainda é considerada como sem evidências científicas comprovadas para o autismo.
  • Musicoterapia: empregada com o objetivo de melhorar a comunicação e a interação social dos pacientes com TEA. Os estudos publicados não concluíram se os efeitos positivos são reais e/ou duradouros.

Saiba mais sobre autismo:

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