Mulher mais velha sorridente sentada no sofá

Dra Marta Carrijo

“Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo; tudo muda o tempo todo no mundo”, canta Lulu Santos em seus versos eternizados na música popular brasileira.

As pessoas também mudam. “A moça de 20 anos, apesar de ainda ter algo da menina de 10 anos em si, já acrescentou muita coisa em sua vida. A mulher de 50 anos também. Então, precisamos de uma abertura para nos reconhecermos e nos conhecermos a cada etapa de nossas vidas”, aconselha a médica Marta Carrijo, que pratica a Ginecologia Integrada à Psicologia em suas pacientes.

Esta abertura é o elemento-chave para lutar contra a baixa autoestima

A autoestima, por sua vez, é um processo que se constrói ao longo da vida “a partir de referências próprias que a pessoa desenvolve por meio do olhar do outro”, comenta Carrijo.

Ela explica que é na relação com o outro que nós nos construímos como seres humanos: “Neste olhar que o outro me encaminha, e que eu me vejo reproduzida nele, vou construindo uma imagem de mim mesma. É uma imagem muito maior de como eu me localizo no mundo, de como eu me relaciono com quem está do meu lado e como isto reflete em mim”.

A médica alerta, entretanto, que a referência pessoal de cada um a partir das pessoas com as quais ela se relaciona é apenas uma das principais direções para se compor a autoestima. Afinal, ela se esboça a partir da “nossa capacidade de realizações, de alcançar metas, de interação com o meio ambiente ou do meio em que nós vivemos.”

Imagem solidificada

A pessoa que tem uma autoestima sólida e bem construída tem como referência a si própria “como alguém de valor. Nós temos uma imagem corporal mais solidificada, não no sentido de rigidez, mas de construção”, comenta.

O perfil da mulher na sociedade está em processo de mudança nos últimos 50 anos. São vários papeis a se desempenhar ao longo da vida.

E como ela pode manter a autoestima nestas várias fases da vida?

A esta pergunta, a médica conta que vê estes vários papéis que a mulher tem de desempenhar como um prisma: “Estas nossas facetas são nós mesmas, mas cada uma delas nos permite caminhar no sentido de realização”

Na visão de Carrijo, “é o reconhecimento das inúmeras possibilidades e múltiplos recursos que a mulher por si só tem que vamos caminhando pelo processo de enriquecimento da vida”. De forma otimista, ela acredita que as mulheres podem “ser muito bem realizadas em casa, como mães, esposas, donas de casa, profissionais, amigas etc”.

Na sociedade atual, há muitos padrões em evidência que são transmitidos pela mídia e redes sociais como se fossem modelos obrigatórios a serem seguidos. Sejam eles de beleza, de comportamento, de riqueza entre outros, todos geram baixa autoestima.

Sobre isto, a especialista alerta: “Nós somos seres absolutamente particulares e individuais. A nossa realização não depende da realização do outro, no sentido de que tem que ter igual. O outro pode ser modelo no sentido do estímulo, mas nós temos nosso próprio percurso, então é nele que vamos nos conhecer cada vez mais e nos realizarmos”.

Paradoxo: nada é o que parece no mundo virtual

A Organização Mundial de Saúde reconhece que os diagnósticos de sofrimento humano através da depressão, da angústia, são os mais prevalentes na contemporaneidade. Frente a esta realidade, Carrijo levanta o paradoxo de que, enquanto nas redes sociais está tudo bem com as pessoas, por outro lado, a realidade aponta que há sofrimento: “Tem algo muito estranho que não está caminhando junto”.

Na internet, muitas vezes, a pessoa fala muito e cria a ideia falsa de que é conhecedora de vários assuntos, “de que tem um poder sobre aquilo que ela se propôs a dizer, que é tudo. Então, a autoestima dela fica elevada, uma falsa autoestima que não é real”.

Entretanto, “a vida é independe das redes sociais, pois tem um concreto que destrói esta fantasia do poder absoluto de cada um de nós. No confronto com o dia-a-dia, com a rua, com o trabalho, com as relações humanas, com o sofrimento, temos que enfrentar esta fantasia da perfeição com a realidade, com as relações diretas humanas. Minha autoestima, que lá pode ser poderosa, pode se tornar fragilizada no mundo real”, analisa.

Como encarar, então, estes momentos de dor e sofrimento?

A médica e psicóloga comenta que é a falsa ideia da perfeição, da mágica que não nos atinge, que não nos acomete. Aquele poder do adolescente, de estar acima dos conceitos estabelecidos, das normas, da própria vida, que terminava por volta dos 18 ou 20 anos, hoje, é muito experienciado pelos adultos. Ela explica que “o anonimato virtual permite esta perpetuação, desta ideia da perfeição. E de novo é aqui, no real, que as coisas vão acontecer: o sofrimento, o adoecimento, são as perdas”.

O recomendável é que a pessoa busque trazer a vida para “o momento que está sendo vivido”, trazer a experiência para a sua concretude. Não é negando nenhuma vivência, nenhuma experiência, que vamos fugir dela. É encarando, é assumindo, é defrontando mesmo com a situação que foi colocada pra gente”, avalia.

Oito conselhos para combater a baixa autoestima

  1. Ter uma abertura para se autoconhecer, através de psicoterapia, de processos de leitura etc;
  2. Procurar estar bem consigo mesma, físico e emocionalmente;
  3. Procurar ter relações saudáveis com as pessoas, porque estas melhoram a autoestima;
  4. Ter um trabalho do qual ela goste, não importa qual, seja em casa ou fora;
  5. Praticar atividade física, pois ela melhora a sensação de bem-estar;
  6. Tratar o seu corpo como algo extremamente precioso que precisa receber nutrientes de qualidade, alimento saudável, numa quantidade adequada, nem a mais nem a menos;
  7. Ter fluidez e fazer do passado um lugar para se visitar e não para morar;
  8. Dar um chute na culpa que nos foi colocada e simplesmente viver.

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