Cachorro sendo examinado por uma veterinária

Adriana Bonfioli

Os animais, como os humanos, são um organismo composto de muitas partes e sistemas que interagem entre si. Cada órgão tem as suas funções determinadas e elas afetam o funcionamento dos outros tecidos do corpo.

Remover qualquer órgão inevitavelmente traz consequências para a saúde. Um exemplo disso ocorre após a castração de cachorro, em que são removidos os órgãos reprodutivos dele: útero e ovários nas fêmeas, e testículos nos machos.

Então, para que serve esse procedimento?

A castração é indicada pelos veterinários principalmente para evitar a reprodução indesejada dos cães. Embora seja um motivo válido em muitas situações, como casas com muitos pets ou em abrigos, tutores responsáveis e seus cães devem ser avaliados individualmente e orientados antes de decidirem pela cirurgia.

Nos últimos anos, muitos estudos no mundo todo demonstraram que a castração, especialmente de animais muito jovens, leva a vários problemas de comportamento e de saúde, especialmente do sistema endócrino.

Os perigos da castração precoce

1. Maior risco de doenças e menor longevidade:

Fêmeas castradas precocemente têm maior risco de câncer e outras doenças fatais, que resultam em menor sobrevida. Um estudo realizado em Rottweilers desse gênero evidenciou que: aquelas cujos ovários foram retirados nos primeiros 4 anos de vida viveram, em média, 8 a 10 anos. Já as não castradas chegaram até a idade de 13 ou mais(1).

O efeito protetor dos hormônios femininos é evidente quando se compara a longevidade entre machos e fêmeas: elas definitivamente vivem mais. Isso pode estar relacionado aos efeitos estimuladores do estrógeno no sistema imunológico e seus efeitos contra o estresse oxidativo.

A influência negativa da remoção dos ovários na saúde e longevidade é comprovada também em humanos. Mulheres submetidas à retirada de útero e ovários por doenças benignas têm menor chance de câncer de mama e ovário. Porém, apresentam um aumento da mortalidade por outras doenças como câncer e problemas cardiovasculares(2).

2. Displasia de quadril em machos

A remoção dos hormônios em cães que ainda estão na fase de desenvolvimento altera o fechamento das placas de crescimento e resulta em padrões de avanço e estrutura óssea anormais(3).

Os animais ficam com proporções corporais irregulares, problemas de cartilagem e das articulações. Os castrados precocemente, então, têm o dobro do risco de desenvolver displasia de quadril(4,18).

3. Rotura do ligamento cruzado

A castração de cachorro aumenta a chance de rotura do ligamento cruzado em machos e fêmeas, especialmente de raças grandes(4,5,18).

4. Alterações urinárias

As fêmeas castradas precocemente apresentam maior risco de cistite e incontinência urinária(6, 15).

5. Hipotireoidismo

A ausência dos hormônios sexuais interfere no funcionamento de outros órgãos endócrinos, especialmente a tireóide. O risco de desenvolver hipotireoidismo é maior em animais castrados de ambos os sexos(7).

6. Câncer

A castração, especialmente antes de um ano de idade, aumenta a incidência de vários tipos de câncer:

  • osteosarcoma(8,9);
  • linfoma(10,12,18);
  • linfosarcoma(18);
  • carcinoma de células transicionais da bexiga(11);
  • hemangiosarcoma(12,18);
  • mastocitoma(12, 1, 183);

Quanto mais precoce a castração de cachorro for, mais cedo o diagnóstico de câncer virá.

7. Doenças infecciosas

Cães castrados antes de 12 semanas de idade têm mais risco de doenças infecciosas(14).

8. Demência

A ausência dos hormônios sexuais acelera a perda cognitiva nos cães(16).

9. Alterações de comportamento

Cães castrados precocemente são mais propensos às seguintes alterações de comportamento(12):

  • fobias de barulho;
  • ansiedade de separação;
  • timidez;
  • comportamento amedrontado;
  • agressão relacionada à comida;
  • agressão por medo;
  • excitabilidade;
  • diurese submissa;
  • hiperatividade.

10. Aumento da ingesta de comida e ganho de peso

Cães castrados tendem a comer mais e serem mais preguiçosos, o que acaba resultando em ganho de peso. A obesidade é um importante fator de risco para o desenvolvimento de várias doenças, incluindo o câncer(17).

Por que, então, indicar a castração de cachorro?

A maioria dos veterinários indica a castração das fêmeas para prevenir câncer de mama, útero e ovário. Obviamente, removidos os órgãos, no caso útero e ovários, elimina-se a chance de que sejam acometidos por qualquer doença. Mas… e o câncer de mama?

A maioria dos estudos que recomenda a castração para evitar o câncer de mama em cadelas é antiga e não seguiu os critérios mais recentes para realização de estudos científicos. Em 2012, um grupo de pesquisadores britânicos analisou mais de 11 mil trabalhos publicados sobre o assunto e determinou que apenas 13 deles obedeceram os critérios estabelecidos de confiabilidade. A conclusão do estudo foi que nenhum demonstrou de forma definitiva o efeito protetor da castração de cachorro em relação ao desenvolvimento de câncer de mama(19).

Dois problemas de saúde são prevenidos pela castração: piometra (infecção do útero) e hiperplasia benigna da próstata. Porém, existem evidências claras de que a presença dos hormônios sexuais, especialmente nos dois primeiros anos de vida, é muito benéfica para os animais. Além disso, a chance de ocorrerem essas doenças nessa fase é muito baixa.

Qual a melhor escolha quanto à castração?

É importante entender que a castração tem suas indicações e que cada animal e sua família devem ser avaliados individualmente. Nos casos em que for feita a opção pela cirurgia, deve-se fazer o máximo esforço para que seja evitada a castração precoce, antes de 2 anos de idade.

Além disso, é importante saber que existem métodos alternativos de castração de cachorro que não envolvem a retirada dos ovários e testículos. Nas fêmeas pode ser retirado apenas o útero, e, no macho, pode ser realizada a vasectomia. Esses procedimentos, em mãos capacitadas, são mais simples e têm menor risco de complicações que a castração convencional.

Preservar os hormônios sexuais pode fazer toda a diferença na qualidade de vida e na longevidade do seu cão. Converse com seu veterinário! Busque opções!

“A castração não apenas retira a habilidade dos animais de se reproduzirem, mas também os hormônios sexuais tão valiosos para a saúde. Com isso, estamos causando doenças, algumas potencialmente fatais, que são pouco frequentes ou até mesmo inexistentes nos cães inteiros.” (Dra. Karen Becker)

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Fontes:

  1. Waters DJ et al. Exploring mechanisms of sex differences in longevity: lifetime ovary exposure and exceptional longevity in dogs. https://doi.org/10.1111/j.1474-9726.2009.00513.x
  2. Parker WH et al. Ovarian conservation at the time of hysterectomy and long-term health outcomes in the nurses’ health study. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19384117
  3. Grumbach MM. Estrogen, bone, growth and sex: a sea change in conventional wisdom. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11202221
  4. Torres de la Riva GT et al. Neutering Dogs: Effects on Joint Disorders and Cancers in Golden Retrievers. https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0055937
  5. Slauterbeck JR et al. Canine ovariohysterectomy and orchiectomy increases the prevalence of ACL injury. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15577502
  6. Spain V. Long-term risks and benefits of early-age gonadectomy in dogs. https://avmajournals.avma.org/doi/abs/10.2460/javma.2004.224.380
  7. Krzyżewska-Młodawska A et al. INFLUENCE OF GONADECTOMY ON SERUM FT4 CONCENTRATIONS IN MALE AND FEMALE DOGS. http://www.ejpau.media.pl/volume17/issue1/art-01.html
  8. Cooley DM et al. Endogenous gonadal hormone exposure and bone sarcoma risk. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12433723
  9. Ru G et al. Host related risk factors for canine osteosarcoma. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9691849
  10. Villamil JA et al. Hormonal and Sex Impact on the Epidemiology of Canine Lymphoma. https://www.hindawi.com/journals/jce/2009/591753/
  11. Bryan JN et al. A population study of neutering status as a risk factor for canine prostate cancer. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/pros.20590
  12. Zink MC. Evaluation of the risk and age of onset of cancer and behavioral disorders in gonadectomized Vizslas. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24432963
  13. White CR. Cutaneous MCTs: Associations with Spay/Neuter Status, Breed, Body Size, and Phylogenetic Cluster. https://www.jaaha.org/doi/abs/10.5326/JAAHA-MS-5621
  14. Howe LM et al. Long-term outcome of gonadectomy performed at an early age or traditional age in dogs. https://avmajournals.avma.org/doi/abs/10.2460/javma.2001.218.217
  15. Stöcklin-Gautschi NM. The relationship of urinary incontinence to early spaying in bitches. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11787155
  16. Hart BL. Effect of gonadectomy on subsequent development of age-related cognitive impairment in dogs. https://avmajournals.avma.org/doi/abs/10.2460/javma.2001.219.51
  17. Heidenberger E . Changes in the behavior of dogs after castration. http://europepmc.org/abstract/med/2326799
  18. Hart BL. Long-Term Health Effects of Neutering Dogs: Comparison of Labrador Retrievers with Golden Retrievers. https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0102241#pone-0102241-g002
  19. Beauveais W et al. The effect of neutering on the risk of mammary tumours in dogs – a systematic review. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.1748-5827.2011.01220.x