Autismo e distúrbios do sono

Menina autista que possui distúrbios do sono deitada na cama tentando dormir

Uma boa noite de sono, ainda mais nos dias atuais, não é garantia para ninguém. Porém, quando falamos em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse fato se torna ainda mais real. Para se ter ideia, diversos estudos científicos sugerem que esse problema acometa, aproximadamente, 50% dos pacientes com essa condição!

As dificuldades, neste espectro, podem ser variadas e até mesmo específicas, incluindo padrões irregulares de sono e vigília, agitação excessiva, insônia, sensibilidade a sons e texturas, e por aí vai.

A grande questão é que a falta de sono, em qualquer circunstância, pode trazer uma série de consequências negativas à saúde. No caso do autismo, isso significa (na maioria das vezes) uma piora de certas características do quadro do paciente e, claro, uma pré-disposição deste a outras comorbidades como ansiedade, depressão, psicose etc.

Sendo assim, não é de se admirar que um ciclo de sono incompleto esteja entre as maiores e mais urgentes preocupações das famílias que lidam com o TEA. Pensando nisso, preparamos um artigo com algumas informações, esclarecimentos e dicas importantes sobre o assunto. Vamos lá?

Quão comuns são os distúrbios do sono em crianças autistas?

Nos últimos anos, uma série de estudos1 indicam o seguinte fato: cerca de 50 a 80% das crianças com TEA têm problemas para dormir. Entre os distúrbios do sono, os mais comuns são:

  • insônia (os pequenos com autismo costumam levar, em média, 11 minutos a mais do que as crianças típicas para adormecerem e, além disso, acordam com frequência durante a noite);
  • apneia do sono (condição que faz com que a pessoa pare de respirar várias vezes durante a noite);
  • padrões irregulares de sono (o sono, no TEA, tende a ser menos restaurador. Os pacientes com essa condição, geralmente, passam cerca de 15% do tempo de sono no estágio REM, essencial para a memória e aprendizado, enquanto a maioria das pessoas neurotípicas permanecem nesse estado durante 23% do descanso noturno);
  • distúrbios do ciclo circadiano, incluindo atraso/avanço da fase do sono (diz respeito aos ciclos de sono e vigília, estabelecidos por nosso “relógio biológico”. Aqui, a criança com TEA está dessincronizada com os padrões usuais de descanso, demorando mais tempo para dormir e acordando mais cedo que o normal);
  • hipersonia (sono excessivo durante o dia ou à noite, podendo ser caracterizada por condições como Narcolepsia e Síndrome de Kleine-Levin);
  • distúrbio do movimento (envolve movimentos repetitivos e involuntários dos membros superiores e/ou inferiores do corpo. Eles costumam ocorrer durante o sono e, por isso, comprometem o descanso de muitas pessoas);
  • parassonias (dizem respeito a uma série de eventos desagradáveis que podem ocorrer durante o sono, comprometendo-o. São alguns exemplos: terror noturno, pesadelo, bruxismo, sonambulismo etc).

E quais são as possíveis causas para tais distúrbios no TEA?

Assim como acontece com diversas características do autismo, as causas para os distúrbios do sono NESTA condição ainda não são bem compreendidas. Porém, existem algumas teorias possíveis para esses problemas. São elas:

  • genética;
  • problemas sensoriais: a maioria das pessoas com TEA é hiper-responsiva a alguns estímulos sensoriais e, por isso, talvez tenham mais dificuldade para dormir porque não conseguem bloqueá-los facilmente;
  • falta de melatonina: alguns estudos sugerem que pessoas com autismo produzem menos melatonina à noite (hormônio relacionado ao sono);
  • doenças físicas ou mentais: além dos desafios relacionados ao sono, muitas pessoas com autismo têm outras doenças físicas e mentais que podem afetar o descanso, como apneia do sono, refluxo, convulsões, transtorno obsessivo-compulsivo, TDAH, ansiedade etc.

Além dessas possíveis causas, as pessoas com autismo também podem achar mais difícil simplesmente “deixar de lado” as preocupações e interesses do dia-a-dia.

Quais são as consequências provocadas pelos distúrbios de sono em crianças autistas?

Existem evidências crescentes de que a falta de sono pode agravar as características/sintomas do autismo.

Crianças que não dormem o suficiente geralmente têm comportamentos repetitivos mais graves e, claro, mais dificuldade para se interagirem com outras pessoas. Além disso, elas tendem a ter mais dificuldade no aprendizado e em tarefas que exigem memória e/ou raciocínio lógico, e costumam ficar mais hiperativas e distraídas.

E, por fim: existem tratamentos disponíveis para ajudar as crianças com TEA a dormirem melhor?

De certa forma, a solução pode ser relativamente fácil: estabelecer uma boa rotina, com horários pré-estabelecidos para acordar e dormir. Antes do sono, um ritual relaxante pode ser útil para fazer com que a criança fique mais sonolenta e tranquila.

Além disso, a preparação para o ambiente é essencial neste processo. Procure deixar o cômodo confortável para a criança, de forma que todas as suas necessidades sejam atendidas, e as hipersensibilidades evitadas.

Caso esse processo não melhore os hábitos noturnos do pequeno, peça ajuda à equipe médica deste. Assim, pode ter certeza de que, juntos, vocês pensarão em diversas formas e dinâmicas que ajudarão a criança a descansar bem!

1Sleep problems in children with autism spectrum disorders, developmental delays, and typical development: A population-based study
Sleep problems in autism spectrum disorders: Prevalence, nature, possible biopsychosocial aetiologies

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Pediatria

Médica, especialista em pediatria e neurologia pediátrica. Atende na Magno Veras Clínica Pediátrica, em Belo Horizonte.

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