Menino hiperativo com dificuldade alimentar proveniente do TDAH em cima de uma mesa repleta de alimentos saudáveis

Dra. Adriana Bonfioli

Um sintoma comum e pouco abordado do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é o seu impacto na alimentação infantil.

Para se ter ideia, estudos comprovam que crianças com TDAH possuem risco aumentado de desenvolver obesidade na vida adulta.

As dificuldades alimentares no Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)

A ligação entre o TDAH e os maus hábitos alimentares não é surpreendente. Afinal, ele é um distúrbio da função executiva da pessoa, que é um conjunto de habilidades cognitivas que atuam como gerentes do cérebro.

Essas funções executivas afetam quase todos os aspectos da vida, abrangendo nossa capacidade de auto-regulação, organização, foco, planejamento etc.

Sob esse aspecto, a alimentação é apenas uma das muitas facetas da vida que podem ser influenciadas pelo TDAH e passam despercebidas.

Porém, antes de continuarmos com esse assunto, vamos dar um panorama geral sobre o TDAH?

Afinal: o que é TDAH?

O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é um distúrbio de saúde mental que pode causar um comportamento de desentendia, hiperatividade e impulsividade.. É um dos distúrbios mais comuns entre as crianças, mas também afeta muitos adultos.

O paciente tem dificuldade para concentrar sua atenção em uma única tarefa, ou ficar quieto por longos períodos de tempo. Tudo depende da região do cérebro que o transtorno afeta mais.

A causa exata do TDAH não é clara. Contudo, pesquisas mostram que a genética desempenha um papel importante em sua manifestação. Além disso, outros fatores, como estresse tóxico e má nutrição durante a infância, também podem influenciar no aparecimento/complicação desse quadro.

Acredita-se, também, que o TDAH depende de alteração nos níveis de dopamina (neurotransmissor responsável pela sensação de felicidade e bem-estar) e de noradrenalina (administra e influencia as emoções, o sono e a alimentação) na região do cérebro responsável pela auto-regulação (córtex frontal).

Quando essas funções são prejudicadas, as pessoas lutam para concluir tarefas, perceber o tempo, manter o foco e restringir comportamentos inadequados. Isso, por sua vez, afeta a capacidade de trabalhar, sair-se bem na escola, manter relacionamentos adequados e, claro, alimentar-se da forma correta.

A importância do autocontrole na alimentação

Como vimos no tópico anterior, esse déficit das funções executivas de uma pessoa que possui TDAH atrapalham tudo, desde perceber quando está satisfeita, até fazer escolhas alimentares saudáveis ​​no meio de um dia estressante.

Em crianças e adultos, a impulsividade é capaz de levar uma dieta saudável por água abaixo, tornando muito mais difícil para o paciente passar por um MacDonald’s sem comer nada, ou evitar uma pilha de biscoitos recheados.

Para se ter ideia, estudos que analisam hábitos alimentares em geral mostraram que comer distraído (assistindo TV, jogando algo etc) aumenta a ingestão de calorias. Além disso, o estresse e a ansiedade, especialmente quando amplificados pelo TDAH, podem levar qualquer pessoa, de qualquer idade, a procurar comida.

Outras dificuldades alimentares associadas ao TDAH

Para além da obesidade, existem alguns aspectos no âmbito alimentar de uma criança com TDAH que merecem atenção. São eles:

  • baixo peso, fome oculta e desnutrição: o paciente que possui transtorno do déficit de atenção e hiperatividade tem dificuldade em passar um tempo sentado à mesa para alimentar-se direito. Isso faz com que ele coma menos, ou até mesmo nada.
  • epigastralgia: é a famosa “dor na boca do estômago”. Pode ser provocada por gastrite (diretamente associada ao estresse e ansiedade, quadros normais para uma pessoa com TDAH), má digestão entre outros.
  • hiporexia: falta de apetite.
  • hiperfagia: compulsão alimentar provocada por ansiedade, estresse ou depressão.
  • constipação intestinal: a criança com TDAH sente dificuldade para ficar sentada no vaso por muito tempo, ou até mesmo parar o que está fazendo para ir ao banheiro.

Como minimizar as dificuldades alimentares provocadas pelo TDAH

Entendendo a relação entre nutrição e comportamento

A ciência por trás dos efeitos da alimentação no comportamento ainda é bastante nova e controversa. No entanto, todos nós podemos concordar que certos alimentos afetam o nosso humor e organismo, de uma forma geral.

Por exemplo: a cafeína costuma aumentar o estado de alerta de uma pessoa, o chocolate dá a sensação de prazer, o álcool relaxa e deixa o consumidor mais impulsivo e fora de controle, o maracujá causa sono e por aí vai.

Sendo assim, não é de se espantar que deficiências nutricionais também possam afetar o comportamento de uma pessoa. Estudos mostram que enriquecer a dieta com ácidos graxos essenciais, vitaminas e minerais leva a uma redução significativa no comportamento anti-social de um paciente.

Por esse motivo, uma boa quantidade de pesquisas mostra que existem dois caminhos principais a serem seguidos quando pensamos na dieta de um paciente com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade:

  • introdução de alimentos saudáveis (ou até mesmo suplementação), ricos em ácidos graxos essenciais, vitaminas e minerais;
  • eliminação de alimentos muito processados, alérgenos e industrializados.

Introdução de alimentos saudáveis

Muitos estudos mostraram que crianças com TDAH costumam ter hábitos alimentares não saudáveis, ​​ou até mesmo deficiências nutricionais. Isso levou os pesquisadores a especular quais alimentos poderiam reverter essa situação e, com isso, amenizar o quadro do distúrbio.

Eles chegaram às seguintes conclusões:

1. Alimentos ricos em aminoácidos

Cada célula do corpo precisa de aminoácidos para funcionar. Entre outras coisas, eles são usados ​​para produzir neurotransmissores ou moléculas de sinalização no cérebro.

Em particular, aminoácidos como fenilalanina, tirosina e triptofano são usados ​​para produzir os neurotransmissores dopamina, serotonina e norepinefrina. Lembra que já falamos dele mais cedo, e de como a falta de dois destes pode contribuir para o TDAH? Pois é.

São alimentos que possuem altas concentrações de aminoácidos essenciais para a saúde: carne (de todos os tipos), ovos, oleaginosas, leguminosas, grãos, peixes etc.

2. Alimentos ricos em vitaminas e minerais

As deficiências de ferro e zinco podem causar comprometimento cognitivo em todas as crianças, com ou sem TDAH. No entanto, níveis mais baixos de zinco, magnésio, cálcio e fósforo têm sido relatados repetidamente em crianças com esse distúrbio.

São alimentos que possuem altas concentrações de:
  • ferro: feijão, carne vermelha, vegetais verde-escuros, cereais integrais, castanha de caju, leguminosas entre outros;
  • zinco: gema de ovo, linhaça, leite integral, oleaginosas, feijão, camarão entre outros;
  • magnésio: uva, abacate, grãos (aveia, granola, gérmen de trigo etc), soja, peixe, couve, espinafre, batata, beterraba entre outros;
  • cálcio: soja, feijão branco, sementes de linhaça e gergelim, brócolis, vegetais verde-escuros, leite integral, sardinha, tofu entre outros;
  • fósforo: sementes de abóbora e girassol, sardinha, laticínios entre outros.

3. Alimentos ricos em ácidos graxos (ômega-3)

Os ácidos graxos (ômega-3) desempenham papéis importantes no cérebro. Crianças com TDAH, geralmente, têm níveis mais baixos destes.

Ocorre que, normalmente, quanto mais baixos são os níveis de ômega-3, mais problemas de aprendizado e de comportamento as crianças com TDAH podem ter.

Além disso, o ômega 3 parece melhorar a conclusão e a desatenção das tarefas. Além disso, também diminui sintomas do distúrbio como agressividade, inquietação, impulsividade e hiperatividade.

Eliminação de alimentos nocivos à saúde

1. Corantes artificiais e conservantes

Essas substâncias parecem afetar o comportamento das crianças, independentemente de terem ou não TDAH.

Para se ter ideia, um estudo acompanhou 800 crianças com suspeita de hiperatividade. 75% delas melhoraram com uma dieta livre de corantes e conservantes e, depois de voltarem a ingerir alimentos que os possuíam, pioraram novamente.

No entanto, vale ressaltar que, embora esses estudos indiquem que essas substâncias podem aumentar a hiperatividade na criança, muitos cientistas ainda afirmam que ainda não existem evidências suficientes para tal conclusão.

2. Açúcar

Alguns estudos observacionais descobriram que a ingestão de açúcar está apresentando sintomas de TDAH em crianças e adolescentes.

No entanto, teoricamente falando, é mais provável que o açúcar cause desatenção ao invés de hiperatividade. Afinal, os desequilíbrios no açúcar no sangue podem fazer com que os níveis de atenção caiam, junto com a pressão, disposição etc.

E o que fazer para que o pequeno se alimente bem?

É preciso utilizar técnicas de atenção plena, que ajudem o pequeno a criar experiências que o façam ter mais disciplina, planejamento e familiarização com a comida.

Treine a criança para que ela entenda como a preparação dos alimentos funciona, invente brincadeiras para que ela possa sentir o cheiro, sabor e formato dos objetos, tenha paciência e não se frustre caso algo saia dos planos.

De vez em quando, alguns pais costumam “estourar” com pequenos que possuem TDAH. Afinal, eles não conseguem manter o foco, são bastante agitados e impulsivos. Porém, você por acaso mandaria uma criança gripada parar de tossir? Não, né? Afinal, isso não está no controle dela.

O mesmo ocorre com a criança que possui transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Ela não consegue focar em alguma tarefa, ou seguir um planejamento certo porque o cérebro dela ainda não está plenamente preparado para tal.

Por isso, não precisa passar por isso sozinho. Consulte profissionais da área e, caso precise de mais ajuda com as questões alimentares, não hesite em procurar por um nutrólogo pediatra de confiança, combinado?

Gostou do texto? Mantenha-se sempre atualizado sobre as melhores escolhas para a sua vida com o nosso Blog e redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter)! Estamos te esperando.