Hidroxicloroquina: cuidados para proteger a visão durante o seu uso

Mulher olhando para um comprimido de hidroxicloroquina

Muito tem se falado sobre a cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus. Durante os primeiros meses de 2020, ela foi usada no mundo todo tanto para prevenir quanto para tratar os pacientes com COVID-19, muitas vezes sem prescrição médica.
Porém, vários estudos internacionais publicados no fim do primeiro semestre demonstraram que a cloroquina não previne e nem mesmo é capaz de tratar essa infecção. Para se ter ideia, os grupos de pacientes que usaram o medicamento tiveram vários efeitos colaterais como, por exemplo, dor abdominal, diarreia e vômitos, e nenhuma diferença no resultado do tratamento em relação aos grupos controle.
Mesmo assim, várias pessoas, apavoradas, insistem em usar a cloroquina e a hidroxicloroquina, muitas vezes em altas doses e sem controle médico. Pensando nisso, o texto de hoje é um alerta sobre as possíveis consequências do uso prolongado dessas drogas na visão.

Cloroquina e hidroxicloroquina

A cloroquina e sua derivada, a hidroxicloroquina, são medicamentos usados no tratamento e na profilaxia da malária e da amebíase extra-intestinal. Como tem um efeito supressor leve do sistema imune, o medicamento também é empregado em pacientes com doenças autoimunes como a artrite reumatoide e o lúpus eritematoso sistêmico.
No início da pandemia do novo coronavírus, a hidroxicloroquina foi uma das drogas testadas, com resultados variados. Em alguns trabalhos, mostrou redução do tempo de sintomas e, em outros, não teve efeito algum.
O maior trabalho do mundo sobre COVID-19 (Recovery trial run, Oxford University, UK), envolvendo mais de 11 mil pacientes, testou a eficácia da hidroxicloroquina e concluiu que ela não tem benefícios no tratamento de pacientes hospitalizados com a doença.
Estudos sobre seu uso na prevenção da COVID 19 ainda estão em andamento.

Efeitos colaterais

Cloroquina e hidroxicloroquina podem provocar vários efeitos adversos como:

  • náuseas e vômitos;
  • diarreia;
  • tinnitus (zumbido);
  • tonteira;
  • doe de cabeça;
  • surdez;
  • danos irreversíveis à retina;
  • fotossensibilidade;
  • prurido;
  • convulsões;
  • ansiedade e depressão;
  • insônia;
  • confusão;
  • alucinações;
  • reações alérgicas;
  • danos musculares;
  • hepatite.

Obs: esses medicamentos podem precipitar crises em pacientes com psoríase.

Efeitos adversos nos olhos e consequências para a visão

A cloroquina e a hidroxicloroquina podem causar as seguintes alterações nos olhos:

  • depósitos na córnea (córnea verticilata);
  • catarata;
  • alterações na retina.

Entre as alterações oculares causadas por esses medicamentos, a mais temida é a retinopatia, pois pode causar perda irreversível da visão. Sua ocorrência está diretamente relacionada ao tempo de uso do medicamento, que se acumula no organismo, mas também à dose.
Na dose usual de 400 mg por dia, a chance de alterações na retina aumenta após 5 anos de uso. Doses mais altas, acima das recomendadas, podem provocar as alterações mais precocemente.

Fatores de risco para a retinopatia

Alguns pacientes têm maior risco de desenvolver as alterações retinianas pela cloroquina, como os que apresentam:

  • baixa estatura;
  • obesidade
  • doença do fígado ou rim;
  • outras doenças da retina.

E por fim: prevenção da retinopatia por cloroquina

Os pacientes que irão iniciar o uso da hidroxicloroquina devem ser submetidos a um exame oftalmológico completo para afastar problemas na visão e, principalmente, alterações na retina. Alguns exames complementares podem ser indicados nesse momento, como um campo visual central e OCT de mácula.
O controle desses pacientes deve ser feito anualmente com fundoscopia, OCT e campo visual. Quando alterações são detectadas, um eletrorretinograma pode ser indicado.
O objetivo dos controles é detectar sinais de retinopatia enquanto o paciente ainda é assintomático. Dessa forma, é possível que as alterações sejam ainda reversíveis com a suspensa da droga.

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Oftalmologia

Oftalmologista, especializado em cirurgia de catarata, retina e vítreo. Membro do corpo clínico do CMH Medicina hospitalar.

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