Cachorro pulando para pegar um frisbee, uma atividade da rotina do enriquecimento ambiental

Camilli Chamone

Muitas vezes, as pessoas se esquecem que cães são cães! Alguns comportamentos são naturais da espécie canina e é importante conhecê-los para diferenciá-los dos reais problemas comportamentais.

Tentar inibir um comportamento natural de um animal é difícil e prejudicial a ele. Instintos naturais que forem inapropriados para o cão, no local em que vive, podem ser modificados ou canalizados para uma atividade mais positiva. É por isso que o enriquecimento ambiental é tão importante para eles.

Porém, para entender um pouco mais sobre o universo canino, precisamos antes conhecer os comportamentos naturais dos cães. Vamos lá?

1. Latir

Os humanos falam, os gatos miam e os cães latem – isso é natural. O latido excessivo, porém, pode ser indicativo de que o bem-estar do cão está comprometido, além de ser um problema para a família e os vizinhos.

Um cachorro pode latir demais porque se sente inseguro, para chamar atenção ou por estar entediado.

2. Farejar

Você sabia que o principal sentido dos cães é o olfato? Eles reconhecem o mundo pelo cheiro que o mundo exala!

Para potencializar ainda mais essa capacidade olfativa, dentro da boca dos cachorros existe uma estrutura chamada órgão vomeronasal, que capta moléculas odoríferas e as conduz diretamente através do nervo olfativo.

É perfeitamente normal, e desejável, um cão querer cheirar tudo durante um passeio e, inclusive, dar umas lambidinhas naquilo que está cheirando!

3. Roer

Roer é comportamento tão natural dos cães, assim como voar é comportamento natural dos pássaros.

Alguns cães são mais oralizados que outros. Os filhotes, por exemplo, tendem a ser mais “roedores” quando estão trocando os dentes mas, não importa a idade, esse comportamento é perfeitamente normal entre eles!

Para evitar que eles escolham móveis, roupas e sapatos para mastigar, devemos sempre manter à disposição deles ossos recreacionais e brinquedos apropriados para esse fim.

4. Forragear

É a busca e a exploração do ambiente com fins alimentares. Por isso, cães “colam o focinho” no chão em busca de comida, principalmente durante os passeios.

5. Cavar buracos

Cães cavam para enterrar seus “tesouros”, para se deitar em um local fresco ou para fazer ninho. Cavar excessivamente, o sofá ou o jardim, costuma ser sinal de tédio ou ansiedade.

6. Perseguir objetos em movimento

Cães correm atrás de pessoas, ou outros animais em movimento, por instinto de caça.

Por isso, é importante gerenciar o ambiente onde ele está porque dificilmente consegue-se parar um cão que liga o “modo caça” no cérebro!

Treinamento e comunicação construída com o tutor também ajudam muito.

7. Morder para se comunicar

Você já reparou como os filhotes interagem entre si? Sempre com “mordidinhas de amor”! Em geral, eles manejam muito bem as interações dessa forma.

Entretanto, precisamos ensinar aos cãezinhos que morder não é um comportamento aceitável no universo humano. Afinal, eles crescem e a força da mordida também!

Cães adultos também brincam dando mordidinhas leves uns nos outros. A mordida com fins agressivos não pode ser tolerada e esse comportamento precisa ser trabalhado com orientação profissional.

8. Socializar

Socializar é tornar o cão apto a conviver em sociedade humana.

Quanto mais precocemente o cão for apresentado a estímulos diferentes de forma positiva, gradual e controlada, melhor será o grau de sociabilidade dele.

Da mesma forma, quanto mais tardia for a sua inserção social e quanto maior for a sua superexposição aos estímulos do ambiente, menor será a sua sociabilidade.

9. Coprofagia

Comer as fezes dos filhotes é um comportamento natural das cadelas paridas.
Entretanto, esse comportamento em outras situações costuma estar associado a níveis comprometidos de bem-estar, carência nutricional ou uso de medicação corticosteróide.

10. Marcação de território

A urina de um cão oferece inúmeras informações ao outro: sexo do indivíduo, status sexual, emoções, status de saúde etc.

Por isso, cães gostam tanto de cheirar e de, inclusive, dar umas lambidinhas na urina de outros cachorros (é o órgão vomeronasal em ação)!

Marcar território é uma estratégia de comunicação, tanto dos cães machos quanto das fêmeas. Tanto dos cães inteiros quanto dos castrados.

É importante investir em educação sanitária precocemente para evitar o transtorno de ter um cão adulto marcando território dentro de casa! Entretanto, durante os passeios na rua, permita que seu cão marque os postes e os matinhos á vontade.

11. Defender seus recursos

Recurso é qualquer coisa que o cão considere importante para ele – pode ser comida, brinquedo ou até mesmo seu tutor.

Comida costuma ser o recurso mais protegido pelos cães e isso é um instinto atávico de sobrevivência que alguns cães desenvolvem de forma mais exacerbada que outros.

De qualquer forma, a guarda de recursos é um comportamento que não pode ser ignorado pelos tutores porque ele tende a piorar com o tempo.

É importante buscar ajuda profissional e, em hipótese alguma, punir o cão porque ele protege o seu recurso!

Conhecer os comportamentos naturais de um cão é essencial para a boa convivência entre ele e sua família humana.

Tentar humanizar um cachorro é uma das maiores causas de estresse elevado e de bem-estar comprometido nesses animais.

Além disso, conhecer esses comportamentos naturais nos ajuda a planejar e a executar o enriquecimento ambiental, que deve proporcionar aos cães oportunidades para que eles exerçam esses comportamentos de forma positiva.

Atividades de enriquecimento ambiental para os cães

1. Passeio

Passeios na rua estão muito além da “simples” atividade física. Passear é um momento em que o cão pode manifestar uma grande parte do seu repertório de comportamentos naturais (farejar, cavar, forragear, marcar território etc.).

Variar o trajeto do passeio e fazer passeios “na natureza” proporcionam novas e ricas experiências aos cães, que elevam significativamente o bem-estar deles!

2. Brincadeira na água

Se você tem uma piscina, nadar e brincar com o cão na água é diversão garantida. Use um dispersor ou a mangueira para criar uma chuva ou coloque uma bacia grande para que ele possa se refrescar.
Mas, atenção: não deixe os cães na piscina sem supervisão!

3. Creche

Especialmente se o cão fica sozinho em casa por muitas horas, diariamente, uma boa creche pode ser uma oportunidade de oferecer atividade social, física e mental a ele.

4. Pegar a bola

Os cães têm um instinto natural de perseguir coisas em movimento. Ensiná-lo a buscar a bola e trazê-la de volta é um estímulo físico e mental. Mas, atenção: se o seu cão for obsessivo por bolinhas, evite esse brincadeira.

5. Esconde-esconde

Peça a alguém que segure o cão, esconda-se e o chame. Ele vai farejar e encontrar você, ganhando muito carinho e um petisco pela brincadeira!

6. Jogo da memória

Selecione 2 a 5 brinquedos diferentes e dê a cada um deles um nome. Ensine seu cão a buscar o brinquedo correto quando você chamar o nome, utilizando petiscos. Acrescente mais brinquedos a essa técnica de enriquecimento ambiental na medida em que ele aprende os nomes.

7. Obstáculos

Use cadeiras, bambolês, canos de PVC e travesseiros para construir um percurso de obstáculos para ele saltar e passar por baixo. Não se esqueça de dar um petisco sempre que ele acertar.

8. Caixa de papelão

As caixas de papelão são diversão garantida e podem ser usadas de várias formas. Um exemplo é colocar um petisco dentro dela e deixar o cão rasgar o papel para chegar até ele.

9. Tabuleiros recreativos

Ofereça tabuleiros comerciais ou mesmo os feitos em casa para estimular cognitivamente o cão. Nesses jogos, o cão tem que arrastar as peças ou levantar tampas para encontrar os petiscos.

10. Gelo

Gelos contendo frutas, manjericão, alecrim, sálvia, orégano e outras ervas podem refrescar um cão em um dia de calor e, ao mesmo tempo, estimular o seu olfato e o seu tato.

11. Túnel

Existem vários tipos de túneis “pop up” comerciais. Estimule o cão a atravessar o túnel em troca de um petisco e arrase no enriquecimento ambiental!

12. Barraca

Cães, assim como as crianças, adoram uma tenda ou barraca para se esconderem. Fabrique uma usando lençóis velhos!

13. Caixa de transporte

Deixe a caixa de transporte do cão em um local tranqüilo, com cobertas confortáveis, para que ele a use como refúgio quando quiser descansar ou se isolar.

Isso também irá fazer com que se acostume a ela e facilitará quando for necessário usá-la para transportá-lo.

14. Bolhas

Cães adoram “caçar” bolhas de sabão. Existem soluções com odores específicos para eles nas lojas especializadas!

15. Cheiros de animais

Usando roupas velhas, colete “cheiros” de outros animais: cães, gatos ou animais da fazenda, quando possível. Esconda os panos pela casa para que o cão possa farejá-los.

16. Ervas aromáticas, especiarias e óleos essenciais

Hortelã, canela, camomila e dill podem ser usados como enriquecimento ambiental e sensorial para os cães.

Os óleos essenciais de lavanda, camomila e valeriana são seguros quando diluídos. Eles podem ser usados nos brinquedos e no ambiente.

Sempre pesquise antes e use apenas ervas não tóxicas.

17. Objetos da natureza

Traga para a casa um galho de árvore, pinhas, folhas e penas para que o cão possa cheirar e roer. Sempre pesquise antes e use apenas plantas não tóxicas.

18. Bacia e petiscos

Uma bacia com petiscos no fundo pode ser cheia de água, de cubos de gelo, de folhas ou retalhos de jornal para desafiar o cão a encontrá-los.

19. Frutas e legumes recheados

Rechear uma abobrinha ou maçã com a comida aumenta o desafio na hora da refeição.

20. Comedouro lento

Tem o objetivo de tornar a alimentação mais lenta e interativa. Existem várias opções comerciais disponíveis, mas é possível fabricar um em casa usando elástico e cesta.

Basta trançar o elástico criando um obstáculo para a comida que será colocada dentro da cesta.

21. Ossos recreativos

Ossos longos crus ou congelados podem ser utilizados para o cão roer e ainda ajudam a limpar os dentes. Outras opções naturais são casco e chifre de boi.

22. Brinquedos recheados

Um osso longo sem a medula, um rolinho de papel higiênico, uma caixa de ovos de papelão, um chifre, casco de boi ou um brinquedo recheável podem ser preenchidos com petiscos ou comida.

Congelar o brinquedo aumenta o desafio e pode entreter o cão durante horas.

23. Caça ao tesouro

Esconder petiscos pela casa, ou no quintal, e deixar que o cão os descubra é um desafio de enriquecimento ambientalfnadar cheio de diversão.

No início, ande com ele mostrando onde estão, até que entenda a brincadeira.

24. Esconderijo

Coloque petiscos embaixo de um cobertor, ou enrolados em uma toalha, e deixe o cão farejar até conseguir encontrá-los.

25. Varinha de pescar

Use uma vareta resistente e prenda uma corda com um brinquedo na ponta. O cão irá persegui-la para tentar pegar o brinquedo.

26. Brinquedos pendurados

Use uma corda ou elástico com um brinquedo na ponta e pendure-o em um galho ou na porta. Use brinquedos macios e maiores, que não possam ser engolidos.

27. Brinquedos que se movem

Use carros de controle remoto ou brinquedos que se movem sozinhos para estimular o cão a se movimentar.

28. Massagem e escovação

Escovar e massagear o cão é um estímulo tátil importante e que promove a sua ligação com o tutor.

E, por fim, dicas de segurança para um bom enriquecimento ambiental

  • Os animais devem ser sempre supervisionados durante as atividades e o uso dos brinquedos, especialmente durante as primeiras exposições;
  • Cuidado com atividades que usam cordas, correntes e cabos, pois existe o risco de estrangulamento;
  • Partes do animal como focinho e patas podem ficar presos no brinquedo. Se ele tiver furos, este deve ser pequeno ou grande o suficiente para que isso não ocorra;
  • Alimentos devem ser removidos antes de estragarem e os brinquedos lavados;
  • Evite usar objetos pequenos que possam engasgar o animal;
  • Remova o brinquedo se o animal estiver roendo e ingerindo partes que não são alimento.

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