Mulher olhado pra frente com a mão no cabelo e um ícone escrito entrevista

Dra Marta Carrijo

A menopausa é uma fase do ciclo de vida feminino que pode causar desconfortos para a mulher como ondas de calor, fogachos entre outros. Nessa fase, o corpo da mulher, que durante décadas foi submetido ao efeito do estrogênio, passou a ser gradativamente privado desse hormônio. O corpo sente esse processo.

Quando acompanhado de perto por um médico ginecologista, no entanto, este período pode ser vivido de forma saudável e serena. Quem fala sobre o assunto é a médica Marta Carrijo que, em sua vasta e rica experiência clínica, pratica a Ginecologia integrada à Psicologia.

Convite à saúde: O que é a menopausa?

Dra. Marta: É a interrupção natural e espontânea da função ovariana. Nós, mulheres, nascemos com uma capacidade ovariana estabelecida até algumas poucas semanas antes do final da gestação. A partir daí, nossos ovários entram em repouso e vão ser ativados, aproximadamente, dois ou três anos antes da primeira menstruação.

Depois, eles começam a gastar esta reserva que trazem da vida intrauterina, mensalmente, independentemente do uso de anticoncepcional. Isto porque nascemos com nossa capacidade ovariana já pré-determinada. Por volta de 50 a 52 anos – a média da mulher brasileira é por volta de 50 anos -, ela entra neste quadro de falência ovariana.

A partir do momento que os ovários não produzem mais estrogênio, há uma cessão da produção de estrogênio e progesterona, suspendendo a menstruação. A menopausa, por definição, é esta parada total e irreversível da capacidade da mulher de menstruar.

Convite à saúde: O que é o período pré-menopausa?

Dra.Marta: Pré-menopausa, ou climatério, é o período que dura de dois a quatro anos, quando há falência na produção de estrogênio e progesterona.

Os ovários produzem, basicamente, três hormônios: estrogênio, progesterona e testosterona. Este último é um ‘hormônio masculino’ e a sua produção, por se manter estável ao longo da vida da mulher, não sofre impacto com a menopausa. No climatério, os ovários demonstram a falência em sua potencialidade de produzir hormônios. A primeira que diminui e falha é a progesterona.

É comum que a mulher, por volta dos 45 – 47 anos, comece a se queixar da sua menstruação que, antes sempre regular, começou a se atrasar ou adiantar. Essa é a manifestação clínica de deficiência na produção da progesterona.

Convite à saúde: A reposição hormonal é indicada em quais situações?

Dra. Marta: A reposição hormonal continua indicada, mas para mulheres específicas. O que mudou nesta última década é que, antes, havia uma tendência em recomendar esse tratamento para a maioria das mulheres. Hoje não. Os critérios para indicar a terapia hormonal são os sintomas da mulher. Aproximadamente 30% vão entrar na menopausa, passar por esse processo de falência de produção hormonal pelos ovários com uma qualidade de vida boa, sem nenhum sintoma nem manifestações relevante.

Convite à saúde: E as outras mulheres que não estão nesse perfil?

Dra. Marta: Já 70% das mulheres vão apresentar algum sintoma. Os mais comuns e mais conhecidos são as ondas de calor e os fogachos noturnos, que se apresentam com um calor que se inicia de forma mais ou menos súbita no tórax e sobe para o pescoço, face e couro cabeludo, acompanhado de sudorese e até um mal-estar, sensação de aperto, falta de ar.

Quando essas ondas de calor acontecem à noite e interferem na qualidade do sono da paciente, chamamos esse episódio de fogacho noturno. Mulheres que têm estes sintomas costumam sofrer consequências como diminuição do humor, desânimo, falta de interesse pela vida e choro fácil. Estas pacientes têm, a grosso modo, indicação para terapia hormonal.

Convite à saúde: Como definir se a mulher fará ou não a terapia hormonal?

Dra. Marta: Eu falo para minhas pacientes que são três critérios: primeiro, identificar se ela tem indicação ou não, ou seja, se está nos 30% ou nos 70%. As 30%, que não têm sintoma nenhum, não vão precisar de terapia hormonal. Já as outras têm indicação.

O segundo passo é saber de cada uma delas, individualmente, se há contraindicações ao uso da terapia hormonal. As mais frequentes são câncer da mama, de fígado ou história pessoal de trombose. Estas são as contraindicações tidas como absolutas.

Por fim, cabe a elas decidir se querem fazer a terapia ou não.

Convite à saúde: É verdade ou mito que a mulher ganha peso quando entra na menopausa?

Dra. Marta: É verdade. O que faz a mulher ganhar peso é a mudança no metabolismo, não a terapia hormonal. Então, são indicadas qualidade na alimentação e prática de atividade física.

Convite à saúde: E a utilização de medicamentos fitoterápicos para amenizar os sintomas da menopausa, são recomendados?

Dra. Marta: A princípio, sim. Os estudos não mostram efeitos colaterais graves, mas também eles não têm a capacidade bioquímica de substituição do estrogênio.

As manifestações da menopausa são de curto, médio e longo prazos. As de curto prazo são as já citadas, ondas de calor, alteração do humor, irritabilidade. As de médio prazo seriam as mudanças na pele e cabelos que ficam mais secos, e na lubrificação da vagina. A longo prazo, principalmente a questão da osteoporose.

Os fitoterápicos têm certa ação para algumas mulheres nesses sintomas de curto prazo, principalmente nos fogachos e ondas de calor.

Convite à saúde: Há também as receitas caseiras para amenizar os sintomas, como chá de amora. Devem ser tomadas?

Dra. Marta: Pode tomar. Paciente que teve câncer de mama, porém, a gente não recomenda porque a estrutura molecular de algumas ervas presentes nestas substâncias, tanto os fitoterápicos quanto os medicamentos caseiros, enganam a célula humana, podendo ocupar alguns receptores celulares de estrogênio e, assim, levar ao alívio dos sintomas e, por isto, o efeito deles. Então, naquelas mulheres que tiverem câncer de mama, normalmente, a gente não recomenda.

Convite à saúde: Há alguma indicação relativa aos alimentos a serem ingeridos nesta fase da vida da mulher?

Dra. Marta: A alimentação deve ser diversificada e saudável. Eu costumo dizer que devemos sempre priorizar o sacolão em lugar do supermercado, no sentido de sempre se procurar produtos naturais, frescos e diversificados. Eu não costumo indicar um grupo alimentar específico e nem contra indicar nenhum grupo.

Já para uma paciente que tiver câncer de mama, alguns alimentos são tidos como contraindicados, mas não temos estudos científicos que respaldam essas restrições, que seriam amora, cará, canela e alimentos tidos como “quentes”. Eles, a princípio, teriam uma certa contraindicação.

Eu não costumo valorizar isto, pois acho que o mais importante é ter uma dieta diversificada, com proteína, carboidrato simples em menor quantidade, açúcar em mínima quantidade e mais frutas e legumes.

Convite à saúde: Se a mulher tem o hábito de fumar, isto interfere negativamente na fase do climatério e da menopausa?

Dra. Marta: O cigarro não tem relação direta com a menopausa e nem com a função ovariana. Ele tem com a saúde geral da mulher. A menopausa é o momento em que a mulher começa a prestar mais atenção ao corpo dela. Tem relação corporal mais intensa, então o cigarro entra como um dano, um malefício. Mas ele não interfere na evolução do processo, nas manifestações da menopausa.

Convite à saúde: É mito ou verdade que a menopausa diminui a libido e o interesse da mulher por sexo?

Dra. Marta: A menopausa pode afetar a vida sexual da mulher. Interessante que pode tanto melhorar quanto piorar. A resposta sexual humana é absolutamente pessoal, tem todo um mecanismo hormonal, uma resposta fisiológica, mas o principal comando é o cérebro. Quem manda é o cérebro.

Por um lado, a baixa dos níveis de estrogênio pode repercutir como diminuição da libido. Já algumas mulheres que tiveram uma história sexual mais desfavorável vão se beneficiar com a menopausa, desse efeito da testosterona que não vai ter mais a inibição do estrogênio e da progesterona. Elas percebem uma melhora na libido.

Então é muito individual. De qualquer forma, os próprios efeitos da baixa de estrogênio (que está relacionado à lubrificação vaginal, à elasticidade pélvica, à produção de colágeno), às condições locais da vulva e da vagina podem dificultar a atividade sexual.

Convite à saúde: Quais conselhos a senhora gostaria de transmitir às mulheres que estão no climatério ou já entraram na menopausa?

Dra. Marta:

  • Respeitar o processo fisiológico natural;
  • ter muita tolerância consigo mesma;
  • praticar atividade física, aquela que ela conseguir fazer. As mulheres que estão vivendo esta etapa da vida formam um grupo que tem muita dificuldade de fazer atividade física. Então, qualquer atividade que fizer como caminhada, pilates, hidroginástica, natação, não importa, ela terá ganho. O importante é ela fazer uma média de 30 minutos de atividade física, no mínimo, quatro vezes por semana;
  • ter acompanhamento ginecológico para que ela tenha tranquilidade e possa se beneficiar dos recursos que a Medicina tem, como a terapia hormonal;
  • buscar qualidade na alimentação diária;
  • entender que o processo seja mais uma vivência dentre tantas que a mulher já viveu como a adolescência, quando perdeu um corpo infantil e ganhou um corpo de adulta etc. Agora, ela está perdendo o corpo de adulta para ganhar o corpo da maturidade, e depois da velhice.

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