Psicologia

Sobre pedras no caminho e saídas possíveis.

O bullying não é um discurso contemporâneo, existem relatos de sua ocorrência em artigos de mais de cem anos. Mas é sim, uma questão atual.

O termo bullying é derivado do verbo to bully, que significa tiranizar, oprimir, ameaçar ou amedrontar.

Convidamos a psicóloga Daniela Lizia, especialista em inteligência emocional e programação neurolinguística para explicar como funciona esse tipo de agressão, as consequências, a importância do apoio emocional não só para as vítimas, mas também para os agressores e como uma rede de apoio atenta pode ser fundamental para encontrar saídas.

CS: Daniela, o que é o bullying?

DL:O bullying é caracterizado por um tipo de comportamento violento, intencional e repetido, em que a vítima, fisicamente mais fraca, é agredida sem motivo aparente. O abuso pode ser físico, através de brigas, furtos ou destruição de coisas do colega, ou moral, pelo viés das agressões verbais, apelidos ou difamação. O bullying resulta em humilhação, desconforto, insegurança e constrangimento para a vítima.

CS: Qual é a natureza do bullying?

DL: Quando falamos em bullying, falamos de dois panos de fundo básicos: “A minha relação comigo e a minha relação com o outro”. A linha mestra que sustenta a auto-relação e a inter-relação é a comunicação. Ou seja, comunicação é uma ferramenta fundamental para o auto conhecimento e para os relacionamentos sociais. Nas ações agrassivas muito possivelmente a ferramenta comunicação está deficiente entre os personagens envolvidos.

CS: Mas, por que as pessoas entram em tantos conflitos?

DL:Os seres humano são parecidos em muitas coisas. Porém, o que dá o tempero são justamente as nossas pequenas diferenças. Se fossemos todos iguais o mundo seria um mar de tédio: todo mundo gostando de uma única cor, torcendo pelo mesmo time, todo mundo da mesma altura, com o mesmo corte de cabelo, gostando as mesmas coisas… É a difrença que dá cor, que apresenta novidades e consequentemente nos modifica e melhora como sujeitos. Não aceitar as diferenças resulta em preconceitos, comparações e muitas outras posturas negativas, sobretudo nos processos comunicativos. Ninguém sai ganhando diante de um processo de comunicação ineficiente. Pessoas e palavras merecem cuidado.

CS: Como a vítima se comporta? 

DL:O comportamento da vítima é variável, mas existem sinais de que algo está afetando o sujeito. Normalmente, ocorrem disturbios de sono, alimentação, dores. Resistência a ir à escola, ao convívio e à socialização. Tendência a introspecção, bens podem aparacer danificados e o corpo com marcas, além de sinais de apatia.

CS:  E como age o agressor? 

DL: Os comportamentos de agressão mais comuns são empurrar, fazer comentários de natureza sexual, humilhar, ameaçar, espalhar mentiras, perseguir ou insultar a vítima pessoalmente ou nas redes sociais.

CS: E porque o agressor age assim? Onde ele aprendeu a ser violento? 

DL:Muitas vezes a criança foi exposta a comportamentos violentos, sofrendo ou observando abuso, e aprende a se defender desta forma. Desde a infância agressor já pode mostrar indícios em casa e na escola de desrepeito à autoridade, às regras e a limites de quaisquer natureza. É de extema importância ensinar a criança a conhecer seus sentimentos e a expressá-los de forma adequada.

CS: Como essas agressões podem impactar no futuro da vítima e do agressor?

DL: É bem provável que tanto o agressor quanto a vítima serão futuramente pessoas com dificuldades interpessoais, estabelecerão comportamentos restritivos quanto à confiar nos outros, podem vivenciar problemas de ajustamento social e incapacidade de se relacionar. Serão pessoas que tenderão a acreditar que o mundo é perigoso, que as pessoas não são boas e que por isso precisam se portar defensivamente. Tornam-se muitas vezes isolados socialmente, perdendo a oportunidade de receber afeto e de se relacionar com alguém de forma saudável e genuína.

CS: E qual a melhor conduta quando os pais desconfiam que o filho está sendo vítima de bullying?

O primeiro passo é convidar a criança para uma conversa aberta sobre o que está acontecendo. A partir da admissão do problema, as autoridades escolares devem ser procuradas. Uma excelente estratégia é envolver o jovem no processo de resolução, deixando bem claro todos os passos a serem tomados, isso gerará a segurança necessária para que a busca de ajuda represente o conforto e a efetividade esperados para este momento.

O agressor e a sua família devem ser envolvidos nas conversas sobre a questão. É também muito importante envolver a “platéia”, que são os cúmplices velados da agressão e que, mesmo não participando ativamente, muitas vezes aplaudem o agressor e reforçam o seu comportamento. Os jovens, pais e educadores envolvidos de forma adequada nas negociações tem uma oportunidade de aprendizado e de amadurecimento importantes.

CS: Alguma dica para os pais? 

DL:Olhos de ver e ouvidos de ouvir. Eu sei que ‘no seu tempo’ era tudo diferente… mas tente compreender contexto em que seu filho vive para tentar entender como ele pensa e sente. Confie no valor do acolhimento que a escuta interessada tem. Você não precisa saber tudo e ter todas as respostas, mas precisa ser confiável, ser o porto seguro daquele que conta com você.

Não minimize a queixa do seu filho. Se ele relata que está incomodado e sofrendo com o bullying, deve ser levado a sério. Vítima é vítima e não há razão para responsabilizá-la. Ela precisa ser defendida. Seu filho precisa acreditar que você está do lado dele e vai ajudá-lo a resolver o problema.

CS: E para o jovem vítima de bullying?

‘Nunca seja repositório da violência do outro’. Sentindo que é vítima de agressão, busque ajuda com os pais ou professores. Não esconda, enfrente e relate para as pessoas que podem ajudá-lo a resolver o problema.

CS: E para os agressores?

DL:Sempre é tempo de buscar ajuda. Há muitas formas de ser aceito e admirado genuinamente, e a violência não é um caminho para o reconhecimento respeitoso. Platéia é agressora também, rir enquanto alguém é constrangido é cruel.