Pernas de um bebe usando fraldas isoladas em um fundo branco representando o desfralde

Dra. Mariana Vasconcelos

O processo de retirada de fraldas, ou treinamento esfincteriano (erroneamente chamado de “desfralde”), deve ocorrer de uma forma natural, respeitosa e gentil para a criança.

Aqui, o grande protagonista é a criança, ou seja, o papel dos pais e cuidadores é de supervisionar e apoiar o pequeno. Afinal, ele é o centro do processo e, por isso, cada passo deve seguir o seu ritmo. Esse é um momento muito importante na conquista por mais independência.

Infelizmente, existe uma pressão cultural para esse processo, e vale ressaltar que o tempo é da criança, e não dos pais, nem da vizinha e muito menos da escola ou da sociedade.

Qual é a idade ideal para a retirar as fraldas?

A verdade é que não existem regras rígidas para o início. O processo começa quando a criança demonstra sinais de que já está pronta para ficar sem a fralda. O momento deve ser individualizado e não em conjunto, como é proposto em várias escolas.

A retirada precoce de fraldas não traz nenhum benefício para a criança, e não é sinônimo de inteligência ou esperteza. É importante frisar que a idade não é um bom parâmetro para o treinamento esfincteriano. Em média, o processo começa por volta dos 24 meses de idade, sendo que a grande maioria acontece entre 30-36 meses de idade.

Parâmetros de um bom momento para a retirada de fraldas

Para o início do processo, é importante que a criança não esteja passando por períodos de estresse como, por exemplo, a chegada de um irmão, a perda de um ente querido, mudança de casa, início em uma nova escola etc.

É importante que alguns marcos do desenvolvimento fisiológico, motor, comportamentais e cognitivo estejam presentes para iniciar o processo. São eles:

FISIOLÓGICO:

Controle dos esfíncteres pela criança. A inervação destes, normalmente, se completa a partir dos 18 meses. Só depois disso que o pequeno poderá adquirir controle dos mesmos.

MOTOR:

  1. Habilidade de andar até o banheiro.
  2. Capacidade de sentar no vaso sanitário.
  3. Conseguir ficar seca por várias horas.
  4. Capacidade de retirar a calça e a cueca/calcinha sozinha.
  5. Capacidade de entender comandos de duas etapas.
  6. Saber comunicar o desejo de fazer xixi ou evacuar.

COMPORTAMENTAIS/COGNITIVOS:

  1. Capacidade para imitar comportamentos.
  2. Habilidade em dizer NÃO.
  3. Mostrar interesse em iniciar o processo da retirada de fraldas.
  4. Diminuição da frequência de comportamento de oposição.

Caso a criança tenha constipação, é importante tratá-la antes de iniciar o processo. Normalmente, o controle do coco se inicia antes do que o do xixi.

Como se preparar para esse processo?

Para todo o processo de treinamento esfincteriano, os pais ou cuidadores também devem estar preparados. Não devem preocupar com a pressão de avós, escolas e pessoas próximas. Devem estar cientes que escapes poderão ocorrer e, caso ocorram, devem agir com naturalidade, não devendo haver punições.

As punições, ou o processo de retirada de fraldas autoritário, pode resultar em graves consequências para criança, como:

  • quadros de constipação intestinal grave;
  • retenção urinária e de fezes;
  • doenças da bexiga (como espessamento desta e contração involuntária da sua musculatura, com perdas urinárias, infecção e distúrbios de comportamentos).

O processo deve ser postergado até que os adultos percebam a motivação, interesse e aquisição de habilidades pela criança. Importante que, a partir do momento em que a criança esteja preparada, pelo menos um cuidador tenha tempo e paciência para supervisionar as idas ao banheiro.

Dicas valiosas:

Para que os pais ou cuidadores possam atuar como coadjuvantes do processo, é importante que eles tenham conhecimento dos marcos de aquisição de habilidades da criança. São eles:

  • A criança começa a notar que a fralda está suja, e pode distinguir a urina das fezes, a partir dos 18-24 meses.
  • O pequeno avisa que está com vontade de fazer xixi ou coco a partir dos 24 meses.
  • As crianças, normalmente, começam a pedir para usar o banheiro a partir de 30-36 meses.
  • As crianças adquirem o padrão de eliminação do adulto por volta de 48 meses.

Importante: vale ressaltar que essas idades não devem ser usadas para tornar o processo de retirada de fraldas rígido. Esse parâmetro serve apenas para que os pais ou cuidadores prestem atenção se sua criança está preparada para tal.

Mais uma vez: quem irá orquestrar todo o processo será a própria criança

Caso a criança apresente escapes de urina ou fezes durante o processo, é muito importante mostrar naturalidade e não puni-la por isso. Caso a retirada de fraldas não esteja dando certo, ou haja alguma resistência da criança, não hesite em parar o processo e reiniciá-lo em alguns meses (1 a 3), mostrando sempre para o pequeno que está tudo bem.

Minha criança está pronta. E agora?

O primeiro passo é comprar o penico, redutor de assento com escadinha acoplada ou redutor de assento com banquinho.

Importantíssimo: a criança deve apoiar os pés no chão ou num banquinho para o adequado esvaziamento do intestino e bexiga. Os meninos, de preferência, devem aprender a fazer coco e xixi sentados e, depois, passarem a fazer xixi em pé. Utilizar ferramentas que possam auxiliar no processo, como livros e vídeos lúdicos, é essencial.

Sobre a escolha do penico/vaso sanitário com redutor, o ideal é que seja iniciado com penico por ser de mais fácil acesso, mas não existe uma regra para o melhor dispositivo. Outro ponto importante é que, antes de iniciar o processo, o intestino preso deve ser tratado para evitar comportamentos de adiamento da defecação.

O que você deve fazer:

  • Converse com todas as pessoas que estarão envolvidas no processo (mãe, pai, avós, babás etc) sobre como manter uma constância e harmonia no processo de desfralde.
  • Converse com a escola e inicie o processo em parceria.
  • Convide a criança a ir junto comprar o penico/redutor de assento adequado.
  • Convide a criança a comprar e escolher a calcinha/cueca que irá usar.
  • Coloque o penico ou redutor de assento em local de fácil acesso para a criança.
  • Coloque roupas que sejam fáceis de serem retiradas pela criança.
  • Quando sair de casa, sempre leve uma muda de roupas extra.
  • Incentive a criança a sentar de roupa no penico/ou redutor para acostumá-la, principalmente em momentos que a criança está habituada a fazer coco (normalmente, após as refeições).
  • Evite dar/usar termos pejorativos para o processo, assim como referir que “o cheiro é ruim”, “fedido”, “eca” etc.
  • Encoraje a criança a sentar sem fralda no penico/redutor depois que ela já estiver acostumada.
  • Coloque a fralda suja no penico, ou jogue o coco da fralda no sanitário para que o pequeno entenda o propósito da retirada de fraldas.
  • Encoraje a criança a ir ao banheiro quando ela demonstrar sinais de que está fazendo xixi ou coco, como segurar a genital ou se contorcer.
  • Não puna, ou ameace a criança caso ela tenha perdas de xixi ou coco. Sempre seja gentil e respeitoso com ela.
  • Utilize, durante o processo, fraldas-calças ou calcinha/cueca de treinamento reutilizáveis.
  • Não dê descarga enquanto a criança ainda estiver sentada no sanitário.
  • Tente lembrar a criança de ir ao banheiro quando acordar, e ao longo do dia também, principalmente se ela mostrar sinais. Evite excessos.
  • Elogie sem exageros quando a criança fizer xixi/coco no vaso/penico. Evite dar recompensas materiais.
  • A higienização deve ser sempre da frente para trás nas meninas, e ensine os pequenos a lavarem as mãos após fazerem xixi ou coco.
  • Se a criança mostrar resistência durante o processo, opte por conversar com ela e adiar treinamento por 1 a 3 meses.

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