Mão segurando um prato com pães no primeiro plano e, no segundo plano, uma mulher desfocada recusa a comida por ter doença celíaca

Magno Veras

A doença celíaca é o aspecto mais comum de apresentação da intolerância permanente ao glúten.

Essa “intolerância” é definida como uma sensibilidade exagerada do sistema imunológico ao glúten. Ela pode se expressar em diferentes níveis: no intestino, na pele, na mucosa da boca, nas articulações, nos rins e até no sistema nervoso. Ou seja, pode causar sintomas em vários locais do nosso corpo e, por isso, é considerada uma doença sistêmica de origem genética.

Ao longo do tempo, a reação imunológica (reação de defesa) à ingestão de glúten cria principalmente uma inflamação que danifica o revestimento do intestino delgado (parte do intestino onde ocorre a maior parte da absorção dos nutrientes), impedindo a absorção de nutrientes que podem causar complicações diversas.

O sintoma clássico é a diarreia, mas existem muitos outros que veremos adiante.

Mas afinal, o que é esse tal de GLÚTEN?

O glúten é um composto de proteínas de armazenamento denominadas prolaminas e glutelinas, que se unem com o amido das sementes de vários cereais como o trigo, a cevada, o triticale e o centeio.

Espécies da tribo Aveneae como a aveia, por exemplo, não contém glúten, mas normalmente são processadas em fábricas e moinhos que também processam cereais que possuem essa substância, causando assim a contaminação da aveia pelos resíduos de glúten.

Na verdade, o fator prejudicial e tóxico ao intestino do paciente intolerante ao glúten está em algumas “partes do glúten” que recebem nomes diferentes para cada cereal.

Vejamos: no trigo a gliadina, na cevada a hordeína, no centeio a secalina. O malte é um produto da fermentação da cevada, portanto, também possui uma fração de glúten.

Os produtos que contenham malte, xarope de malte ou extrato de malte não devem ser consumidos pelos celíacos. O glúten não desaparece quando os alimentos são assados ou cozidos.

Na prática, o que contém glúten?

Os derivados de trigo, cevada, centeio, triticale e aveia (por contaminação). Inclui-se, também, os derivados de fabricação caseira ou industrial como, por exemplo: pães, massas alimentícias (macarrão), biscoitos, bolos, bolachas, salgadinhos, barras de cereais, quibe, pizzas, coxinhas, molhos brancos, granola, empanados, farinha de rosca, cerveja, whisky e vodka de cereais.

Os portadores de doença celíaca não devem consumir nem mesmo carnes e legumes empanados em farinha de trigo, ou alimentos produzidas em óleo de fritura onde tenha sido imerso outro alimentos contendo farinha de trigo.

Como a doença celíaca é permanente, seus portadores devem adotar uma alimentação sem glúten que, geralmente, precisa ser seguida por toda a vida.

Sintomas possíveis

  • Diarréia;
  • náuseas;
  • queda de cabelo;
  • gases;
  • emagrecimento;
  • constipação;
  • atraso no crescimento;
  • distensão abdominal;
  • dor abdominal;
  • aftas de repetição;
  • anemia;
  • alterações de humor: irritabilidade ou desânimo;
  • enxaqueca;
  • osteoporose;
  • esterelidade;
  • abortos de repetição;
  • dermatite herpetiforme (pequenas feridas ou bolhas na pele que coçam de forma simétrica, aparecendo principalmente nos ombros, nádegas, cotovelos e joelhos).

Formas da doença:

Clássica

Surge frequentemente entre 1 e 3 anos de idade ao introduzirmos alimentação a base de macarrão, pão e outros cereais. Caracteriza-se por diarreia crônica (passa de 30 dias), perda de peso, distensão abdominal e apatia. Pode acontecer em adultos também.

Forma não clássica (atípica)

Apresenta poucas manifestações. Existe a forma digestiva e a extradigestiva.

As alterações digestivas não chamam tanto a atenção. Podem ser, por exemplo, anemia resistente ao tratamento, irritabilidade, fadiga, baixo ganho de peso e estatura, prisão de ventre, manchas e alteração do esmalte dental, esterilidade e osteoporose antes da menopausa.

Forma assintomática

Encontrado frequentemente entre familiares de celíacos. Se alguém da família tem doença celíaca é indicado testar os parentes de primeiro grau (10% pode ter alteração). Neste caso, alguns indivíduos, mesmo que sem sintomas aparentes, podem se sentir melhores com a exclusão do glúten.

Forma latente

Pessoas que não possuem a doença naquele momento, mas podem vir a desenvolver a intolerância ao glúten.

Um pouco sobre a história da doença celíaca!

Em 1888, Samuel Gee, um médico e pediatra inglês, descreveu em detalhes a doença, achando que as farinhas poderiam ser as causadoras.

Gee designou-a por “afecção celíaca”. Aproveitando o termo grego “Aretaeus da Capadócia”, descreveu doentes com um determinado tipo de diarreia usando a palavra ‘Koiliakos’ (aqueles que sofrem do intestino).

A Guerra ajudou na descoberta

Durante a 2ª Guerra Mundial, o racionamento de alimentos impostos pela ocupação alemã reduziu drasticamente o fornecimento de pão na população holandesa. Em 1950, o Prof. Dicke, pediatra holandês de Utrech, verificou que as crianças com “afecção celíaca” melhoraram da sua doença apesar da grave carência de alimentos. Associou, então, este fato ao baixo consumo da dieta em cereais.

Charlotte Anderson, de Birmingham, demonstrou mais tarde, por meio de trabalhos de laboratório, que o trigo e o centeio continham a substância que provoca a doença: o glúten.

J.W.Paulley, médico inglês, observara entretanto, num “celíaco operado”, que a sua mucosa intestinal não tinha o aspecto habitual. Este fato, extremamente importante e confirmado por outros pesquisadores, passou a permitir um diagnóstico com bases mais seguras.

Como a doença celíaca é diagnosticada?

1. Exames de sangue

Os melhores exames são os chamados sorologias (exames de sangue). Entre eles, os dois principais são:

  • Anticorpo anti-endomísio IgA: correlacionam-se com a gravidade da lesão na mucosa.
  • Anticorpo anti-transglutaminase IgA: muito sensível no diagnóstico.

Obs: O IgA sérica (anticorpo A) deve ser sempre pedido junto, pois 10% dos pacientes pode não ter esse anticorpo, o que influencia na interpretação dos resultados das sorologias.

2. Endoscopia com biópsia de duodeno

A não ser que as manifestações clínicas e a sorologia não deixem dúvidas, ela precisa ser realizada.

E o exame genético, funciona?

A predisposição genética é bem conhecida na doença celíaca. 90% das pessoas com essa condição possuem uma alteração genética detectável (a maioria possui a chamada HLA -DQ2, e 5% possuem HLA DQ8).

Quando o exame é negativo, significa que é provável que não haja intolerância ao glúten. Porém, cerca de 10% das pessoas com a doença celíaca não possuem estes marcadores.

Qual é o tratamento?

Uma vez confirmada a doença celíaca, uma dieta sem glúten deverá se manter por toda a vida. O tratamento, portanto, é nutricional e dietético, com exclusão definitiva de glúten do trigo, centeio, cevada e aveia.

Medicamentos são utilizados apenas para correção de carências (vitaminas, sais minerais e proteínas) ou como coadjuvantes para facilitar a digestão das gorduras (enzimas pancreáticas).
No início do quadro, talvez seja necessária a exclusão da lactose da dieta (pois quando ocorre inflamação intestinal, muitas vezes perdemos a capacidade de digerir a lactose).

Podem ser usados como substitutos do glúten:

  • fubá;
  • amido de milho;
  • creme de arroz;
  • fécula de batata;
  • araruta;
  • polvilho;
  • farinhas de mandioca e de milho;
  • trigo sarraceno.

Atenção:

  • utensílios utilizados para o preparo da refeição de uma pessoa celíaca não podem ser os mesmos usados na preparação de alimentos com glúten.
  • Cuidado com alimentos industrializados, visto que o trigo é muito usado como ingrediente ou espessante. São alguns exemplos: cafés instantâneos, pós achocolatados, enlatados, cereais pré-cozidos, maionese pronta, molhos de tomate, mostarda, salsichas, salames, sopas enlatadas ou desidratadas, chicletes, sorvetes, cerveja etc.
  • Deve-se ensinar à pessoa que faz as compras a se habituar à leitura dos ingredientes estampados nas embalagens e evitar os que tenham os cereais proibidos. Algumas firmas de alimentos fornecem, a pedido do usuário, uma lista dos produtos que são isentos de glúten para facilitar a escolha. É lei federal que haja menção se o produto CONTÉM GLÚTEN ou NÃO CONTÉM GLÚTEN. Em alguns países, inclusive, há um símbolo característico.
  • Sabe-se que pequenas quantidades de glúten ingeridas depois que a pessoa já melhorou (fase de manutenção) podem não dar sintomas, o que faz com que o paciente não se sinta prejudicado e que a família faça concessões. No entanto, caso essa ingesta persista, há um período mais ou menos longo onde pode haver retorno da doença, com ou sem sintomas e com prejuízos que, às vezes, são silenciosos. Por exemplo: pode haver atraso no desenvolvimento sexual, quando as transgressões na dieta antecedem a puberdade, ou risco de câncer intestinal no futuro.

Quais são os alimentos permitidos para quem tem a doença celíaca?

  • Cereais: arroz, milho.
  • Farinhas: mandioca, arroz, milho, fubá, féculas.
  • Gorduras: óleos, margarinas.
  • Frutas: todas, ao natural e sucos.
  • Laticínios: leite, manteiga, queijos e derivados.
  • Hortaliças e leguminosas: folhas, cenoura, tomate, vagem, feijão, soja, grão de bico, ervilha, lentilha, cará, inhame, batata, mandioca e outros).
  • Carnes e ovos: aves, suínos, bovinos, caprinos, miúdos, peixes, frutos do mar.

Quem possui intolerância ao glúten corre o risco de ter outras doenças?

Sim, existe a chance de surgirem outras doenças auto-imunes como, por exemplo: diabetes mellitus tipo I, hipotireoidismo e artrite reumatoide. Por isso, o acompanhamento médico durante todo o tratamento é extremamente necessário.

Aos pacientes celíacos: atenção!

  • Qualquer quantidade de glúten, por mínima que seja, é prejudicial para o celíaco;
  • leia com atenção todos os rótulos ou embalagens de produtos industrializados e, em caso de dúvidas, consulte o fabricante;
  • não use óleos onde foram fritos empanados com farinha de trigo ou farinha de rosca (feita de pão torrado);
  • não engrosse pudins, cremes ou molhos com farinha de trigo;
  • tenha cuidado com temperos e amaciantes de carnes industrializados, pois muitos contém glúten;
  • não utilize as farinhas proibidas para polvilhar assadeiras ou formas.

Importante:

  • na escola, nunca separe a criança celíaca dos demais colegas na hora das refeições;
  • ainda na escola, deve-se ter cuidado até mesmo com materiais de arte como massinhas de modelar, por exemplo, que podem levar glúten.
  • o celíaco pode e deve fazer os mesmos exercícios que seus colegas;
  • existem celíacos que são diabéticos. Portanto, sua alimentação não deve conter glúten e nem açúcar;
  • existem celíacos que têm intolerância à lactose. Portanto, sua alimentação não deve conter glúten, nem leite de vaca e seus derivados.

O que é a Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca?

É uma síndrome caracterizada por sintomas intestinais e extraintestinais relacionados à ingestão de alimentos que contêm glúten em indivíduos não afetados por doença celíaca (DC), e nem por alergia ao trigo.

Evidências indiretas sugerem que a SGNC é mais comum que a DC. O diagnóstico da SGNC se baseia:

  • na exclusão da doença celíaca e da alergia ao trigo;
  • no estabelecimento de uma relação de causa e efeito clara entre a ingestão de glúten e o aparecimento dos sintomas.

E por fim: e sobre a sensibilidade ao glúten e o autismo? Existe alguma ligação?

Nos últimos anos, diversos estudos investigaram a relação entre a ingestão de alimentos que contêm glúten e o aparecimento de sintomas/distúrbios neurológicos e psiquiátricos, tais como ataxia, neuropatia periférica, esquizofrenia, autismo, depressão e ansiedade.

As pesquisas sobre os efeitos da dieta e da nutrição no transtorno do espectro autista (TEA) aumentaram nas últimas duas décadas, sobretudo em termos de sintomas de hiperatividade e atenção. Uma das intervenções mais populares em relação ao TEA é a dieta sem glúten e sem caseína (DSGSC).

Levantou-se a hipótese de que alguns sintomas podem ser causados por peptídeos opioides formados pela quebra incompleta de alimentos que contêm glúten e caseína. Suspeita-se de que, no TEA, o aumento da permeabilidade intestinal, também denominado de “síndrome do intestino permeável”, faça parte da cadeia de eventos que permitem que esses peptídeos atravessem a membrana intestinal, entrem na circulação sanguínea e cheguem ao cérebro, afetando o sistema nervoso.

A conexão entre intestino permeável e autismo alimenta um grande debate na comunidade científica que está longe de ser resolvido.

Apesar da popularidade, a eficácia da dieta sem glúten e caseína na melhora do comportamento autista ainda não foi comprovada. Parece que um certo subgrupo de crianças no TEA se beneficiam desta dieta.

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