Epilepsia em cães: a dieta cetogênica pode ajudar?

Cão comendo carne da dieta cetogênica para tratar epilepsia

A epilepsia é uma doença comum e assustadora, tanto nas pessoas quanto nos cães. As convulsões, causadas por estímulos elétricos cerebrais, são imprevisíveis e, muitas vezes, violentas.

Na maior parte dos pacientes, a causa da doença é indeterminada e o diagnóstico é epilepsia idiopática. Porém, as convulsões também podem ser desencadeadas por fatores como: intoxicações, envenenamentos, doença renal ou hepática, hipoglicemia, trauma craniano, derrame, encefalite e câncer cerebral.

A maioria dos cães responde bem ao tratamento com medicamentos anticonvulsivantes, mas em cerca de 30% o processo tem que ser interrompido devido aos efeitos colaterais ou à falta de resposta. Nesses casos, encontrar outra opção que ajude a controlar as convulsões é primordial, pois a doença afeta de forma importante a qualidade de vida e a longevidade dos animais.

A dieta cetogênica tem sido utilizada no tratamento da epilepsia de crianças e adultos há mais de cem anos, com bons resultados. Nos cães, ela tem sido prescrita principalmente como terapia complementar nos casos de epilepsia e câncer.

IMPORTANTE: É imprescindível ter acompanhamento veterinário quando se usa a dieta como terapia metabólica nos casos de câncer ou epilepsia.

O que é a dieta cetogênica?

A dieta cetogênica é rica em gordura, possui quantidade moderada de proteínas e poucos carboidratos. Desta forma, o corpo passa a utilizar as gorduras como fonte primária de energia, ao invés dos carboidratos.

Quando uma pessoa ou animal começa a usar gordura para produzir energia, e não a glicose, o fígado metaboliza esta gordura em corpos cetônicos, utilizados pelos tecidos do corpo para seu metabolismo.

Este processo induz um estado metabólico chamado cetose, caracterizado pelo aumento dos corpos cetônicos e pela redução do nível de glicose no sangue.

Atualmente, a dieta cetogênica é utilizada para tratar a epilepsia e também muitas outras condições. Ela tem efeitos positivos na saúde, no desempenho físico e tem sido usada em diversos estudos humanos para tratamento de Alzheimer, esclerose lateral amiotrófica, diabetes tipo 2, traumatismo crânio-encefálico e câncer.

Quais os ingredientes da dieta cetogênica?

A dieta cetogênica é semelhante à dieta ancestral ou biologicamente apropriada para os cães. Em outras palavras, é uma dieta natural, baseada em carnes cruas, com alta concentração de gordura, quantidade moderada de proteína e muito poucos carboidratos.

A dieta não inclui alimentos processados, frutas ou fontes de amido como milho, batata doce ou ervilha, nem grãos como o trigo.

Os ingredientes básicos da dieta cetogênica canina são:

  • carnes com uma proporção adequada de proteína e gordura;
  • vegetais (preferencialmente verdes escuros);
  • gorduras de qualidade.

Na composição da dieta podem ser utilizadas carnes de origens variadas como boi, porco, frango, peru, cordeiro e pato. Espinafre, couve, brócolis, vagem e couve flor podem ser usados como opções de vegetais.

Quanto às gorduras, triglicérides de cadeia média (óleo MCT), azeite, óleo de palma vermelho e manteiga são boas opções. Gorduras saturadas e monoinsaturadas podem ser utilizadas, mas as poliinsaturadas (óleos vegetais industrializados) devem ser limitadas, pois não são convertidas em cetonas.

Proteína Gordura Vegetais
Boi Óleo de coco Brócolis
Porco Manteiga Vagem
Cordeiro Óleo MCT Espinafre
Frango Óleo de palma vermelho Couve de Bruxelas
Peru Azeite de oliva Couve flor
Pato Óleo de abacate Couve
Peixes Banha de porco Chicória
  Açelga  

A dieta cetogênica leva a uma redução dos níveis de glicose e insulina no sangue e a um aumento da excreção de água e eletrólitos pelos rins. A suplementação de alguns minerais, como potássio e magnésio, e (cálcio também, já que normalmente se faz sem osso) o sódio, é necessária.

É importante que seu cão beba muita água e que seja colocada uma pitada de sal na comida, para garantir o aporte adequado de sódio.

Recomenda-se a adição de fibras na dieta, para evitar a constipação. Uma opção é adicionar sementes de linhaça ou chia (1 colher de sopa por 20kg de peso corporal).

Qual a proporção dos ingredientes na dieta cetogênica?

O principal fator de sucesso ao se induzir a cetose nutricional é garantir um controle rigoroso da quantidade das calorias totais e da distribuição dos macronutrientes: quantidade maior de gordura, moderada de proteína e pequena de carboidratos.

A razão cetogênica representa a distribuição desses macronutrientes em uma refeição:
GORDURA: PROTEÍNA + CARBOIDRATO

Ao fazer o plano terapêutico, o veterinário irá escolher a razão cetogênica adequada para o paciente e calcular as quantidades de cada ingrediente. Por exemplo, na razão 1:1, a dieta irá conter 1 parte de gordura e 1 parte de carboidratos e proteínas somados. Na razão 4:1, a dieta irá conter 4 partes das calorias oriundas de gordura para 1 parte de carboidratos mais proteínas.

Geralmente, ao introduzir o cão na dieta cetogênica, recomenda-se a razão 1:1. O veterinário irá acompanhar o animal durante a transição e determinar o melhor momento para progredir para a razão 2:1 e assim sucessivamente.

Dependendo da saúde intestinal do seu cão, aumentar a concentração de gordura muito rápido pode resultar em alterações gastrointestinais como náuseas e diarréia.

Transição para a dieta cetogênica

É preciso muita paciência ao fazer a transição de um cão para uma nova dieta. A dieta cetogênica pode inicialmente levar à perda de peso do animal. Se isto ocorrer nos primeiros dias da nova dieta, não se preocupe. Monitore cuidadosamente e, se ele continuar a perder peso após uma ou duas semanas, pode ser necessário reajustar o plano dietético.

Após iniciar a dieta, é recomendado variar as fontes de proteína, vegetais e gordura. A variedade torna a dieta interessante para o cão e evita que ele desenvolva aversão a algum alimento específico.

Petiscos não são recomendados, a não ser que façam parte do plano dietético. A maioria contém muitos carboidratos e/ou proteínas, o que pode prejudicar a cetose.

Acompanhamento do cão em cetose

Através de exames de sangue que medem os corpos cetônicos e a glicose é possível verificar se o cão está em cetose nutricional.

Nas consultas de acompanhamento, o veterinário irá coletar sangue para as medidas necessárias e avaliar o estado geral, o peso e o escore corporal do seu cão. Estão indicadas medidas semanais até que estas sejam consistentes.

O melhor horário para a medida é à tarde, antes da última refeição do dia, e esta não deve ser feita após exercício. Também é possível adquirir o medidor de cetonas para aferir os valores de corpos cetônicos em casa e realizar um controle mais frequente.

Um bom indicador de cetose são valores de corpos cetônicos entre 0,3 mMol e 1,4 mMol e glicemia entre 50mg/dl e 75mg/dl. Estas são estimativas aproximadas, mas funcionam como um termômetro do metabolismo do cão.

O futuro…

A busca de conhecimentos sobre a interação entre nutrição, metabolismo e doença é a chave para ajudar os nossos amigos a terem vidas longas e vibrantes.

Pessoas em todo o mundo estão buscando formas de melhorar a saúde dos seus companheiros caninos, seja através de uma alimentação saudável, enriquecimento ambiental, eliminação de vacinas desnecessárias entre outras medidas. A dieta cetogênica tem recebido cada vez mais atenção dentro da medicina humana e veterinária e seus resultados têm sido surpreendentes.

 

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Medicina Veterinária

Médica veterinária, especialista em clínica de pequenos animais, oncologia e nutrição veterinária.

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